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quarta-feira, 18 de março de 2009

O QUE É QUE ACONTECEU AO TERMO LOBO ALPHA? por David L. Mech

O termo alpha aplicado aos lobos tem uma longa história. Durante muitos anos livros e artigos sobre lobos mencionavam o macho alpha e fêmea alpha ou o par alpha. Em muita literatura popular, o termo ainda é usado. No entanto, observadores interessados, devem ter constatado que nos últimos anos esta tendência começou a mudar. Por exemplo, 19 proeminentes biólogos que estudam somente lobos da Europa e da América do Norte não mencionam o termo alpha, nem uma só vez, num longo artigo sobre os pares procriadores de lobos. O artigo entitulado “Os efeitos da perda de procriação em lobos”, foi publicado em 2008 no “Diário de Gestão da Vida Selvagem”. Em 448 páginas, o livro de 2003” Lobos: Comportamento, Ecologia e Conservação”, editado por Luigi Boitani e por mim mesmo e escrito por 23 autores, o termo alpha é mencionado em apenas 6 ocasiões e todas elas para explicar porque é que o termo está desactualizado. Porquê?


Esta mudança na terminologia reflecte uma importante mudança na forma como pensamos sobre a estrutura social lupina. Na vez de vermos uma matilha de lobos como um grupo de animais organizados com um “chefe” que lutou até chegar ao topo, ou um casal de lobos tão agressivos que são quem “manda”, a ciência começou a entender que as matilhas de lobos, são meros grupos familiares formados exactamente da mesma forma que os grupos familiares humanos. Isto é, um lobo macho e fêmea maturos de grupos diferentes, dispersam-se dos seus grupos originais e viajam até se encontrarem um ao outro e uma área livre de outros lobos, com presas adequadas. Cortejam, procriam e produzem a sua própria ninhada.

Por vezes este processo implica apenas um lobo macho maturo que corteja uma fêmea matura de um grupo vizinho e depois o par estabelece-se num território perto de onde os grupos originais se encontravam. Em populações mais saturadas, isto pode querer dizer que os lobos têm que viajar grandes distâncias para encontrarem os seus pares e locais novos. Este é o processo que ajuda uma população crescente de lobos a expandir-se. Um bom exemplo é a crescente população lupina em Wisconsin. Ali, não só a grande parte da população de lobos se encontra na parte norte do estado continuando a encher o Norte com mais e mais grupos, mas os lobos conseguiram formar uma população separada na parte central deste estado através da dispersão e proliferação dos grupos. Actualmente cerca de 18 grupos vivem no centro do estado de Wisconsin.

Mas voltemos à família. Á medida que o par original cria as suas crias, estes alimentam-nos e protegem-nos como qualquer outro animal o faz com as suas crias. Á medida que as crias crescem e se desenvolvem, os seu pais naturalmente guiam as suas actividades, e as crias naturalmente seguem. Certamente à medida que as crias crescem, estas começam a desenvolver alguma independência, e alguns vagueiam temporariamente para fora do grupo explorando os caminhos. No entanto, os pais continuam a guiar o grupo, enquanto caçam, definem o seu território, afastam outros animais das suas presas e protegem o seu grupo de grupos de lobos vizinhos com os quais se podem encontrar.


Á medida que as crias se desenvolvem e chegam a 1 ano de idade, os seus pais produzem uma segunda ninhada, que se tornam então nos irmãos mais novos da 1ª ninhada. Novamente os pais continuam a guiar e liderar a velha ninhada assim como a nova ninhada e mantenhem-se os líderes da matilha. As crias mais velhas naturalmente “dominam” os irmãos mais novos, da mesma forma que os irmãos e irmãs mais velhas numa família humana “dominariam” os seus irmãos mais novos, mas continua a não existir nenhuma batalha para “ganhar liderança”; essa mantém-se naturalmente com os pais. Algumas das crias mais velhas começam a dispersar entre o 1º e o 2º ano de idade em algumas populações e noutras poderão manter-se no grupo original até aos 3 anos de idade. No entanto, eventualmente quase todos se dispersam e tentam encontrar um companheiro e começar os seus grupos e matilhas.

Dada esta história natural do lobo, faz tanto sentido referirmos os pais de um grupo de lobos como os alphas como referir os nosso próprios pais humanos como alphas. Sendo assim agora referimo-nos a estes animais como o macho que procria e a fêmea que procria ou o par que procria ou simplesmente os pais.

Na vez de ver uma matilha de lobos como um grupo de animais organizados com um líder que lutou com todos até chegar a essa posição, ou com um par macho e fêmea agressivos, a ciência entendeu que a maioria das matilhas de lobos são simplesmente famílias formados exactamente da mesma forma que as famílias humanas se formam.


Então como é que a ciência esteve tão “enganada” durante tanto tempo em referir-se aos lobos como alphas? A resposta inclui uma história que ilustra de uma forma bastante interessante a forma como a ciência evolve.
Várias década atrás, antes de existirem muitos estudos feitos com lobos no seu ambiente natural, os cientistas que se interessavam pelo comportamento social animal pensavam que as matilhas de lobos eram um agrupamento aleatório de lobos que se encontravam no inverno de forma a caçarem melhor em grupo. Sendo assim, de forma a estudar lobos, a única forma que eles conheciam na altura, era escolher uma série de lobos aleatoriamente de variados jardins zoológicos e juntá-los numa colónia captiva em ambiente controlado.


Claro, quando alguém coloca artificalmente um grupo aleatório de indivíduos juntos, seja de que espécie forem , estes animais irão naturalmente competir uns com os outros de forma a criar uma espécie de hierarquia. Isto é o mesmo fenómeno da hierarquia linear existente e originalmente observada nas galinhas. Em tais casos, é apropriado referir aos indivíduos que estão no “topo” como alphas, implicando que competiram e lutaram para ganhar acesso a essa posição. E assim era com os grupos aleatórios de lobos colocados juntos artificialmente.


Sendo assim, os principais cientistas que estudaram os lobos em captividade, tais como Rudolph Schenkel, publicaram uma famosa monografia descrevendo as interacções dos lobos uns com os outros, neste tipo de grupos, afirmando de que existe uma fêmea e um macho que lideram e referindo-se aos mesmos como alphas.
Esta monografia clássica foi a principal peça de literatura sobre os grupos sociais de lobos na altura em que eu escrevi o livro O Lobo - Ecologia e Comportamento de uma raça em perigo nos finais de 1960. Este livro foi uma síntese da informação acerca dos lobos que existia na altura, como tal eu mesmo incluí muitas referências aos estudos de Schenkel. O livro foi um sucesso porque nenhuma outra síntese havia sido escrita acerca do comportamento dos lobos desde 1944, como tal, “ O Lobo” vendeu bem. Foi originalmente publicado em 1970 e republicado em 1981. Actualmente existem mais de 120.000 cópias em circulação deste meu livro. A maioria dos outros livros posteriormente escritos sobre lobos basearam-se bastante no livro “O Lobo”, dessa forma contribuindo para a distribuição mundial da informação errada acerca do conceito dos lobos alpha.



Finalmente nos finais de 1990 após eu ter vivido com uma matilha de lobos selvagens no seu habitat natural na ilha de Ellesmere perto do Pólo Norte por muitos verões presenciando pessoalmente as interacções entre pais e as suas crias, eu decidi corrigir a informação. Por essa altura, no entanto, quer o público em geral como a maioria dos biólogos já tinham adoptado completamente o conceito alpha e a sua terminologia. Parecia que ninguém conseguia falar de uma matilha de lobos sem mencionar os alphas. Muitas pessoas perguntavam-me o que tornava um lobo alpha um lobo alpha e que tipo de lutas e competições ocorriam para que ele assumisse essa posição.

Em 1999 eu publiquei o artigo “O Status Alpha, Dominância e Divisão de trabalhos em matilhas de lobos” no Jornal de Zoologia Canadiano dessa forma corrigindo a informação errada na literatura científica. Eu segui esse artigo em 2000 com outro artigo “ Liderança nas matilhas de Canis Lupus” publicado no Canadian Field Naturalist mais uma vez focando-me no papel dos lobos como pais no grupo social de lobos.

No entanto, bem se diz que demora cerca de 20 anos até que uma nova ciência realmente seja absorvida, incluindo novos feitos médicos! Este “dito” parece estar a confirmar-se com o conceito do lobo alpha. Muitos dos meu colegas biólogos já aceitaram os novos termos e actualizações, mas outros enquanto discursam, corrigem-se quando conversam comigo; ainda outros parecem completamente abstraídos do tema. É realmente inspirante ver novos documentos publicados, tais como os que citei acima na introdução a este artigo, que usam as novas terminologias.

O assunto não se prende meramente com semântica ou um do que é politicamente correcto. É um do que está na realidade biologicamente correcto, uma vez que o novo termos de pais ou par que procria descreve de uma forma exacta o papel destes animais na vez de perpetuar uma ilusão errada.
Um local onde este assunto se torna particularmente confuso é no Parque Nacional de Yellowstone, onde multidões visitam e passam muito tempo a observar lobos, lado a lado com os biólogos e naturalistas. Porque a população de Yellowstone foi recentemente refeita e goza de um excesso de presas (cerca de 6,000 a 12,000 veados, 4,000 bisontes e muito mais) a estrutura social das matilhas é mais complexa e artificial do que as normais. Aí, os lobos jovens dispersam muito mais tarde, quando têm 2 ou 3 anos ao invés de 1 ou 2 anos, fazendo com que os grupos sejam maiores que conteêm mais indivíduso que qualquer outro grupo de lobos no mundo.
Nestes grupos onde tanto a mãe e algumas das suas crias mais velhas já encontraram a maturidade sexual mas não dispersaram, todas acasalam no mesmo ano, sendo que as crias mais velhas normalmente são acasaladas por machos lobos jovens estranhos ao grupo.
Quando mais do que uma fêmea procria num só grupo, as fêmeas tornam-se naturalmente mais competitivas, portanto talvez seja apropriado referir a matriarca original como a fêmea alpha e as suas filhas como as “betas”. Os observadores de Yellowstone usam com regularidade esta terminologia, mas muito frequentemente esta é aplicada a todos os lobos que procriam, mesmo naquelas matilhas onde só existe 1 par de lobos a procriar. Enquanto que não é incorrecto usar o termo alpha em grupos de lobos onde existem mais do que uma fêmea a procriar, era desejável e até mesmo aconselhável usar outra terminologia com menos significado subjacente. Por exemplo, a fêmea alpha poderia ser chamada de dominante ou matriarca, e as suas filhas de subordinadas.
Esta aproximação iria ajudar na reforma da terminologia e na percepção quer da ciência como do público em geral de como se organizam os lobos.


Esperemos que leve menos do que 20 anos até que os media e o público adoptem a terminologia correcta e assim de uma vez por todas acabar com a visão antiquada e errada dos lobos como um grupo de indivíduos agressivos que consistentemente competem uns com os outros por uma estatura hierárquica.


L. David Mech is a senior research scientist for the U.S. Geological Survey and founder and vice chair of the International Wolf Center. He has studied wolves for 50 years and published several books and many articles about them.

sábado, 13 de dezembro de 2008

MITOS ACERCA DA DOMINÂNCIA E COMPORTAMENTO DE LOBOS RELACIONADO COM CÃES - AVSAB

Texto retirado e traduzido do seguinte documento da AVSAB - American Veterinary Society of Animal Behaviour

O meu cão salta para cima de mim, rouba comida quando não estou a ver, tenta subir para o meu colo o tempo todo, pede festas e na maioria das vezes ignora-me quando o chamo. São estes sinais de dominância por parte dele?

Não. Nos sistemas sociais animais, dominância +e definida como o relacionamento entre dois ou mais indivíduos, estabelecido através da força, agressão e submissão de forma a obter-se prioridade aos recursos (Berstein 1981, Drews, 1993). A maioria dos problemas comportamentais descritos acima ocorrem não do desejo de obter um ranking mais alto, mas simplesmente porque são comportamentos que foram reforçados no passado. Por exemplo, os cães saltam para cima das pessoas e sobem para os colos porque quando o fazem, eles ganham a atenção dos donos. Da mesma forma, um cão não vem quando é chamado se está a ser reforçado pelos objectos ou actividades que os distraem ou se foi criada uma associação negativa à chamada através do castigo. Até roubar comida quando não estamos a ver, não é um display de dominância. Na vida selvagem, animais de ranking baixo roubam comida quando os animais de ranking superior não estão a guardar esses recursos. Esta é uma estratégia alternativa para over os recursos que eles querem. Aqueles que são recompensados com o sucesso, terão mais chances de repetir a “façanha”.

Porque os cães estão relacionados com os lobos, devemos usar o modelo social dos lobos para compreender os cães.

Enquanto que podemos tirar ideias dos tipos de comportamento que podemos estudar nos cães baseandomo-nos no que sabemos acerca dos lobos, o melhor modelo para compreender cães domésticos é mesmo o modelo dos cães domésticos. Os cães divergiram significativamente dos lobos nos últimos 15,000 anos. Os lobos, desenvolveram-se como caçadores e geralmente vivem em grupos consistindo maioritariamente de membros da sua família (Mech, 2000). Os membros desse pack cooperam na caça, em tomar conta das ninhadas. Num dado ano, heralmente apenas o macho a fêmea dominantes acasalam, de forma a que os recursos do pack inteiro possam-se focar nos mais novos. Os cães, por outro lado, desenvolveram-se como animais que comem restos na vez de caçadores (Coppinger e Coppinger 2002). Estes que eram os menos medrosos, sobreviveram dos restos e lixeiras dos humanos e reproduziram-se nesse ambiente. Actualmente, cães que vivem á solta (selvagens) vivem em grupos pequenos na vez de packs de cães coesivos, e nalguns casos passam a maior parte do tempo sózinhos (MacDonald e Carr 1995). Eles usualmente não cooperam para caçar ou para criar e virtualmente todos os machos e fêmeas têm a oportunidade de acasalar (Boitani et al 1995). Diferenças tão notáveis como estas nos sistemas socias, levam inevitavelmente a diferenças notáveis no comportamento.

Ouvi dizer que se eu achar que o meu cão é dominante, deverei rolá-lo no chão de costas num “alpha roll” e rosnar no focinho dele porque é isso que um lobo alpha faria.

Num pack de lobos, os alphas nunca rolam de costas os lobos de ranking mais baixo. Na vez disso, são os lobos de ranking mais baixo que mostram a sua submissão deliberadamente rolando-se de costas para o lobo dominante. Este movimento submisso é sinal de deferência, semelhante quando nós cumprimentamos a raínha ou o papa e nos ajoelhamos. Consequentemente o termo mais apropriado para essa postura seria na vez de “alpha roll”, “submissive roll” (Yin 2009).

Mesmo que os lobos não rolem os membros submissos de costas parece que resulta em alguns casos. Será que deverei tentar na mesma essa técnica com o meu cão agressivo?

A causa mais comum para agressão é o medo. Forçar um cão a rolar-se de costas no chão quando ele já está assustado não irá resolver o cerne do problema. Pior que isso, pode aumentar a agressão (AVSAB, 2007). Na realidade, um estudo recente feito em cães (Herron at al 2008) mostra que técnicas confrontacionais tais como bater, pontapetear o cão quando este demonstra comportamentos agresssivos, rosnar no focinho do cão, executar “alpha rolls”, olhar para o cão de cima para baixo e forçar uma “submissão” frequentemente desencadeiam respostas agressivas no cão. Esta agressão pode também ser direccionada a objectos inanimados, outros animais ou outras pessoas para além do dono. Mesmo castigos não físicos, como reprimendas verbais demasiado severas, ou abanar um dedo em frente a um cão, podem desencadear agressão defensiva se o cão se sentir ameaçado.

Ouvi dizer que para ser o líder, tenho que passar pelas portas primeiro e caminhar á frente do meu cão, como os lobos fazem.

Num pack de lobos, o lobo alpha apenas lidera a caça uma fracção do tempo (Peterson et al 2002). Para além disso quando estão a caçar, eles não mantém uma formação linear baseada no seu ranking.
Uma vez que o alpha come primeiro, deverei eu comer antes do meu cão?
Lobos alpha não têm necessariamente acesso prioritário á comida. Uma vez que o lobo tem acesso a comida pode não cedê-la a outro lobo independentemente do ranking do mesmo. Quando a comida ainda não está na posse de nenhum lobo, agressão ritualizada poderá ocorrer (rosnar, mostrar os dentes) sendo que lobos de ranking mais alto usualmente ganham. Mas claro isto são lobos em caça com comida em escassez e não cães e pessoas onde abunda a comida e não existe o factor caça.

Dar guloseimas aos cães pode torná-los dominantes.

Mesmo entre animais selvagens a partilha de comida não está relacionada com hierarquias. Lobos adultos frequentemente regurgitam comida para os mais novos. Machos de outros espécies frequementemente trazem comida às fêmeas como parte da “sedução”. Dar uma guloseima ao seu cão quando ele salta ou ladra leva ao fortalecimento desses comportamentos. Mas não lhe diz que ele está num ranking acima ou que tem prioridade a recursos.

Rosnar a um cão, mordê-lo ou fazer um gesto com a mão que finge ser uma garra imita o que os lobos fazem aos subordinados?

Não existem estudos nenhuns que provem isto. No entanto, como experiência pode perguntar a alguém que já tenha sido mordido por um cão se o facto de você lhe tocar com a mão em forma de garra tem um efeito semelhante ao mesmo quando ele foi mordido, ou se o seu rosnar ou morder é tão feroz como o de um cão. Em geral, nunca devemos assumir que as nossas acções mimicam as dos cães ou dos lobos. Na vez disso, deveremos avaliar as nossas interacções com os cães, observar as suas respostas e tentar entender como eles as percebem.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008


A teoria da dominância está desesperadamente a necessitar de uma substituição. Schenkel protestou no instante que a teoria foi usada para explicar a organização social de lobos, mas por algum motivo, as pessoas ignoraram-no. Não demorou muito a que o mesmo mito fosse aplicado aos cães.

Nem sequer podemos chamar a isto má aplicação da ciência, porque na realidade não é sequer ciência.

O seguinte documento publicado de Semyonova, A., 2003, “The social organization of the domestic dog; blowing up the dominance myth”, The Carriage House Foundation, The Hague, é baseado no estudo publicado que estudou a interacção social entre cães.

Em seguida transcrevo o abstracto do documento e deixo o link para o estudo em si, que está em inglês.

Abstracto


A teoria de que uma hierarquia baseada em relações dominantes é o principal princípiopelo qual se regem os grupos do tipo lupus familiaris é uma projecção humana que precisa de ser substituida. Para além disso, o modelo foi sem justificação possível transferido do seu propósito original na discussão do comportamento de lobos para a discussão do comportamento de cães. Este documento representa um novo e mais adequado modelo de como os familiaris se organizam quando estão em grupos. Este documento está baseado num estudo longitudinal de um grupo de 5 cães arbitrários a viverem no seu habitat natural, enquanto interagem uns com os outros dentro do grupo, com novos membros de várias espécies a juntarem-se ao grupo e com o encontro de vários indivíduos de outras espécies no ambiente externo.


Este estudo mostra que a existência do fenómeno da “dominância” é questionável, mas que em todo o caso a “dominância” não opera como um princípio na organização social dos cães domésticos. As hierarquias dominantes não existem e são de facto impossíveis de serem construídas sem se entrar no mundo da projecção e da fantasia humana.


As hipóteses foram testadas através de repetidos sistemas caóticos e observando se o modelo previa a evolução de cada novo sistema. O estudo mostrou que os grupos sociais domésticos devem ser vistos como sistemas *autopoiésicos complexos, onde o comportamento primário e sistemático é gravitação, o mais rápida possível, para uma divisão estável da “paisagem social” de forma a que cada animal presente esteja seguro numa “colina” e não seja ameaçado por outros elementos do grupo. A agressão não é usada na divisão desta “paisagem social”. É impossível para um observador estabelecer as “alturas” destas “colinas”. Não existe hierarquia entre os animais.


A organização do sistema é baseada em binómios, que são convertidos pelos agentes, o mais rapidamente possível, de competitivos para binómios complementares ou cooperativos, através de domínios de consenso.


Os processos de produção através do quais,isto é conseguido, detêm duas partes.


A primeira é um elegante,e claro, mas aprendido, sistema de gestos comunicacionais que permitem aos animais orientarem-se entre eles de forma adequada e emitir respostas apropriadas de forma a manter e restabelecer a estabilidade das suas “colinas” e da “paisagem social” em geral.


A segunda é aprendizagem da história de cada animal, que irá permitir estabelecer as capacidades de cada um em operar dentro desses sistema e quais os componentes da sua individualidade que definirão a sua “colina”, o que é bem mais importante do que factores presumivelmente genéticos ou posições dominantes fabricadas por nós.



Semyonova, A. 2003, The social organization of the domestic dog; a longitudinal study of domestic canine behavior and the ontogeny of domestic canine social systems, The Carriage House Foundation, The Hague, http://www.nonlineardogs.com/embed-SocOrg.html , version 2006.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

A Panacéia da Dominância por Jean Donaldson


Um modelo que é usado como quasi-justificação para o uso de aversivos no treino é a teoria da hierarquia. Desde que a teoria da hierarquia linear foi postulada nos lobos, donos de cães e treinadores excedem-se nos seus esforços em querer justificar todo e qualquer comportamento canino e interacção humano/canina em termos de “dominância”. Nós realmente colamos a esta. É um belo exemplo de um meme**(explicação em baixo) bem sucedido. Os cães portam-se mal ou são desobedientes porque ninguém lhes mostrou quem é que manda. Tu deves ser o “alfa” dentro do teu “pack”. Para além de ser mais uma forma de justificar métodos de treino aversivos – implica que o cão supostamente passa as noites acordado a planear “um golpe de estado” portanto é melhor que você o mantenha no “seu lugar” com muita coerção – dominância fornece explicações rápidas e simplistas para o comportamento canino.


Para os donos de cães, esta explicação simplista, torna desnecessário o trabalho de se ter que estudar uma série de tópicos, como por exemplo, como os cães aprendem. Noções de cães que passam por portas antes dos donos, ou que puxam na trela para assertivar dominância sob os seus donos, são estúpidas demais para serem comentadas. Algumas pessoas têm estes conceitos tão confusos que vêm comportamentos como saltar ou colocar um pata em cima do dono, como exibições dominantes e como tal boas justificações para uso de aversivos. A panacéia é, uma vez mais, uma forma de tirar uma conclusão rápida antes de excluir explicações bem mais óbvias. Cães roem mobílias porque, para que mais poderão servir? São desobedientes porque não fazem ideia do que lhe estão a pedir, estão desmotivados, ou outra coisa qualquer ganhou o jogo da motivação naquela dada situação. O ranking não está nas suas mentes.

Sendo assim, tem que existir uma separação entre um cão se demonstra comportamentos de apaziguamento e um cão que está sob o efeito da coerção. Se aplicar choques eléctricos contínuos a um cão após fazer a chamada, e desligar os choques quando o cão chegar perto de si, e o cão aprender que pode escapar e mais tarde evitar o choque vindo o mais rapidamente possível assim que você dá o comando, você tem controlo aversivo. Pode fazer o mesmo, e muitos fazem, usando estranguladoras ou jornais enrolados. Isto, no entanto, não é necessariamente uma manobra de dominância. Como é que isto tem impacte numa hierarquia é uma questão retórica. Esta é de facto uma grande falácia.

Da mesma forma que, se um cão souber que tem uma chance em 5 de receber uma recompensa se vier quando chamado e que a probabilidade é que possa voltar ao que estava a fazer, se vier imediatamente, e que irá de facto perder uns minutos de liberdade se não cumprir, também este, irá exibir uma forte e boa chamada. Isto é controlo sem aversivos. O que interessa aqui não é que tipo de motivação você usa, evitamento ou reforço positivo, mas a ligação inexistente que tudo isto tem com o tema da dominância.

Se existe um cão que não cumpre com os comandos, o cão pode ser treinado usando condicionamento operante. Este é o meio mais directo de aceder a modificação comportamental. Usar conceitos como dominância para explicar porque é que um cão falha em vir quando é chamado, quando na realidade não foi devidamente treinador para fazê-lo é complicar assuntos simples. Pode virar o cão do avesso quantas vezes quiser, mas o cão continuará a não vir se não fôr devidamente treinado e o comando fôr generalizado. E pode virar o seu cão de costas e segurar nele a noite toda ( e passar á frente dele por todas as portas) que ele irá mordê-lo na mesma se você ultrapassar o limite dele. Existe uma gritante falta de rigor, sobriedade e moderação no mundo canino, e a aparente popularidade da falácia da “dominância” é um exemplo forte disso.

O meu mito favorito é passar pelas portas primeiro. Que tolo inventou a noção de que o cão entende e exerce dominância, se preceder o seu dono a passar pelas portas? Quando os cães passam pelas portas a correr, não deveriamos primeiro pensar que apenas estão a querer diminuir a distância entre eles e o que está do outro lado o mais rapidamente possível, porque são cães, porque estão excitados e porque nunca ninguém lhes deu um motivo para não o fazerem?

Sempre que existe este despero pelos “porquê, porquê, porquê” que um cão faz algo, na vez de se basearem imediatamente na dominância pensem nestes dois aspectos primeiro:



  1. Porque o ambiente está de alguma forma a reforçar esse comportamento


  2. Porque nunca ninguém ensinou devidamente o cão a fazer algo diferente

A panacéia da dominância está tão fora de proporção que escolas inteiras de treino canino são baseadas na permissa de que se você conseguir execer dominância sob o seu cão, tudo o resto se resolverá. Não só significa que abusos irão ser cometidos contra o cão, provavelmente aumentando os problemas tais como chamadas inconsistentes e agressão, mas questões importantes, como condicionamento bem executado e manipulação adequada do ambiente do cão serão renegadas, resultando em cães não treinados, a cummprir um “inútil” programa de dominância.



Nada disto quer dizer que os cães não são uma espécie cuja vida social relega às regras hierarquicas. Mas eles também vêm bem à noite e ninguém propõe cirurgia às retinas para resolver os seus problemas de agressão ou não cumprimento de comandos. A teoria da dominância, é simplesmente a forma mais deselegante de explicar, e querer tratar, problemas como agressão e “desobediência”. Treinadores e pessoas que usam aversivos para treinar tendo como base o modela da dominância, teriam muito melhores resultados com menos trabalho se usassem esses mesmos aversivos com uma compreensão de como os cães aprendem, ou, melhor ainda, se deixassem os métodos punitivos totalmente de lado e tentassem outras ferramentas que o comportamentalismo oferece.


O conceito da dominância é simplesmente desnecessário.

** meme - s. idéia, prática social, conceito ou ação que se torna norma e é conscientemente repetido numa sociedade (termo cunhado por Richard Dawkins no livro "The Selfish Gene", 1976)

domingo, 7 de setembro de 2008

O cão na sua sala-de-estar por Barry Eaton

Se tem um cão, será você o líder da matilha? Tem a certeza que com a mãe, o pai, as crianças e o cão, é o cão que tem o status mais baixo do pack?

Há muitos anos para cá, que é dito aos donos de cão que estes têm que ser os líderes da matilha. Que todos na família têm que ser dominantes sob o cão, ou este poderá tornar-se dominante sobre eles. Algum sinal de fraqueza humana, e o cão com um predisposição dominante poderá tirar partido e tentar um status mais alto dentro do “pack”. Isto, somos ditos, faz com problemas comportamentais se desenvolvam, ou a que o cão seja teimoso e desobedeça comandos.
Se isto acontecer somos aconselhados a implementar um Programa de redução de rank, que inclui entre outras coisas, comer sempre antes do cão, não permitir que ele durma na cama, não jogar jogos de tug-of-war e não permitir que passem pelas portas primeiro. Em adição a isto, como o antepassado do cão é o lobo, os programas de redução de rank são baseados em comportamento lupino, apesar do facto de que temos um cão na nossa sala de estar, não um lobo.


Novas pesquisas e novas teorias do comportamento canino revelaram-se recentemente, e como tal, apenas por interesse vamos olhar para a vida de um cão sob uma perspectiva diferente. A primeira questão que temos que considerar é e o cão é um animal de matilha. De acordo com o etologista Ray Coppinger, não. Ele estudou um grupo de cães ferais que viviam á volta de uma aldeia. Eles tinham todos os meios de sobrevivência à sua disposição, comida das lixeiras da aldeia, água e protecção e como tal não existia motivo para que ele formassem matilhas. Eles viviam uma vida semi-solitária ou em grupos pequenos, provavelmente uma mãe e os seus cachorros. Nós sabemos que os cães são animais sociais, tal como nós, e é por isso que conseguimos viver juntos debaixo do mesmo tecto. Como tal, com base nas pesquisas feitas por Coppinger, como damos aos nossos cães comida, água e acomodação 5 estrelas, olhamos pela saúde deles e damos-lhe exercício, porque é que eles haveriam de querer formar uma matilha connosco?


Outro aspecto da teoria da matilha é que tende a ser conspecífica; ou por outras palavras são constituídas por membros da mesma espécie. Como tal, cães e pessoas não podem formar uma matilha na verdadeira assessão da palavra; um grupo social, sim, mas não uma matilha. Os cães não pensam como nós, não se comportam como nós, não cheiram como nós ou vivem pelos mesmos valores do que nós. Dados estes factos, não deveriamos questionar se o cão que está na nossa sala de estar estará mesmo á procura de oportunidades para aumentar o seu status?
Antes da sua triste e trágica morte, John Fisher começara a questionar-se se os cães se viam como parte do uma matilha e se eles deveriam viver sob regras que supostamente reforçam a nossa posição como líderes de matilha. Infelizmente ele não teve oportunidade de colocar por escrito muitas das suas visões modificadas, apesar de que uma das coisas que ele publicou foi “... se é como se vive com os cães eu tenho notícias que irão desapontar muitas pessoas que almejam o status de Alpha – tudo isso não quer dizer pévias para o seu cão.”


Acho que vale a pena questionar algumas das regras de matilha que nos são ditas como forma de educar os nossos cães para que estes não se tornem dominantes. Nunca se esqueça que essas regras existem baseadas no comportamento dos lobos e não no comportamento dos cães.


Comer antes do cão, porque o Alpha come sempre primeiro. Então chegamos a casa com o nosso novo cachorro, chamamos a família, comemos uns biscoitos e depois podemos colocara comida do cachorro no chão. O que é que será que o cachorro vai realmente entender disto? Não muito! De acordo com pesquisas feitas por David Mech, numa matilha de lobos que anda à solta, se a presa fôr suficientemente grande, não existe ordem, e todos os lobos comem em conjunto. Se a comida fosse pouca, os cachorros comeriam primeiro. A progenitora investiu 50% dos seus genes nos seus cachorros e para assegurar a sua sobrevivência, ele dar-lhe-ia a porção dela. O nosso comportamento em fazer o cachorro esperar poderá causar stress ou talvez encorajá-lo a saltar de forma a tentar chegar à comida.

Atravessar as portas antes do cachorro porque os lobos submissos ficam de lado e deixam o lobo Alpha passar por pequenas aberturas primeiro. Como a comunicação entre cães é diferente da comunicação entre cães e humanos, irá o cachorro entender a mensagem por trás deste comportamento? Não conseguimos nem de longe mimicar a linguagem corporal ou expressões faciais e como tal o objectivo deste exercício é inútil para o cão.


Um cão que puxa na trela está a tentar tomar conta do passeio, tal como um lobo dominante o faria, e decide para onde quer ir. OK, então um cão a caminhar para o parque puxa na trela, porque esta excitado com a ideia de ir passear ao sítio favorito dele, o parque. No caminho para casa, quando está cansado, já não puxa tanto. Então deveremos deduzir que o cão está a ser dominante no caminho para o parque e submisso no caminho para casa? Senso comum diz que não.


A comparação entre o comportamento dos nossos cães e o comportamento dos lobos é enganoso. Apesar do cão se ter descedentes do lobo, este último mudou quase nada. Nós, ao contrário, produzimos raças de todos os tamanhos e feitios.. Temos raças com diferentes cores, tipos de pêlo, tamanho e alguns mesmos em pelo nenhum! Temos cães com diferentes posições, orelhas e caudas. Criamos raças para guardar, procurar, puxar trenós, caçar e para não fazer nada senão dormir nos nossos sofás. Os cérebros dos cães mudaram: são mais pequenos que os dos lobos. São motores inatos de padrões diferentes, e motivações diferentes. Um cão não é um lobo vestido de cão; é simplesmente um cão!


É claro que não existem garantias que um cão não vá desenvolver problemas comportamentais, mas existem muitos passos que podem ser tomados para minimizar esse risco. Escolha uma cachorro de um criador que crie ninhadas dentro de casa, para que estes se começem a acostumar a barulhos de pessoas e da casa. O criador deverá também iniciar o processo de socialização, que deverá continuar assim que o cachorro chegue à sua nova casa. Ensine-lhe as regras de casa, para que o cachorro saiba o que pode e não pode fazer. Se um cão grande não pode deitar no sofá, não o encorage a fazer isso quando é cachorro. Comece o ensino de obediência básica utilizando métodos de reforço positivo para que o cachorro acabe sendo um bem socializado e bem comportado.


Não temos que ser Alphas, dominantes ou líderes de matilhas, nem o nosso cão. Tudo o que precisamos é sermos donos responsáveis por guiar os nossos cães, moldar e influenciar o seu comportamento através de uma boa socialização para que vivam em harmonia connosco.

domingo, 17 de agosto de 2008



Copyright 2007 by Alexandra Semyonova -- All Rights Reserved



A ideia de que o cão é um lobo domesticado tem uma grande atracção romântica para nós. Nós imaginamos o grande Lobo cinzento das regiões nortenhas da Terra, um animal poderoso que pesa cerca de 160-220 libras, que passa os seus dias a caçar alces. Sonhamos com os nosso antepassados a encontrarem (ou a roubarem) um filhote de lobo e a criá-lo com muito amor. Imaginamos esse cachorro a crescer e a tornar-se o melhor amigo do homem e o seu companheiro e a procriar crias domesticadas para nós. Após várias gerações deste processo, supostamente nós produzimos o cão tal como o conhecemos hoje em dia. Vemos uma linha de descendência directa dos nossos cães directamente ao grande lobo cinzento que vemos no canal Discovery. UAU, um lobo na nossa sala de estar, que sentimento poderoso!

Hoje em dia já sabemos que as coisas não aconteceram exactamente assim. Os nossos antepassados não domesticaram o cão, ele domesticou-se a si mesmo. Aliás os antepassados do cão não são os grandes lobos cinzentos do Discovery Channel. Esse lobo não existia quando o cão começou a dividir-se numa nova espéce – o lobo cinzento tinha ainda que evoluir, tal qual o cão doméstico fez. O que precisa de imaginar é um animal muito mais pequeno, que já se tinha divido da família dos lobos alguns 200,000-500,000 anos atrás. Este antepassado não era um caçador especializado como o lobo é, mas era antes o que os biologos chamam de um “generalista” - um animal que não é limitado a uma fonte específica de comida ou a um ambiente, mas sim que se pode adaptar a várias situações.
Este antepassado mais pequeno provavelmente assemelhava-se fisicamente a um dingo e a outros cães primitivos que ainda vivem no selvagem hoje em dia. Pode não ter sido um animal que vivia em grupo. Na realidade, a vivência em grupo é rara entre os canídeos. Por isso, como a maioria dos canídeos que vemos hoje, provavelmente vivia em pares e grupos familiares temporários, capazes de estarem em grupo ou sós.
Então, agora está a imaginar um animal mais pequeno, parecido com o cão. O que é que este pré-cão fez que levou ao rpesente cão? E nós tivemos alguma coisa haver com isso? A resposta a ambas as questões está no nosso desenvolvimento como uma espécie. Tal como a maioria das espécies, nós sobrevivmeos por milhões de anos com números limitados, dada a escassez de comida. Hà cerca de 130,000 anos atrás inventamos o arco e a flecha.

Este foi um grande salto, mas – contrário ao mito - não quis dizer que os antepassados dos cães se juntaram a nós imediatamente para nos ajudar a caçar. O cão era ainda e apenas um animal selvagem, e como todos os canídeos selvagens – até mesmo ao presente, e mesmo que sejam criados numa casa humana – ele permaneceu completamente inútil nas tarefas da caça.

Como tal o nosso arco e flecha, não quiseram dizer que o lobo se tornou subitamente apto a trabalhar como um cão de caça. Quis sim dizer, que os nossos antepassados tiveram uma tarefa bem mais fácil em conseguir alimentos. Eles começaram a deixar restos nos seus encampamentos, restos que eram comestíveis para outros. Criou-se assim uma nova fonte de alimentos para outras espécies na área. E quando uma nova fonte de alimentos aparece num ambiente particular, existe sempre algum animal que se aproveita da mesma e a explora. Neste caso, alguns dos antepassados caçadores, ou exploradores do cão de hoje em dia, foram os que se aproveitaram desta fonte de alimentos. Estes eram indivíduos que eram atraídos por uma (muito mais fácil e segura) forma de sobrevivência. Tudo o que precisavam era manter-se atrás destes grupos de humanos e comer os restos que eles deixavam para trás. Talvez ocasionalmente ainda encontrassem grupos nómadas e procriassem com estes indíviduos pelo caminho – mas a maioria dos cachorros eram originários da procriação nos próprios locais onde se encontrava a fonte de alimentos, entre animais mais solitários que agora sobreviviam comendo os restos.

Este foi o início da separação reproductiva, e como tal da formação de um espécie nova.

Como tal, à cerca de 130,000 anos atrás, temos um número destes animais que se assemelham com os antepassados dos cães que se dividiram e formaram um novo niche ecológico. Parcialmente reproduzindo-se em isolamento, este novo niche, começou por desenvolver características tipicamente caninas. De forma a encontrarem-se nos locais onde se encontravam os restos e procriar, estes animais tinham que deter características muito especiais. Tinham que estar preparados para comer comida pré-oferecida, ao invés de participarem na caça da mesma (a comida que dá hoje em dia ao seu cão, continuam a ser restos, apesar de virem empacotados, terem marcas e serem muitas vezes caras). Se eles vivessem em grupos, teriam que estar prontos a abdicar do grupo, por este tipo de vida e andarem sós ou em pares (mesmos os restos deixados pelas aldeias não detinham suficiente comida para alimentar grupos grandes). Teriam que ser capazes de partilhar espaço (a aldeia e o local onde se encontravam os restos) com estranhos da sua própria espécie que também tinham descoberto aquela fonte de alimentos. E – o mais importante – tinham que ter menos medo, do que o normal, de humanos.

Estes animais estavam no processo de fazer uma escolha. Estavam mais do que nunca, longe dos seus primos os lobos, mas também não eram ainda cães domesticados. A escolha que alguns deles fizeram levou a que o cão pré-doméstico aparecesse. A anatomia deste animal ainda estava a uma vida nómada, uma vez que acompanhavam os grupos nómadas dos humanos. Isto é provavelmente a razão pela qual os arqueologistas não encontram restos tipicamento caninos deste período. O corpo do cão ainda não tinha sofrido grandes alterações, embora o seu comportamento e provavelmente o seu cérebro estivessem já a alterar-se. Mas antes de se poder tornar um verdadeiro cão domestico, a nossa espécie teve que fazer o seu prórprio salto evolutivo.

Este próximo salto veio hà cerca de 12,000 anos atrás, quando desenvolvemos a agricultura. Os humanos pararam de se moverem como caçadores e colectores e começaram a viver em aldeias permanentes. Agora o pré-cão também podia estabelecer-se e viver permanentemente perto da fonte de alimentos. Agora já não iria encontrar-se com grupos nómadas que ainda caçava, e que tinham medo dos humanos, nem por acidente. Não iria existir mais procriação com caçadores, nem mesmo ocasionalmente. O seu corpo poderia começar-se a adaptar-se a um tipo de vida mais sedentária, apesar das mudanças que já estavam a ocorrer no seu comportamento e no seu cérebro.

Dentro de um periodo relativamente curto o cão tal qual o conhecemos hoje realmente apareceu. Este é o período em que verdadeiros esqueletos de cães foram encontrados. Os outros ramos da família continuaram a sua vida de caçadores e tornaram-se nos cães selvagens que agora vemos no Discovery Channel. O lobo cinzento tendo nada haver com tudo isto.

O cão e o lobo eram relacionados um com o outro da mesma forma que você está relacionado com o seu sexto primo, e da mesma forma que todos nós estamos relacionados a outro tipo de primatas (macacos e chimpanzés). Nós partilhamos um antepassado, nada mais. Mas o cão definitivamente não descendeu do lobo cinzento mais do que você descende do seu primo.

REFERÊNCIAS:
  • Beljaev, DK, Trut, LN, Some genetic and endocrine effects of selections for domestication in silver foxes, in
  • The Wild Canids, Fox, MW, ed., Van Nostrand Reinhold, New York, 1975.
  • Beljaev, DK, Plyusnina, IZ, and Trut, LN, Domestication in the silver fox (Vulpes fulvus desm): changes in physiological boundaries of the sensitive period of primary socialization, Applied Animal Behavior Science 13:359-70, 1984/85.
  • Coppinger, R, Coppinger, L, Dogs: a startling new understanding of canine origin, behavior, and evolution, Scribner, New York, 2001.
  • Koler-Matznick, J, The origin of the dog revisited, Anthrozoos 15(20): 98 – 118, 2002.http://www.canineworld.com/ngsdcs/Origin.of.the.Dog.pdf
  • Lindsay, SR, Handbook of applied dog behavior and training, Blackwell Publishing, Ames Iowa, 2000.
  • Plyusnina, IZ, Trut, LN, An analysis of fear and aggression during early development of behavior in silver foxes (Vulpes vulpes), Applied Animal Behavior Science 32:253-68, 1991.
  • Serpell, JA, ed., The domestic dog: its evolution, behaviour and interactions with people, Cambridge University Press, Cambridge (UK), 1995.
  • Sibly, RM, Smith, RH, Behavioral Ecology: Ecological Consequences of Adaptive Behavior, Blackwell Scientific Publications, Oxford, 1985.

domingo, 20 de julho de 2008

Revisão do livro Cesar’s Way por Pat Miller


Uma revisão do livro feita por Pat Miller


Quase todos os livros de treino canino têm algo a oferecer ao leitor, e o livro Cesar’s Way não é excepção. O ponto forte do livro é ser a autobiografia do treinador de cães, estrela de um programa da televisão da National Geographic, Cesar Millan. Se estiver curioso em saber como é que Millan chegou onde chegou hoje, este livro dir-lhe-á. Se está à procura de ajuda para treinar o seu cão, nesse caso, procure outro livro.
Muitos na comunidade científica comportamental vêm as consequências da “forma” do Cesar copm trepidação. Numa entrevista publicada no New York Times em Fevereiro deste ano, o Dr. Nicholas Dodman, director da Clínica de Comportamento Animal na Universidade de Tuft’s, escola de Medicina Veterinária, observou, “O meu colégio acha que é um travesti. Nós escrevemos ao canal National Geographic e dissemos-lhe que arrastaram o treino canino 20 anos para trás”.
Millan prova ter muito pouco ou nada no que toca a informação relativa a treino, oferecendo em vez disso generalizações acerca de como se projectar “energia calma-assertiva” – uma frase chave usada por Millan – e em instigar essa “energia, calma e submissa” no seu cão. Por exemplo, no capítulo 8 ele oferece “Dicas Simples para viver feliz com o seu cão”. As suas “regras da casa” incluem:


“Acorde nos seus termos, não nos do seu cão... condicione-o a sair da cama com calma se acordar antes de si.”
“Não permita posessão sob brinquedos e comida!”
“Não permita que ladre fora de controle”.


Bons conselhos, talvez, mas, em nenhuma parte do livro ele explica como se consegue estas coisas, para além de se usar uma energia calma e assertiva.
Millan é confiante. Ele assume a sua “politicamente incorrecta” dependência na já ultrapssada teoria da dominância, dizendo “ Para os cães existem apenas duas posições num relacionamento: líder ou liderado. Dominante ou submissivo. Ou é preto ou é branco.”
No mundo de Millan, todos os comportamentos são abordados em termos de dominância e submissão. Ele até usa o alpha roll como parte do seu “ritual de dominância”; esta técnica – forçar um cão a colocar-se de lado ou de costas e segurá-lo nessa posição – é considerado por muitos uma prática perigosa baseada em interpretações erradas de comportamentos dos lobos. Já hà muito tempo esta teoria caiu em descrédito juntos dos treinadores que usam métodos baseados na ciência do comportamento e aprendizagem animal.
Quando Millan fala de “energia”, os treinadores que se baseiam na ciência falam de comportamento e geralmente concordam que o status social dos grupos é fluído e contextual, não branco e preto. Modificação comportamental realmente efectiva e com efeitos a longo termo, requer uma aproximação muito mais estudada e complexa do que simplesmente impôr dominância.
A interpretação da linguagem canina diverge também grandemente. Millan refere-se no seu livro a Kane, um Dogue Alemão que apareceu no seu programa de TV e que tinha medo de caminhar em chão de linóleo. Millan afirma que em menos de 30 minutos da sua influência calma e assertiva, Kane passeava confiante pelo chão de linoleo. Todos os treinadores que eu conheço e que viram aquele segmento do programa notas os sinais constantes de stress após a intervenção de Millan: cabeça e cauda baixa, abraçando a parede e arfando.
Millan refere os benefícios do exercício físico na modificação do comportamento canino, um conceito com o qual eu mesmo concordo. No entanto, o seu livro começa com uma descrição da sessão de 4 horas com a qual ele começa o seu dia com o seu pack de cães todas as manhãs nas montanhas de Santa Mónica no Sudeste da Califórnia, seguido de tardes passadas a andar de patins com esses mesmos cães, 10 de cada vez, nas ruas à volta do seu centro de treino.
Uma das chaves de um programa de treino bem sucedido é que dê ao dono comum de cão ferramentas que ele possa aplicar. E quantos donos de cães poderão passar seis horas por dia a exercitar os seus cães? Quantos é que poderão projectar “energia calma e assertiva”? O perigo do livro Cesar’s Way é que ilude as pessoas na idea que soluções rápidas e respostas rápidas existem e estão nas mãos de um homem sorridente naturalmente dotado de uma ilusiva energia calma e assertiva.
Na realudade, respostas são melhor encontradas na bonita complexidade da vida, onde as soluções não são muitas vezes rápidas e fáceis, mas são solidamente construídas com fundações fortes num entendimento de como o comportamento realmente opera.

domingo, 8 de junho de 2008

A CONTROVÉRSIA DO “DOG WHISPERER” CESAR MILLAN parte 1


A CONTROVÉRSIA DO “DOG WHISPERER” CESAR MILLAN - texto retirado na íntegra do website http://www.4pawsu.com

Com a recente popularidade de um programa de televisão acerca de cães com problemas, a controvérsia acerca de que métodos são os mais humanos e efectivos para se abordar estes problemas nos cães tem sido renovado e divide amantes de cães por todo o mundo.
Enquanto especialista de comportamento, treinadores e outros profissionais do mundo canino reconhecem que o programa expõe os donos de cães á possibilidade de modificar o comportamento dos seus cães, o programa dá a falsa impressão que o comportamento pode ser modificado numa questão de horas. Profissionais estão também preocupados com os métodos usados, uma vez que muitos dos métodos são conhecidos por incentivar comportamentos agressivos.
Este artigo irá explorar os temas controversos e tentará separar os factos do marketing. Sempre que possível, links adicionais ou recomendações de livros serão dadas como referência ou como forma de desenvolver um determinado assunto.

PSICOLOGIA CANINA OU PSICOLOGIA POP?
Mesmo antes das experiências de Ivan Pavlov com cães, cientistas estudavam o comportamento animal em laboratórios e no campo, onde o comportamento poderia ser estudado no ambiente natural do animal, sem intervenção humana. É a combinação destes estudos que nos dá o conhecimento acerca do comportamento canino que temos actualmente e continua a fornecer-nos com descobertas fantásticas. Para alguém dizer que já sabem tudo, quando o nosso conhecimento de genética e do cérebro (humano e canino) está incompleto, é ridículo.
A psicologia canina, ou mais correctamente, o estudo do comportamento animal, não é um completo mistério deixado à interpretação de alguns indivíduos. Enquanto que ainda existem muitas áreas onde o nosso entendimento ainda se encontra incompleto, existe um sem fim de informação cientificamente já provada à nossa disposição .
Muitos dos conceitos dogmáticos apresentados no programa de TV apelam a pessoas que, elas mesmo, acreditam ou repetem as mesmas frases acerca dos cães. No entanto, apenas porque algo é repetido frequentemente não o torna um facto científico. Os conceitos no programa de TV não correspondem de todo à realidade da natureza quando examinada de perto.

TEORIA DA DOMINÂNCIA: CÃES

Cães não são lobos domesticados. O cão doméstico é uma espécie separada que desenvolveu dos lobos à cerca de 14,000 anos atrás e exibem comportamentos que os lobos não têm. Também não demonstram comportamentos que lobos exibem, tais como regurgitar comida para os seus cachorros.

Em “Dogs: A Startling New Understanding of Canine Origin and Behaviour and Evolution” por Ray e Lorna Coppinger diz-se:

“Hoje em dia, a imprensa popular canina parece acreditar que se os cães descenderam dos lobos devem ter qualidades de lobos. Mas o modela de selecção natural aponta que as características dos lobos foram severamente modificadas. Os cães não pensam como lobos, nem se comportam como lobos.”

Observações feitas de cães em liberdade por todo o mundo revelam que enquanto os cães são animais sociais, são primariamente as manifestações de submissão que mantêm a paz, não as manifestações de dominância. Estes cães, muitas vezes referido com cães pariah, são mais necrófagos que predadores e como tal vivem vidas mais solitárias que os lobos, uma vez que não é do benefício de um necrófago partilhar os recursos limitados com um grupo grande de animais. Estes cães raramente formam matilhas, e quando o fazem, as matilhas têm estruturas livres e flexíveis com animais que entram e saem frequentemente, uma característica nunca vista em alcateias de lobos.

Para além do mais, muitas formas domesticadas de animais selvagens revertem, em regra geral, ás sua formas originais após serem selvagens de novo durante algumas gerações. Os cães, dos quais existem inúmeros exemplo pelo mundo fora, de tipos selvagens, nunca reverteram aos lobos nem em aparência nem em comportamento.
Todas estas evidências desmentem fortemente a noção romântica que os cães são versões fracas dos lobos.


Cesar Millan no seu programa de TV diz:

“ Se estudar o comportamento de uma matilha de cães, a primeira figura autoritária é a mãe, e a mãe imobiliza os cachorros no chão”.

Se alguém realmente estudar uma matilha de cães, assumindo que o que foi dito acima se refere a uma cadela com uma ninhada de cachorros, o que alguém veria é que a cadela na realidade usa muito pouco contacto com os cachorros para os disciplinar. Quanto mais física se torna a mãe, maior será o risco de magoar os seus cachorros. Na vez disso, ela levantasse e sai, removendo toda a sua atenção. Quando os cachorros são mais velhos e mais moveis, ela poderá usar sinais comunicativos como o arreganhar dos dentes e vocalizações para para o comportamento não desejados de um cachorro, mas assim que o cachorro pára, também pára a “correcção”.
Líderes em todos os animais, controlam recursos mais vezes do que controlam indivíduos através da força. Como foi dito por Myrna Milani, DVM, autora e veterinária etologista:

“...a marca de um verdadeiro líder é a habilidade de controlar sem o uso da força. E na realidade, animais selvagens que dependem da força bruta para manter o seu status são tipicamente eliminados do conjunto genético precisamente porque esta aproximação requer demasiada energia.”

Lutas de poder entre cães comunicam tanta liderança como um adulto a lutar com uma criança ou um ladrão de bancos armado a lutar com os seus reféns.

A realidade é a seguinte, através de um golpe de sorte evolucionaria, fomos abençoados com polegares o que nos dá acesso prioritário à maioria se não a todos os recursos que os cães querem. Ao manter o controlo desses recursos, incluindo comida, acesso e atenção e não lhes dar acesso às coisas gratuitamente ou só porque eles pedem, não é necessário entrar em lutas de poder com os cães. Nós já temos á partida tudo aquilo que os cães querem. Nos já somos à partida “dominantes”.

Métodos de treino baseados na dominância exigem do humano muita energia e são muito intensivos. Requerem que o humano reaja constantemente ás acções do cão, como por exemplo esticões da trela por rosnar, o que de qualquer forma coloca o cão na mesma à frente. Esta não é a forma como indivíduos “dominantes” se comportam – é no entanto, como se comportam indivíduos inseguros. Como tal, estes métodos comunicam insegurança, na vez de liderança.

Humanos não são nem cães nem lobos. Como tal quando tentamos imitar o seu comportamento, estamos geneticamente condenados a falhar. Falta-nos a fisiologia e a precisão para comunicar os mesmos sinais e correcções que os lobos ou cães usam uns com os outros.
Não somos cães e os nossos cães sabem disso. Também não somos lobos e os nossos cães também sabem disso. Despender energia a tentar sermos algo que não somos não vai comunicar liderança. No melhor, diverte os nossos cães. No pior, faz-nos perigosos e imprevisíveis aos seus olhos o que mais uma vez não comunica de forma nenhuma liderança.

Os que trabalham com lobos, incluindo lobos criados por homens, e raças de cães misturadas com lobos, sabem que os lobos não toleram serem manejados com força por humanos. Se a razão pela qual temos usado estes métodos nos nossos cães é por causa do comportamento dos lobos, e estes provocam respostas agressivas nos lobos, porque é que então continuamos a usar estes métodos nos lobos? Simplesmente porque eles nos deixam.
Existem formas não frontais de estabelecer regras e fronteiras para os cães, que não envolvem nem a força nem a intimidação. A maioria dos cães cede controle, necessitando para tal uma simples regras como as usadas nos programas NILIF (Nothing In Life Is Free), especialmente se não existiam regras nenhumas para começar.

EXERCÍCIO FÍSICO

No programa de televisão, é dada uma grande importância ao exercício como uma necessidade primária. Cães precisam de exercício. O seguinte não é uma tentativa de minimizar em nenhuma maneira a importância de exercício físico regular. No entanto, a maioria das raças de cães foram desenvolvidas para um trabalho particular que requer tanto exercício físico como exercício mental. Cães precisam de exercício mental tanto, e nalguns casos mesmo mais, do que exercício físico.

Estimulação mental, através da obediência, truques, agilidade ou outras actividades de trabalho satisfazem a necessidade de exercício físico e mental. Caminhar um cão numa trela curta poderá ser mais agradável para o humano, mas não dá ao cão grande exercício físico (uma vez que os cães caminham a um ritmo muito mais rápido que o nosso) e não permite ao cão estimulação mental através da exploração do ambiente através de actividades sem trela.
Exercícios de estimulação mental também satisfazem as necessidades físicas dos cães que são incapazes de se exercitar dados problemas médicos tais como artrite, displasia da anca ou outros.

Exercício Forçado tal como colocar um cão numa passadeira de correr, poderá satisfazer uma necessidade de correr, mas não fornece ao cão a opção de correr, nem dá ao cão estimulação mental, socialização ou interacção com o dono.

Falácia Comportamental. Você acabou de ter a pior semana da sua vida. Qual dos dois reduziria o seu stress e lhe daria um maior sentido de bem-estar? Um longo passeio pela praia ou uma longa correria a fugir de um urso?

Cães que são reactivos com outros cães, pessoas ou outros estímulos encontrados na rua, normalmente podem piorar de forem continuamente expostos a esses mesmos estímulos. Os níveis de stress do cão, incluindo cortisol e adrenalina, são elevados com cada passeio dado e cada exposição ao/s estímulo/s. Não só estes níveis elevados de hormonas levam a problemas comportamentais, como os níveis de cortisol diminuem as repostas de imunidade do sistema, deixando o cão mais susceptível a ficar doente.

Por isto é que programas de modificação comportamental começam por ensinar exercícios de controle próprio em ambientes com poucos estímulos, antes de lentamente introduzir o cão e níveis de estímulos mais elevados.

Uma necessidade primária? Uma necessidade primária para a sobrevivência de um cão, não é de facto o exercício. Se um cão passasse todo o seu tempo e energia a exercitar-se, não teria energia suficiente para estabelecer e proteger território, caçar ou criar os seus cachorros. Exercício é feito através destas acções e não na vez delas.
Para mais caminhar um cão de trela curta ao passo do dono (que é muito mais lento que o passo natural do cão) e sem a possibilidade de cheirar e explorar o ambiente, fornece ao cão muito pouco exercício. Mesmo que a necessidade primária de um cão fosse de facto exercício físico, este tipo de passeio não iria satisfazer as suas necessidades.
Treino e outras actividades fornecem os cães com ambas estimulação mental e física necessárias para o seu bem-estar. Um cão bem treinador é também um mais livre de poder desfrutar de actividades sem estar de trela.

DISCIPLINA E AFECTO: POSITIVO NÃO QUER DIZER PERMISSIVO

Com uma maior compreensão do comportamento, os especialistas de comportamento e treinadores usam, hoje em dia, métodos positivos para modificar mesmo o comportamento mais extremo em cães com resultados fantásticos. Isto inclui cães com problemas de agressão severa que podem estar a um passo da eutanásia ou cães em “zona vermelha”.
Isto não quer dizer, no entanto, que ao cão não são dadas regras nem limites ou que este só responde quando comida está presente. Treino positivo e métodos de modificação comportamental começam com o estabelecimento de limites e o controle dos recursos da vida de um cão, incluindo o afecto e a brincadeira que não são dadas ao cão gratuitamente. Isto é feito de uma forma que coloca o dono numa situação de sucesso, de forma a que este possa controlar a atenção do cão, mas continuar a gozar da sua companhia e afecto.

STRESS NOS CÃES

Uma das maiores preocupações que os especialistas têm em relação os programas de TV de Cesar Millan é que muitos dos cães mostram sinais claros de muito stress, alguns mesmo chegando ao ponto de morder a estrela do programa. Enquanto que a maioria das pessoas consegue reconhecer sinais de stress óbvios tais como ladrar, rosnar, mostrar os dentes, os cães demonstram muitos outros sinais de stress que são bem mais subtis antes de recorrerem aos sinais comunicativos mais óbvios. Alguns deste sinais incluem:


. Bocejar
· Aumento da respiração após quase nenhuma actividade/esforço físico
· Orelhas puxadas para trás
· Lamber repetido dos lábios e/ou nariz
· Aumento da perda de pelo
· Cauda baixa e corpo rente ao chão
· Movimentos tensos e lentos
· Virar da cabeça e olhos



Se um cão exibe repetidamente estes sinais durante o treino, está na altura de reavaliar ou os métodos de treino, ou o ambiente ou o comportamento do dono/treinador. Será o ambiente muito estimulante? Serão os métodos ou o equipamento dolorosos? Será que estamos a exigir muito do cão ou cedo demais?

Todos nós precisamos de stress para sobreviver. A fome é uma forma de stress. Se não sentíssemos fome, não comeríamos. No entanto, métodos humanos e amigáveis não representam apenas a ausência de dor, também representam a ausência de stress desnecessário. Um cão que é stressado até ao ponto da agressão, medo ou “learned helplessness” torna-se fisicamente incapacitado de aprender e qualquer tentativa de treino feito enquanto o cão está neste estado, é uma perda de tempo.

REABILITAÇÃO OU SUPRESSÃO?

Modificação comportamental é o processo de modificar as emoções do cão, gradualmente expondo-o (desensitização) ao estímulo (cão, pessoa, carro, etc.), e depois ensinando um comportamento alternativo (contra-condicionamento). Este processo mantém o cão a um nível abaixo do qual ele reage e gradualmente ensina o cão uma resposta mais desejável em situações de stress. Existe uma diferença entre suprimir um comportamento e modificar um comportamento.

Supressão é tipicamente feita através do uso da força ou “flooding” (inundação). Supressão do comportamento, cessa o comportamento no momento, mas requer que o dono do cão esteja constantemente a repetir os passos necessários vezes sem conta. Porque tantos donos de cães querem saber “o que faço quando o meu cão....” isto parece uma solução. No entanto, não está de facto a modificar a causa do comportamento.

Força inclui castigos tais como correcções verbais, correcções de trela, enterrar os dedos nas costas do cão, ou agarrar o seu cachaço. Também inclui forçar um cão a colocar-se de costas ou a deitar-se de lado. Enquanto que técnicas destas podem momentaneamente suprimir os sintomas (se não provocar uma resposta agressiva), o uso da força pode muitas vezes tornar o problema pior porque o cão forma um associação entre o castigo e o que o provoca (a pessoa, o local ou a coisa) e que provoca por sua vez a agressão ou um comportamento problemático. Em muitos casos, a frequência ou forma de castigo deve ser aumentado para manter a supressão.
Enquanto que existem formas de castigo que podem ser usadas de forma humana e efectiva para modificar problemas comportamentais de baixo nível, o uso de aversivos como vistos no programa de TV, suprimem os sintomas do comportamento por um período de tempo curto. A consequência deste tipo de técnica pode demorar meses ou anos a demonstrar-se.

Flooding (Inundação) Se tiver medo de aranhas, será que o seu medo delas diminuirá se eu lhe der uma massagem com um par de tarântulas? Flooding é a exposição forçada e prolongada a algo que não é ou que se tornou desagradável. Isto inclui empurrar um cão para uma piscina ou levar um cão que tem medo de cães para um local com dezenas de outros cães. Quando um cão é exposto a esta técnica eles podem desligar e não exibir nenhum comportamento (incluindo o que era um problema). Isto não é resolver o comportamento, embora assim o pareça porque o cão não demonstra sinais nem de agressão nem de nada, aliás o cão está praticamente inactivo.
Enquanto que a verdadeira modificação comportamental não é um processo rápido, e certamente não fornece programas televisivos mediáticos e sensacionalistas, os efeitos são mais permanentes do que aqueles ganhos ao suprimir o comportamento através do uso da força e do “flooding”.

CAUSAS MÉDICAS PARA PROBLEMAS COMPORTAMENTAIS

Nem todos os problemas comportamentais são o resultado de falta de treino, exercício, liderança ou disciplina. Existem muitas causas médicas para problemas comportamentais. Problemas em ensinar os cães a fazerem as necessidades na rua podem ser causa de infecções no trato urinário e agressão pode ser uma reacção à dor causada por uma doença. Agressão pode ser accionada por um fertimento ou doença como o hipertiroidismo.

Num episódio recente de “I’ts Me or the Dog”um Bulldog americano que estava a exibir comportamentos agressivos a visitantes foi diagnosticado com hipertiroidismo após o treinador aconselhar um check-up veterinário. Antes disso os donos deste cão não faziam ideia que ele sofria de uma doença que estava a contribuir para este comportamento.

Também existem comportamentos que não têm causas físicas, mas mentais, tais como desordens compulsivas. Um vídeo muito popular no You Tube mostra um cão a atacar o seu próprio pé. Este é um exemplo excelente de um problema compulsivo. Problemas como estes não são modificados com exercício , liderança ou disciplina.
Um profissional qualificado reconhece quando um problema comportamental poderá ter uma causa médica e irá referir um veterinário antes de tentar qualquer tipo de modificação comportamental.
Qualquer modificação comportamental súbita num cão deverá ser sempre discutida com um veterinário.

CONCLUSÃO
Será o exercício físico importante? Sem dúvida! Os cães precisam de limites? Certamente! Será que as pessoas precisam de parar de tratar os seus cães como humanos e tornarem-se menos permissivos? Claro que sim! Mas COMO atingimos estes objectivos é que é importante.
Uma compreensão básica de comportamento canino poderá dar aos donos de um cão o conhecimento que estes precisam para determinar os métodos de treino que melhor se adequam a e evitar aqueles métodos que não são baseados na ciência da aprendizagem e comportamento e que usam frases sonantes para vender métodos antiquados e potencialmente perigosos em pacotes apelativos ao grande público.

terça-feira, 27 de maio de 2008


O MITO DO MACHO por Dr. Ian Dunbar


A estrutura social do cão doméstico é muitas vezes descrita em termos de uma dominância hierárquica linear, na qual o cão de topo, ou o “animal alpha”, é dominante sob todos os outros animais, segundo cão mais dominante é-o sob todos os outros que estão abaixo dele, e por aí fora até ao cão que está mais baixo na hierarquia. Também é de crença popular:

1. O status é estabelecido e mantido pela força física e a dominância.
2. Os cães mais agressivos são maisdominantes.
3. O cão mais dominante é o mais agressivo. Sendo assim cães que frequentemente ameaçam, rosnam, lutam e mordem são muitas vezes determinados como os animais “alpha”.

A maioria das afirmações acima ditas, são muito duvidosas. Não só traem através duma visão teoricamente simplista, uma estrutura social complexa, mas também tendem a ser contraprodutivas, unhumanas e perigosas quando extrapoladas e aplicadas ao treino canino ou à resolução de problemas comportamentais.

STATUS SOCIAL E AGRESSIVIDADE

É geralmente assumido que um status elevado, está directamente relacionado com comportamento agressivo. Na realidade, um cão com uma posição hierárquica alta e agressivo é muito raro. Os cães de status hierarquico alto raramente sequer rosnam – é que não precisam! O cão que realmente está no topo da cadeia hierarquica é normalmente calmo, seguro e confiante da sua posição privilegiada e não tem necessidade de andar a “anunciá-la” através de comportamentos agressivos ou exibicionistas. Nas palavras da psicóloga Dr. Linda Carlson, “Se a tens não tens que a anunciar”. Um verdadeiro cão de topo é bem mais capaz de partilhar um brinquedo, um osso ou um local de dormir, do que lutar por isso. Por outro lado, cães que se encontram no fundo da cadeia hierárquica também raramente rosnam ou lutam. A directiva base de um animal de baixo status é ser discreto. Ladrar, rosnar e arreganhar os dentes apenas chama atenção indesejada e se chegasse a desencadear uma luta, o cão mais baixo na hierarquia provavelmente perderia.

Um cão de tipo tem pouca ou nenhuma necessidade de ameaças e um cão com baixo status será louco se o fizesse. Sem dúvida nenhuma rosnos excessivos e lutas repetidas é indicativo de insegurança e incerteza quanto ao seu status social com outros cães. Dentro de um grupo social, demonstrações prolongadas e tempestuosas de agressão são característica dos cães que se encontram no meio duma cadeia hierarquica. Este cães, ameçam mais e lutam com mais frequência que os cães de topo ou os que estão mais abaixo.

HIERAQUIA SUBORDINADA

Quando a funcionalidade de uma hierarquia é vista dentro dum contexto de desenvolvimento saudável, torna-se aparente que a “hierarquia subordinada” é um termo mais descritivo para uma estrutura social canina. Esta permissa foi primeiro sugerida pela primatologista inglesa Dra. Thelma Rowell. A manutenção de uma hierarquia, depende do respeito existente pelos indivíduos que estão no topo. O status quo é mantido porque, os indivíduos de status baixo raramente desafiam a autoridade e como tal raramente é necessário reforçar o status do topo com manifestações físicas, ou dominância psicológica.


DESENVOLVIMENTO DE HIERARQUIAS

Crescendo rodeados de adolescentes e adultos, os cachorros não podem competir na cena social em vista do seu tamanho baixo ou força física e psicológica inferior. Sendo assim, os cachorros aprendem qual a sua posição na vida, muito antes de serem suficientemente grandes e fortes para se tornarem uma ameaça à ordem já estabelecida. A maioria dos cães adultos são bastante benevolentes com os cachorros até estes chegarem à adolescência, quando os adultos (maioritariamente os machos) perseguem os adolescetntes. Mesmo assim, esta perseguição feita por cães adultos é maioritaramente psicológica e não física. Apenas um cão adulto com problemas sérios e preverso iria fisicamente desafiar cachorros.

Apesar de tudo isto, durante este estágio crucial do desenvolvimento hierarquico, cachorros e adolescentes são intimidados pelo incessante tormento dos adultos e consequentemente aprendem a responder com gestos exagerados de conciliação para apaziguar os mais velhos. Aliás os mais novos rapidamente aprendem a demonstrar gestos de conciliação antes de serem confrontados. As “desculpas” precoces dos mais novos, normalmente caracterizam-se por: encolher do corpo, aproximar em ziguezague com as orelhas para trás, sorriso “submissivo”, e abanar da cauda e das ancas traseiras. O mais novo pode ainda abanar a pata e lamber o focinho do mais velho (este sinais que quando os cachorros são mais novos são usado para solicitar comida, são agora característicos de neotenismo dos cães como adolescentes e adultos). Poderão também erguer a perna e expor os seus genitais e outros poderão até urinar (cães adultos poderão determinar a idade de um cachorro através do cheiro da urina do mais novo).

MANUTENÇÃO DA HIERARQUIA

Lutas e dominância física raramente fazem parte da manutenção de uma hierarquia. Pelo contrário, a função princpial duma estrutra hierárquica funcional é diminuir o número de conflitos e lutas. Uma vez estabelecida, a hierarquia dá muitas das respostas antes que os problemas surjam. Por exemplo, quando existem dois cães mas apenas um osso, o osso está já decidido para quem vai através da estrutura hierarquica e como tal não existem motivos para lutas. Problemas semelhantes são também resolvidos desta forma em hierarquias humanas. Por exemplo, numa empresa grande, o problema de apenas um só lugar de estacionamento e dois carros, normalmente não existe conflito porque quem estaciona será sempre quem tem um status mais elevado na empresa. Afinal de contas quem no seu estado normal iria estacionar no local do seu patrão?

Este conceito aplica-se aos cães. Desentendimentos acerca de posições hierarquica, dominância e agressão tendem a causar lutas, que são largamente o produto de falta de socialização e da mistura de cães socialmente não preparados. Para mais, noções erradas do comportamento social canino tendem a criar donos de cães machos,que permitem e/ou encorajam os seus cães a rosnar, porque assim pensam que têm um cão muuuuuuito maaaau! Este tipo de pessoa – usualmente um adolescente homem (entre 13 e 59 anos de idade), que detêm cães de uma ou duas raças específicas que não vale a pena mencionar – podem tornar-se um problema. No entanto, é possível fazer estes tornarem-se espertos com um elogio/insulto tal como “Que cão magnífico! Que pena que rosne e ladre tanto.Talvez possamos melhorar a confiança do seu cão e torná-lo num cão de topo, porque cães de topo não fazem este barulho todo sabe? Eles não precisam!”. Eu nunca me paro de surprender pela quantidade de donos de cães que inicialmente parecem impenetráveis e se tornam excelentes exemplos para qualquer pessoa.

Infelizmente, o verdadeiro perigo do conceito do cão “alpha” e da dominância reside na extrapolação questionável feita no mundo do treino canino e dos donos de cães. Na vez de serem educacionais, muitos dos chamados “métodos de treino” são simplesmente antagônicos e abusivos; o cão é muitas vezes visto como o nosso inimigo na vez do nosso melhor amigo. Muitos gestos brincalhões, de cumprimento ou de medo são mal-interpretados como sendo agressivos, dando ao dono desprevenido uma desculpa conveniente para abusar o cão sob o pretexto de “treino”.

Por exemplo, arreganhar os dentes, levantar do pêlo e rosnar são muitas vezes, erradamente, tidos como sinais de dominância, enquanto que são, na realidade, muitas vezes sinais de medo – muito provavelmente resultado directo de uma pessoa bater no cão. Da mesma forma, donos são avisados que marcar território com urina, “montar” as pessoas, roubar comida, saltar para cima das pessoas e contacto visual prolongado são também sinais de dominância pelos quais o cão deve ser castigado. Este conselhos são errados, “maus” e confusos e tiram o divertimento todo de sermos donos de cães. No meu livro:

· Um cão que marca território dentro de casa, precisa de ser treinado a fazer as necessidades lá fora
· Um cão que monta as pessoas, a) precisa de ser ensinado a parar e b) necessita ser apresentado a outro cão socialmente inclinado a essa interacção
· Um cão que rouba comida, a) está desesperadamente a precisar de um dono que se lembre de colocar a comida longe do alcance do cão, b) precisa de uma apresentação ao método de ensino de um comportamento alternativo
· Um cão que salta, simplesmente precisa de ser ensinado a sentar-se quando conhece pessoas
· Um cão que olha fixamente para um humano, a) precisa de aprender que olhar nos olhos de uma pessoa não é uma ameaça, b) afastar ou olhar para outro local sob comando e c) aprender a olhar para os olhos do seu dono de forma pacífica

Certamente que precisamos de controlar os nossos cães, mas o que é preciso é um controlo mental e cooperativo e não uma dominação física. Apesar de o dono de um cão poder abaná-lo, rolá-lo pelo chão, ou batê-lo até à submissão, qual é o objectivo de ganhar a batalha e perder a guerra? Que possível vantagens existirão em converter um hipoteticamente “dominante” num cão medroso. Para além disso a maioria das correcções físicas estão muito para além das capacidades mentais e físicas da maioria das donos de cães comuns. E porquê aconselhar os donos a entrarem numa disputa física com o cão, que muito provavelmente está já perdida? De facto, porquê abusar o cão, quando é possível atingir o mesmo resultado usando a inteligência na vez da força?
Devemos aconselhar métodos de treino que são efectivos e que estão nas capacidades de todos os donos de cães, incluindo mulheres, crianças e idosos. Se aprendemos alguma coisa ao estudar o comportamento canino foi que na vez de bater nos cães até à submissão, é muito mais fácil convencê-los a juntar-se a nós, para que goze da sua vida ao nosso lado, na vez de lutar contra nós.




Ian Dunbar Ph D., BvetMed MRCV

sábado, 24 de maio de 2008

Destruindo o Mito da Dominância por Carmen Buitrago

Destruindo o Mito da Dominância
Por Carmen Buitrago, CPDT, CTC



Já alguma vez pensou se o seu cão é dominante? Provavelmente que sim, uma vez que no último meio-século, cada problema comportamental canino desde urinar dentro de cada a sair pela porta da frente, tem sido explicado como um problema de “dominância”.
O seu cão rosna ao visitantes? Dominância, dizem os seus amigos bem intencionados. Não vem sempre que é chamado? Está a dizer-lhe que é o chefe, de acordo com livros de cães populares. Ela puxa na trela ou salta para dizer olá? Está a declarar o seu status de alpha. Ele prefere estar em cima de sofás do que no chão? Cuidado!


Talvez o comportamento mais estranhamente atribuido à dominância tenha sido o da coprofagia.

Então como é que o paradigma da dominância se tornou a etiqueta mais popular dentros do mundo canino?


Tratamento de Choque


Muitos autores e treinadores aconselham os donos dos cães a forçar os seus cães a terem posições submissas, por vezes forçando-os, ao ponto de criarem respostas de medo. Hoje, alguns treinadores chamam a isto exercícios de “gentling” ou “calma submissiva” e usam-nas até com cachorros.

Por exemplo, virar o cachorro de barriga para cima, e não largar até que este pare de resistir. A explicação por trás deste exercício é simples: ao forçar um cão a assumir uma postura submissiva e depois recompensá-lo por aceitá-la, estamos a ensinar o cão a submeter-se á sua liderança.


Mas note que essa liderança é ganha através da força. Na sociedade canina, a liderança não é obtida através da dominação física. E um grande número de cães com temperamentos sociais normais, irão naturalmente resistir ser forçados a estar de barriga para cima, mesmo ao ponto de exibirem agressão defensiva.

Os humanos não são muito diferentes neste aspecto. Imagine como reagiria se o seu patrão tentasse estabelecer a sua “liderança” através do uso da força física!
Alguns ditos “experts” sugerem o uso de técnicas violentas como o abanar do cachaço do cão e alpha rolls. No extremo, outros treinadores advocam métodos assumidamente abusivos tais como o uso de coleiras de engasgo, muitas vezes “pendurando” o cão até que este perca a consciência.

Estas técnicas são consideradas aceitáveis para o tratamento de problemas tão simples como cavar buracos no quintal ou para os mais sérios como a agressão.


Falhas na interpretação das matilhas

Infelizmente, a nossa preocupação colectiva com a dominância canina não nos ajuda em nada nem a nós nem aos nossos cães. Para começar, é baseada num conceito antiquado e sem sentido.
O Dr. Ian Dunbar demonstra as 3 maiores falhas nos estudos das alcateias de lobos durante os anos de 1930 e 1940. Em primeiro estes estudos eram curtos e focados num só aspecto da vida dos lobos, a caça. Como resultado, os estudos recolhidos eram uma fraca representação e as conclusões eram inexactas acerca do comportamento do lobo (e mais tarde do cão).
Em segundo os investigadores observam rituais, e interpretam-nos incorrectamente. O bulco da mitologia da dominância provém destas interpretações erradas.
Tomemos por exemplo os alpha rolls. Os investigadores mais antigos pensavam que o lobo alpha forçava os outros lobos rolando-os para uma posição subordinada para exercer a dominância. Estudos modernos mostraram que o suposto “alpha roll” não passa de um ritual de apaziguamento oferecido voluntariamente pelo lobo subordinado e nunca forçado pelo superior.
A especialista em comportamento canino Jean Donaldson, autora do livro premiado “The Culture Clash”, diz, “A verdade é, não existe nenhum caso documentado de um lobo a forçar outro lobo a rolar-se no chão. Nem existe nenhum caso de uma mãe lobo (ou cadela) a abanar as suas crias pelo cachaço.”
A terceira falha é a de que os investigadores extrapolaram excessivamente a informação. O seu primeiro salto na lógica foi aplicar as suas conclusões falsas ao cães. O segundo foi aplicá-las às interacções humano-caninas.

Cães não são lobos disfarçados

O facto é que cães não são lobos. Lobos são só os familiares mais próximos dos cães – tais quais os chimpanzés são os nossos familiares mais próximos – mas os cães tornaram-se numa espécie diferente hà possivelmente 135,000 anos atrás. Apesar dos cães reterem algumas características dos lobos e de outros canídeos, milhares de anos de domesticação, co-evolução com humanos e criação selectiva, mudou-os profundamente.
Ian Dunbar disse: “ Dizer que quero interagir melhor com o meu cão, por isso vou estudar os lobos, faz tanto sentido como dizer, quero melhorar a forma como lido com os meus filhos – vamos ver como os chimpanzés o fazem.”


Aplicar estudos feitos em lobos a interacções humano caninas não faz sentido, de acordo com Dunbar. Apesar das provas, livros e métodos abundam em recomendar os donos a serem o “líder da matilha”. Estes aconselham relacionamentos conflituosos entre cães e humanos e métodos de treino combativos que se baseiam na força, castigo e mesmo na dor. Afinal de contas, a força é tida como necessária e essencial para colocar cães ambiciosos no seu lugar.


No seu livro “Dog friendly dog training”, Andrea Arden escreve, “Na vez de ensinarmos os nossos melhores amigos, eramos aconselhados a dominá-los fisicamente para os manter na linha.”

Em contraste com o mito popular dos lobos (e cães), a estrutura social de ambos é muito mais complexa, flexível e subtil.

Líder Benevolente

Baseado em estudos caninos muito mais longos e dedicados, cientistas aprenderam que a marca do verdadeiro líder é a capacidade de controlar, sem o uso da força, como afirma a Dra. Myrna Milani, veterinária e comportamentalista. Ela aponta que, na selva os animais que lideram com a força bruta têm menos chances de se procriarem dado o risco maior de morte, ferimentos e predação.

Ao invés, a vasta maioria de lobos alpha são benevolentes. Raramente entram em combates físicos para reforçar a sua posição. Não precisam. Lideram através de um controlo psicológico subtil. Tal como postura confiante, olhares fixos, vocalizações, etc...
É um ritual. As interacções diárias são baseadas largamente em comportamentos diferenciais e cooperativos, e os conflitos são resolvidos através de exibições físicas designadas a inibir a agressão e eliminar as ameaças.

Sendo assim, apesar do mito popular, alpha não quer de forma nenhuma dizer fisicamente dominante ou mais agressivo. Quer dizer controle de recursos. Um lider é aquele que ganha acesso aos recursos que ele ou ela acham importantes. Isto também é flexível. Muda de acordo com a motivação do cão em dado momento ou situação. Sendo assim um cão dito alpha poderá facilmente dar o seu local de dormir preferido ou o seu melhor osso a outro cão sem problemas.


Mantendo a ordem através da submissão

Outra assumpção da teoria da matilha, é a que os lobos, e como tal os cães, se organizam num hierarquia dominante fixa – tal como as galinhas, na qual os animais dominantes mantêm a ordem através de ameaças.
Os especialistas agora concordam que os lobos formam uma hieraquia não linear, dentro da qual os animais subordinados mantêm a ordem através de exibições activas e voluntárias de submissão e diferencia.

Jean Donaldson oferece o Exército como analogia humana. Os soldados de ranking mais baixo primeiro saúdam os seus superiores e recebem de volta uma saudação. Esta é uma hieraquia classica de apaziguamento. Um general não entra numa sala e desata a bater nos soldados para que estes mostrem a sua submissão. Basta ele aparecer e toda a gente saúda.

Mas indo mais além das observações do comportamento do lobo, investigadores modernos estudaram o comportamento de cães de aldeias selvagens para melhor tentar entender a estrutura social canina.

Estes cientistas observaram estruturas sociais soltas, flexíveis e imprevisíveis. As estruturas observadas eram determinadas mais por factores como a disponibilidade de comida e interacção humana do que por um sentido inato de hierarquia social. Estes mesmo cientistas agora reforçam a importância de tratar o cão doméstico como uma espécie diferente do lobo e não uma imagem distorcida deste.

Problemas com a etiqueta “Dominante”

Outra grande falha na teoria da dominância é o termo em si mesmo. Um dos pilares da ciência são definições precisas e não ambíguas. Termos etológicos tais como dominância não são definições precisas mas sim ideias usadas para nomear e explicar um grupo de comportamentos. Um problema com estas ideias, apontam os psicólogos Drs. Garry Martin e Joseph Pear, é que geram raciocínios circulares.
Por exemplo, um cão que rosna quando alguém se aproxima do seu prato de comida, poderá ser determinado como dominante. Se perguntar ao dono porque é que o cão rosna, ele responderá “Porque é dominante”. Sendo assim a ideia torna-se uma pseudo explicação para o comportamento.

A ideia também vai afectar a forma como o animal é tratado. O paradigma da dominância tem sido usado para justificar castigos aos cães, especialmente àqueles que reagem defensivamente a métodos de treino punitivos. Também serve para fazer com o focus esteja no comportamento problemático, ao invés de ensinar e recompensar comportamentos que queremos ver mais.
Um outro termo relacionado com esta questão, é agressão dominante. O que quer dizer isto? Não existe consenso científico nenhum em como se poderá academicamente definir agressão dominante, muito menos como identificá-la no mundo real e no dia-a-dia.
Se um comportamento tão óvio como a agressão é tão difícil de caracterizar, quão correcto será determinar comportamentos tão subtis e diários como “dominantes”? É um julgamento que assume conhecer os motivos dos cão, quando na verdade, não fazemos ideia o que eles pensam. Existem dezenas de causas possíveis, funções ou motivos para qualquer problema comportamental.

Para além do preconceito

Em muitos casos de agressão, a história e descrição do comportamento do cão é inconsistente com a noção tradicional de dominância. Os então chamados de “cães dominantes” mostram muitas vezes sinais comunicativos corporais de ambivalência, medo e ansiedade. Podem tremer e agir de forma submissiva durante e depois de uma mordida. Estudos mostram que cães que demonstram “agressão dominante” são menos exercitados, são mais medrosos de pessoas, são mais excitáveis e reagem mais a sons agudos. Isto isto é inconsistente com a noção do cão dominante e sugere que existem outros factores que jogam no comportamento agressivo.
Esta informação nova desafia-nos a interpretar o relacionamento social entre cães e donos numa forma mais sofisticada do que a simples dicotomia dominancia-submissão.

Felizmente, a ciência do comportamento e a maioria dos treinadores de cães afastam-se já deste paradigma. Um novo termo que está a ser usado para descrever agressão-dominante é o de agressão relacionada com status. O tratamento foca-se no ensino e recompensa do cão quando este exibe comportamentos desejados, indepentemente do status. Também procura identificar as possíveis causas para os comportamentos problemáticos, tais como medo ou ansiedade, socialização pobre, aborrecimentos, falta de exercício físico, pouca interacção social ou falta de treino.