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quarta-feira, 18 de março de 2009

O QUE É QUE ACONTECEU AO TERMO LOBO ALPHA? por David L. Mech

O termo alpha aplicado aos lobos tem uma longa história. Durante muitos anos livros e artigos sobre lobos mencionavam o macho alpha e fêmea alpha ou o par alpha. Em muita literatura popular, o termo ainda é usado. No entanto, observadores interessados, devem ter constatado que nos últimos anos esta tendência começou a mudar. Por exemplo, 19 proeminentes biólogos que estudam somente lobos da Europa e da América do Norte não mencionam o termo alpha, nem uma só vez, num longo artigo sobre os pares procriadores de lobos. O artigo entitulado “Os efeitos da perda de procriação em lobos”, foi publicado em 2008 no “Diário de Gestão da Vida Selvagem”. Em 448 páginas, o livro de 2003” Lobos: Comportamento, Ecologia e Conservação”, editado por Luigi Boitani e por mim mesmo e escrito por 23 autores, o termo alpha é mencionado em apenas 6 ocasiões e todas elas para explicar porque é que o termo está desactualizado. Porquê?


Esta mudança na terminologia reflecte uma importante mudança na forma como pensamos sobre a estrutura social lupina. Na vez de vermos uma matilha de lobos como um grupo de animais organizados com um “chefe” que lutou até chegar ao topo, ou um casal de lobos tão agressivos que são quem “manda”, a ciência começou a entender que as matilhas de lobos, são meros grupos familiares formados exactamente da mesma forma que os grupos familiares humanos. Isto é, um lobo macho e fêmea maturos de grupos diferentes, dispersam-se dos seus grupos originais e viajam até se encontrarem um ao outro e uma área livre de outros lobos, com presas adequadas. Cortejam, procriam e produzem a sua própria ninhada.

Por vezes este processo implica apenas um lobo macho maturo que corteja uma fêmea matura de um grupo vizinho e depois o par estabelece-se num território perto de onde os grupos originais se encontravam. Em populações mais saturadas, isto pode querer dizer que os lobos têm que viajar grandes distâncias para encontrarem os seus pares e locais novos. Este é o processo que ajuda uma população crescente de lobos a expandir-se. Um bom exemplo é a crescente população lupina em Wisconsin. Ali, não só a grande parte da população de lobos se encontra na parte norte do estado continuando a encher o Norte com mais e mais grupos, mas os lobos conseguiram formar uma população separada na parte central deste estado através da dispersão e proliferação dos grupos. Actualmente cerca de 18 grupos vivem no centro do estado de Wisconsin.

Mas voltemos à família. Á medida que o par original cria as suas crias, estes alimentam-nos e protegem-nos como qualquer outro animal o faz com as suas crias. Á medida que as crias crescem e se desenvolvem, os seu pais naturalmente guiam as suas actividades, e as crias naturalmente seguem. Certamente à medida que as crias crescem, estas começam a desenvolver alguma independência, e alguns vagueiam temporariamente para fora do grupo explorando os caminhos. No entanto, os pais continuam a guiar o grupo, enquanto caçam, definem o seu território, afastam outros animais das suas presas e protegem o seu grupo de grupos de lobos vizinhos com os quais se podem encontrar.


Á medida que as crias se desenvolvem e chegam a 1 ano de idade, os seus pais produzem uma segunda ninhada, que se tornam então nos irmãos mais novos da 1ª ninhada. Novamente os pais continuam a guiar e liderar a velha ninhada assim como a nova ninhada e mantenhem-se os líderes da matilha. As crias mais velhas naturalmente “dominam” os irmãos mais novos, da mesma forma que os irmãos e irmãs mais velhas numa família humana “dominariam” os seus irmãos mais novos, mas continua a não existir nenhuma batalha para “ganhar liderança”; essa mantém-se naturalmente com os pais. Algumas das crias mais velhas começam a dispersar entre o 1º e o 2º ano de idade em algumas populações e noutras poderão manter-se no grupo original até aos 3 anos de idade. No entanto, eventualmente quase todos se dispersam e tentam encontrar um companheiro e começar os seus grupos e matilhas.

Dada esta história natural do lobo, faz tanto sentido referirmos os pais de um grupo de lobos como os alphas como referir os nosso próprios pais humanos como alphas. Sendo assim agora referimo-nos a estes animais como o macho que procria e a fêmea que procria ou o par que procria ou simplesmente os pais.

Na vez de ver uma matilha de lobos como um grupo de animais organizados com um líder que lutou com todos até chegar a essa posição, ou com um par macho e fêmea agressivos, a ciência entendeu que a maioria das matilhas de lobos são simplesmente famílias formados exactamente da mesma forma que as famílias humanas se formam.


Então como é que a ciência esteve tão “enganada” durante tanto tempo em referir-se aos lobos como alphas? A resposta inclui uma história que ilustra de uma forma bastante interessante a forma como a ciência evolve.
Várias década atrás, antes de existirem muitos estudos feitos com lobos no seu ambiente natural, os cientistas que se interessavam pelo comportamento social animal pensavam que as matilhas de lobos eram um agrupamento aleatório de lobos que se encontravam no inverno de forma a caçarem melhor em grupo. Sendo assim, de forma a estudar lobos, a única forma que eles conheciam na altura, era escolher uma série de lobos aleatoriamente de variados jardins zoológicos e juntá-los numa colónia captiva em ambiente controlado.


Claro, quando alguém coloca artificalmente um grupo aleatório de indivíduos juntos, seja de que espécie forem , estes animais irão naturalmente competir uns com os outros de forma a criar uma espécie de hierarquia. Isto é o mesmo fenómeno da hierarquia linear existente e originalmente observada nas galinhas. Em tais casos, é apropriado referir aos indivíduos que estão no “topo” como alphas, implicando que competiram e lutaram para ganhar acesso a essa posição. E assim era com os grupos aleatórios de lobos colocados juntos artificialmente.


Sendo assim, os principais cientistas que estudaram os lobos em captividade, tais como Rudolph Schenkel, publicaram uma famosa monografia descrevendo as interacções dos lobos uns com os outros, neste tipo de grupos, afirmando de que existe uma fêmea e um macho que lideram e referindo-se aos mesmos como alphas.
Esta monografia clássica foi a principal peça de literatura sobre os grupos sociais de lobos na altura em que eu escrevi o livro O Lobo - Ecologia e Comportamento de uma raça em perigo nos finais de 1960. Este livro foi uma síntese da informação acerca dos lobos que existia na altura, como tal eu mesmo incluí muitas referências aos estudos de Schenkel. O livro foi um sucesso porque nenhuma outra síntese havia sido escrita acerca do comportamento dos lobos desde 1944, como tal, “ O Lobo” vendeu bem. Foi originalmente publicado em 1970 e republicado em 1981. Actualmente existem mais de 120.000 cópias em circulação deste meu livro. A maioria dos outros livros posteriormente escritos sobre lobos basearam-se bastante no livro “O Lobo”, dessa forma contribuindo para a distribuição mundial da informação errada acerca do conceito dos lobos alpha.



Finalmente nos finais de 1990 após eu ter vivido com uma matilha de lobos selvagens no seu habitat natural na ilha de Ellesmere perto do Pólo Norte por muitos verões presenciando pessoalmente as interacções entre pais e as suas crias, eu decidi corrigir a informação. Por essa altura, no entanto, quer o público em geral como a maioria dos biólogos já tinham adoptado completamente o conceito alpha e a sua terminologia. Parecia que ninguém conseguia falar de uma matilha de lobos sem mencionar os alphas. Muitas pessoas perguntavam-me o que tornava um lobo alpha um lobo alpha e que tipo de lutas e competições ocorriam para que ele assumisse essa posição.

Em 1999 eu publiquei o artigo “O Status Alpha, Dominância e Divisão de trabalhos em matilhas de lobos” no Jornal de Zoologia Canadiano dessa forma corrigindo a informação errada na literatura científica. Eu segui esse artigo em 2000 com outro artigo “ Liderança nas matilhas de Canis Lupus” publicado no Canadian Field Naturalist mais uma vez focando-me no papel dos lobos como pais no grupo social de lobos.

No entanto, bem se diz que demora cerca de 20 anos até que uma nova ciência realmente seja absorvida, incluindo novos feitos médicos! Este “dito” parece estar a confirmar-se com o conceito do lobo alpha. Muitos dos meu colegas biólogos já aceitaram os novos termos e actualizações, mas outros enquanto discursam, corrigem-se quando conversam comigo; ainda outros parecem completamente abstraídos do tema. É realmente inspirante ver novos documentos publicados, tais como os que citei acima na introdução a este artigo, que usam as novas terminologias.

O assunto não se prende meramente com semântica ou um do que é politicamente correcto. É um do que está na realidade biologicamente correcto, uma vez que o novo termos de pais ou par que procria descreve de uma forma exacta o papel destes animais na vez de perpetuar uma ilusão errada.
Um local onde este assunto se torna particularmente confuso é no Parque Nacional de Yellowstone, onde multidões visitam e passam muito tempo a observar lobos, lado a lado com os biólogos e naturalistas. Porque a população de Yellowstone foi recentemente refeita e goza de um excesso de presas (cerca de 6,000 a 12,000 veados, 4,000 bisontes e muito mais) a estrutura social das matilhas é mais complexa e artificial do que as normais. Aí, os lobos jovens dispersam muito mais tarde, quando têm 2 ou 3 anos ao invés de 1 ou 2 anos, fazendo com que os grupos sejam maiores que conteêm mais indivíduso que qualquer outro grupo de lobos no mundo.
Nestes grupos onde tanto a mãe e algumas das suas crias mais velhas já encontraram a maturidade sexual mas não dispersaram, todas acasalam no mesmo ano, sendo que as crias mais velhas normalmente são acasaladas por machos lobos jovens estranhos ao grupo.
Quando mais do que uma fêmea procria num só grupo, as fêmeas tornam-se naturalmente mais competitivas, portanto talvez seja apropriado referir a matriarca original como a fêmea alpha e as suas filhas como as “betas”. Os observadores de Yellowstone usam com regularidade esta terminologia, mas muito frequentemente esta é aplicada a todos os lobos que procriam, mesmo naquelas matilhas onde só existe 1 par de lobos a procriar. Enquanto que não é incorrecto usar o termo alpha em grupos de lobos onde existem mais do que uma fêmea a procriar, era desejável e até mesmo aconselhável usar outra terminologia com menos significado subjacente. Por exemplo, a fêmea alpha poderia ser chamada de dominante ou matriarca, e as suas filhas de subordinadas.
Esta aproximação iria ajudar na reforma da terminologia e na percepção quer da ciência como do público em geral de como se organizam os lobos.


Esperemos que leve menos do que 20 anos até que os media e o público adoptem a terminologia correcta e assim de uma vez por todas acabar com a visão antiquada e errada dos lobos como um grupo de indivíduos agressivos que consistentemente competem uns com os outros por uma estatura hierárquica.


L. David Mech is a senior research scientist for the U.S. Geological Survey and founder and vice chair of the International Wolf Center. He has studied wolves for 50 years and published several books and many articles about them.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O que é preciso para treinar o seu cão


“O treino obediência já não é aquilo que era. Eu lembro-me à muito tempo atrás costumavamos caminhar horas à volta estrangulando os nossos cães com estranguladoras e sendo monitorados por um instructor ao estilo militar. Hoje em dia, os princípios de como os animais aprendem e um maior fluxo do número de pessoas que realmente sabem como ensinar outras, tornou a actividade muito mais agradável e eficaz.” – Jean Donaldson

Hoje em dia, o treino positivo permite que as oportunidades de treino se estendam às situações do dia a dia. Basta inserir o treino durante os anúncios da sua série favorita à noite, antes de colocar a tigela da comida do seu cão no chão, na esquina de uma rua durante o passeio, quando chega a casa do trabalho à porta de casa, etc. Para a maioria dos donos de cão se não todos, este tipo de treino é o mais realista.

O que você precisa

“A primeira coisa é estar alerta. Tempo seria melhor, mas uma vez que a maioria de nós tem o tempo contado, estar alerta éa primeira coisa do que precisa na sua lista. Precisa de estar alerta para perceber todas as oportunidades de treino fantásticas que se apresentam durante o dia. Os cães estão sempre a aprender, quer estejamos activamente a treiná-los ou não Eles são autênticas máquinas de aprendizagem. O que nos leva ao tema dos motivadores.

Você irá precisar uma lista dos maiores motivadores para o seu cão: os motivadores de ouro, prata e bronze. Este provavelmente serão coisas tais como conhecer e brincar com outros cães, algum tipo de comida apetitosa tal como queijo ou fígado cozido, ir dar um passeio, cheirar determinados locais como postes ou apanhar uma bola ou Frisbee.
Os cães viciados em bolas ou Frisbees são os chamados pelos treinadores de “high drive dogs”, o que quer dizer, especificamente, que têm um alto sentido predatório – a bola ou Frisbee para eles tal como um bicho a correr e isso despoleta algo dentro deles. Este tipo de cães são fáceis de motivar mas têm tendência a serem cães muito muito muito energéticos.
Cães como Border Collies, Malinois, Goldens e Labs de linhagem de trabalho, Pastores Alemães de linhagem de trabalho, Jack Russel Terriers e alguns Australianos de pastoreio veêm-me à cabeça. Cães que não têm um sentido elevado de drive, também podem ser treinados – também eles terão os seus motivadores de ouro, prata e bronze e em geral é muito mais fácil viver com este tipo de cães.”




O seu cão também pode adorar passear de carro, que lhe abram a porta para ganhar acesso ao jardim, ou que a abram para voltar a entrar em casa, por exemplo. Pode adorar festas, que lhe atirem a bola ou que o deixem ir dizer olá ao cão da vizinha. Estas situações também são usadas como motivadores.

Você tem que parar de dar todas estas “coisas” de graça. A partir de hoje peça sempre ao seu cão, que faça algo antes de lhe dar acesso às suas coisas favoritas. O treino positivo opera muito sob a permissa de que "eu dou-te o que tu queres, se tu me deres o que eu quero", portanto se a Safira quer subir para o sofá, tem que fazer um deita primeiro. Se quer ir á rua, tem que me oferecer um senta e espera primeiro, etc....
Se o seu cão estiver a saltar que nem um tolo em frente ao corredor antes de ir passear, por favor, não coloque a trela e leve-o a passear! Aquilo que o cão aprende é que comportamentos de histeria fazem com que tenha acesso ao que ele mais quer.
Peça que se sente e espere antes para ter acesso ao passeio. Se ele não se sentar, simplesmente vá embora e tente de novo dali a uns minutos. Talvez você tenha que se contentar apenas com um cão mais calmo no início, antes de pedir um senta e fica, mas assim que conseguir que ele esteja mais calmo, algumas vezes depois peça o tal senta e fica.
Dentro de poucas semanas o cão irá provavelmente estar imóvel, sentado enquanto você vai buscar a trela, veste o casaco , pega nas chaves e abre a porta. Ele não se atreve a mexer, com medo que você cancele o passeio nem que seja temporariamente.


Lembra-se quando falei das oportunidades que surgem no dia-a-dia? Você irá tê-las, portanto quando as tiver, não as ignore.

A seguir é uma lista de comportamentos que você quer do seu cão. Isto pode incluir sentar-se em frente às pessoas para dizer olá, na vez de saltar para cima delas, deitar-se na cama na vez de pedir comida à mesa, vir quando é chamado. A lista é sua, escolha!

Se o seu cão puxa na trela que corra à loja de animais mais próxima e compre um halti harness. Estas novas trelas não ensinam o seu cão a não puxar mas tornam os seus passeios bem mais fáceis, na medida em que é mais fácil segurar e manter o cão perto de si, sem que este lhe arranque o braço! Depois peça ajuda a um treinador positivo para lhe dar as técnicas de como pode ensinar o seu cão a andar sem puxar, na trela. Mas esta trela permite-o ter passeios mais relaxados e focar-se entretanto noutras coisas como brincar, treinar sentas ou simplesmente gozar dos passeios.

Outro objecto essencial é o clicker. Porquê? Porque o clicker irá permitir que comunique eficaz e rapidamente com o seu cão. Permite moldar comportamentos tão complexos como levantar a pata traseira ou tão simples como deita. Mas acima de tudo torna o processo de aprendizagem muito mais rápido. Para quem não quer usar o clicker, uma palavra que marque o momento certo também serve, embora esta pode deter uma carga emocional ou ser desfasada do comportamento em si. O clicker é um objecto barato, e fácil de se usar e deverá ser usado apenas no início para ensinar comportamentos novos. Quando o cão já souber esses comportamentos não há necessidade de usá-lo mais.

Outra vantagem do clicker é poder ser usado por qualquer pessoa. Facilmente uma pessoa de idade, uma criança ou até uma pessoa comdeficiência física e numa cadeira de rodas pode treinar o seu cão. Não há necessidade de usar força física e o treino torna-se parte da vida de todos os que têm um cão, e não só daqueles que têm força ou carácter autoritário.


Também precisa de brinquedos. Bolas, frisbees ou o tipo de brinquedos que ganham vida nas suas mãos. Cordas de puxar são óptimas e são óptimos jogos de cooperação. Deverão ser jogados com regras restritas e o cão deve ser ensinado a pegar e largar sob comando tal qual neste vídeo aqui. Mas depois do cão estar ciente do que as palavras pega e larga significam este jogo é óptimo para cansar o seu cão, criar um laço maior entre vocês e tornar-se-á um motivador de ouro para treinar outros comportamentos.

Uma coisa que necessitam q.b. é consistência e paciência. Lembrem-se que não existem treinos milagrosos. Nenhum cão aprende do dia para a noite, com método nenhum! Isso só mesmo na televisão e nos shows editados de 45 minutos. Os cães que vemos na vida real a ganharem medalhas de obediência, a correrem agility, a salvarem vidas de pessoas, a detectarem bombas ou a assistirem cegos ou pessoas com deficiências, são treinados durante muito tempo. Não espere que o seu cão seja diferente. Muna-se de paciência e divirta-se com o seu amigo, afinal de contas o treino é um jogo para ele, torne-o um jogo para si também!


O que não precisa


Não precisa de coleiras de choque, estranguladoras ou coleiras de bicos. Não precisa de berrar, usar força física ou assustar o seu cão para conseguir treiná-lo. Estas coisas são algo que fazem parte de um passado onde nada melhor havia. Hoje em dia temos sorte! Porque podemos obter resultados sem termos que aceder a esses instrumentos de treino antiquados.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Entrevista com Cesar Millan

Esta entrevista foi feita na rádio, nos EUA, num programa chamado Pet Central conduzido por Steve Dale (biografia de Steve no final do artigo), tem a duração de48 minutos aproximadamente à qual vou deixar um link e está toda em inglês.

Infelizmente não tenho disponibilidade para traduzir a entrevista toda, mas gostaria de citar algumas da respostas dadas por Cesar Millan às questões colocadas e tecer alguns comentários. Podem ouvir a totalidade da entrevista no link

http://wgnradio.com/index.php?option=com_content&task=blogcategory&id=150&Itemid=265

é logo o primeiro link basta clicar no nome do Cesar Millan com o botão direito do rato e fazer “save as” e fazer o download em mp3 da entrevista.

O facto de que Cesar Millan usa métodos antiquados, que cairam em desuso pela grande maioria dos treinadores a nível mundial e que podem prejudicar, mais do que ajudar donos de cãs, não é segredo nem para a maioria das pessoas, nem para ele mesmo, que coloca anúncios enormes nos seus programas a pedir às pessoas para NÃO TENTAREM aquilo em casa.

E realmente se gostam dos vossos cães, se prezam o vosso relacionamento e se têm um problema que precisa de ser resolvido, não tentem imitar o Cesar Millan, como ele próprio diz,

”os meus programas não são para ensinar as pessoas em como lidar com os seus cães”.Se tem um problema com o seu cão, contrate um profissional.” - É de longe o melhor conselho que Cesar Millan vos poderá alguma vez dar.

Cesar Millan é sem dúvida um dos melhores entretainers que existe na televisão americana e quiça internacional. Toda a gente gosta de uma história de sucesso! O mexicano que veio para os estados unidos á procura do sonho americano e que o encontrou no mundo dos cães. Toda a gente adora o dramatismo, as música sensacionalistas, os relatos mediáticos e os aparentes finais felizes que caracterizam todos os programas do CM.

Este produto, Cesar Millan entrega sem qualquer sombra de dúvida. Ele é um homem bem parecido, bem falante, bom comunicador, e com quem facilmente nos conseguimos identificar. É nitidamente calmo e nunca parece perder a postura e isto é algo extremamente apetecível quando lidamos com algo tão emotivo como termos o nosso próprio cão exibindo um problema de agressão Não haja dúvida que ele é um conquistador de grandes massas.

Para além disso Cesar dá óptimos conselhos aos donos de cães. Façam exercício com eles, não os prendam a correntes ou deixem-nos fechados em quintais o dia todo. Interajam com os vossos cães, deixem que eles façam parte da vossa família, etc.. Muitos destes conselhos são excelentes, embora à priori sejam apenas senso comum.

Não obstante, considerar o Cesar Millan um bom treinador de cães já não é realista. Ele próprio não se considera um treinador e admite saber pouco ou nada de treino canino. O que ele admite é ter um método criado por ele, que é tão vago que nem ele próprio consegue explicar. No entanto, milhares de pessoas, “bebem” o seu programa sem questionar absolutamente nada do que ele faz.

Quem acredita que Cesar é um bom treinador infelizmente deixou-se iludir pela formula mágica apresentada no quadrado (tv). No entanto existirão sempre pessoas que são atraídas pelo mediatismo e o sucesso de outras. Estas são as mesmas pessoas que vão seguir o Cesar, não porque ele é bom treinador, conhecedor, instruído e na realidade nada tem haver com os cães, mas sim porque ele é famoso e aparece na televisão. Isso basta, mas bastará para os nossos cães?

As pessoas têm o direito de se deixarem “encantar” por quem quiserem, mas são os seus cães, que inadvertidamente acabarão por sofrer as consequências dessa ilusão, quando estas pessoas, mesmo contra todos os avisos, tentarem as técnicas dele em casa. Porque afinal de contas, e como muitos dizem, os anúncios são apenas para as pessoas que não entendem e que não sabem o que fazem, ou que têm poucas capacidades de “liderança” o que obviamente não abrange ninguém que visiona os seus programas (quem é que voluntariamente se inclui nesse grupo?). Praticamente toda a gente diz gostar de Cesar Millan, afirma que tentou as suas técnicas, que vai contra aquilo que ele pede aos seus fãs.

Na entrevista, Steve Dale, coloca questões como:

SD: “Quando entra em casa de alguém, você consegue dizer qual o estado do cão imediatamente? E se sim, como?”

CM: “...se o cão vem ter comigo e cheira-me, partilhando comigo uma postura com cabeça baixa e orelhas para trás, rabo entre as pernas a abanar gentilmente, isso para mim é a imagem de um cão em estado calmo submisso. Agora se eu não sei como esse cão está, eu chamo o meu cão -Daddy, para que ele venha e me ajude a dizer, se este cão está medroso, tenso, o que seja...:”

Comentário: Para além do pobre conhecimento de linguagem canina (sobre linguagem canina pesquisar: Turid Rugraas - http://www.canis.no/rugaas/ - e Jean Donaldson - http://www.youtube.com/watch?v=0VmWizZueFQ&feature=related ) o Cesar explica como pergunta ao seu cão Daddy em que estado estão os outros cães! Cesar Millan afirma cabalmente ter um poder que ninguém tem! “Falar” com o seu cão, não só falar ele pergunta-lhe como o outro cão está e obtem uma resposta. Ele fala com os cães!?!?
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SD: “Imagine que está a caminhar com o seu cão pela rua e na direcção oposta a si vem uma pessoa com outro cão. O seu cão sabe que quem vem lá é uma pessoa com um cão? Que são diferentes um do outro? Acho que o que quero perguntar (e o que eu não entendo) é essa mentalidade de matilha da qual você fala e que nós nos fazemos parte dela ....será que os cães sabem que nós não somos cães?

CM:”Sim, os cães sabem que não somos cães...mas alguns cães controlam as vidas das pessoas.... Algumas pessoas não deixam ninguém entrar em casa delas, porque o cão pode morder. Para mim e na minha linguagem, nesse cenário o cão é líder e as pessoas são as seguidoras..”

SD: “Mas e se esse cão quiser morder porque tem medo ou porque teve uma pobre socialização? Acha que se o dono disser – Eu vou ser o líder e tomar controlo da situação! – vai ajudar nalguma coisa?”

CM:Não....As pessoas precisam entender que é necessário o conhecimento dealguém, por isso digo contratem um profissional, porque nem tudo o que resulta para uma pessoa resulta para si. As pessoas não devem fazer nada que não estejam 100% certas, não é porque viu na televisão, ou leu num livro, que devem fazer. A melhor forma que tenho de dizer isto é, consultem um profissional.”

Comentário: Como já indiquei acima, o próprio CM parece confuso em relação aquilo que ele próprio diz. Em todos os seus programas, ele afirma que somos membros da matilha, que temos que nos assertivar como dominantes sobre um cão e que para fazer isso temos que implantar as suas tácticas, nomeadamente pôr a mão em forma de “garra” e fingir que a nossa mão são os dentes de outro cão a morder, ou rolarmos o nosso cão no chão à força enquanto este nos tentar morder, porque outros cães fazem isto (isto é mentira, nenhum cão faz isto, artigos neste blogue explicam mais detalhadamente). No entanto ele afirma que não somos cães e que os cães sabem isso. Também afirma que as pessoas não devem fazer nada do que ele faz, mas devem contactar um profissional, mas ele não é supostamente um treinador profissional de cães? E de que serve um programa de treino de cães, que constantemente aconselha a que ninguém fala aquilo, incluindo o próprio protagonista?
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SD: “Cesar antes de prosseguirmos, pergunto quem é que o Cesar lê? Não pergunto romances, mas sim livros relacionados com cães. De quem é o Cesar Millan fã?”

CM: Leon F. Whitney (autor em 1972 do livro “As Bases da psicologia canina”)...

SD: “E alguém que seja mais contemporâneo?”

CM: “AH! Todos os livros que são publicados, é bom mantermos uma mente aberta, estar num estado submisso e aprender com toda a gente...”

SD: ”Então é fá de quem?”

CM: “Neste momento sou fã de....(longo silêncio e suspiro) Meu Deus....são tantos...”

Comentário: Se ler um livro de treino canino escrito no nosso século, por um treinador que se baseia em métodos validado na actualidade, vai verificar que todos eles referem bibliografia extensa.Treinadores acutais não se baseiam em si mesmos para ditar nada. A aprendizagem tem que vir de várias fontes para ser correcta, não podemos ter uma visão unitária de um assunto. Um treinador que apenas consegue nomear UM treinador no mundo todo, cujo livro no qual ele baseia todo o seu trabalho foi escrito antes de eu nascer, é no mínimo caricato. Cesar Millan afirma ler todos os livros que saem mas não consegue nomear um unico autor, na realidade ele apenas aprende consigo próprio.
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SD: ”Se o Cesar tivesse uma orca , como é que a treinaria?” outra questão colocada por um ouvinte através de e-mail.

CM: “Bem...certamente iria ao SeaWorld e aprenderia com eles, porque não conheço a psicologia das orcas... sei que comem peixe, mas é só isso que sei..”

Comentário: Karen Pryor a “criadora” do clicker, começou por ser treinadora de golfinhos no SeaWorld de onde ela adaptou o método positivo usado para treinar golfinhos, baleias, orcas, focas, etc e o adaptou aos cães. Os treinadores do SeaWorld usam nos seus animais os mesmos métodos que todos os treinadores positivos que contestam os métodos de CM usam diariamente com cães.
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SD: “Você escreve no seu livro, - se você se apresentar ao seu gato como líder você domina o gato e o cão dará espaço ao gato. Não separe o cão e o gato, o seu objectivo é criar uma matilha familiar...A minha questão é, se eu tentasse com o meu gato, ou qualquer gato, assertivar-me como líder como você aconselha, o meu gato iria perder toda a confiança em mim e ignorar-me provavelmente durante meses seguidos ou talvez para sempre. Gatos não percepcionam o mundo da mesma forma que os cães. Cesar você está a dizer no seu livro que nós devemos ser dominantes com os nossos gatos??”

CM: “Bom Steve, eu não percebo nada de gatos.”

SD: “... mas então o que é que você quer dizer com isto, é tirado do seu livro!”

CM: “Mas eu não percebo a psicologia dos gatos. O que o livro diz é... que num relacionamento entre um cão e um gato, quando é muito saudável, na maioria das vezes o gato está em controle da casa, ele domina a casa. Se ele quiser ir à cozinha, o cão sai da cozinha. Dominância você vê mais como um acto físico eu vejo mais como um acto mental,...se o toque físico é preciso então eu faço-o mas se não, eu prefiro fazê-lo com a minha mente, tal como o gato! Ele não está sempre a tocar no cão! Mas o gato estabelece as regras, limites e limitações a partir do momento que o cão entra em casa Mal o cão entra em casa o gato dá-lhe uma unhada e a partir daí é tudo mental. O gato toca no cão fisicamente não para o magoar, mas apenas para que ele saiba quem é que manda na casa e a quem é que aquele humano pertence.”

Comentário: Ele afirma não perceber nada de gatos mas dá conselhos às pessoas e analisa o que o gato está a fazer. “Ensina” que o líder da matilha deve ser o humano,mas remata com o facto de que as pessoas pertencem aos gatos e que estes mandam na casa?? O mais caricato desta afirmação é dizer que dominância para ele é um acto mental, no entanto, em todos os programas de Cesar vemos ele manejar fisicamente todos os cães, ou com as próprias mãos ou com a ajuda de uma trela.

Tenho uma pitbull que adoptei recentemente (menos de 1 mês) e dois gatos, um que está connosco há 6 meses, o Jaime extremamente confiante e seguro de si e outra adoptada e extremamente medrosa, a Sofia, e nenhum deles mandou unhadas na Safira nem a Safira tentou morder nenhum. Mantivemos os três separados enquanto pusemos em prática um plano de desensitização e contra condicionamento para apresentar a Safira aos meus gatos e vice-versa (http://www.youtube.com/watch?v=wnlfrRVMPOQ&feature=channel_page). Hoje em dia (menos de 1 mês) passeiam todos pela casa em harmonia e sem nunca terem tido conflitos.
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Um ouvinte coloca uma questão a CM:

Ouvinte: “Estou a olhar para o seu web site “Sessões com o Cesar”. E vejo aqui que você propõe resolver problemas tais como ansiedade, agressão, medo, etc... e tem todos estes materiais de curso. Claro eu tendo uma graduação em Etologia e sendo um etólogo, a minha questão é: como é que você vai explicar a estas pessoas como podem encontrar a função, como é que elas vão estabelecer a chave para a motivação,estabelecerem o estímulo e entenderem o comportamento e as suas consequências para solucionarem este tipo de problemas comportamentais?”

CM: “As pessoas têm que ter 100% de certeza que estes cursos as vão ajudar. Só assim é que os cursos as vão ajudar....”

Comentário: Durante esta entrevista duas ouvintes colocaram uma questão pedindo conselhos práticos. Cesar não deu nenhuma dica válida que as ajudasse dizendo que sem ver o cão e sem estar lá não poderia ajudar. No entanto ele vende na internet cursos pré-feitos para resolver problemas comportamentais tão graves como agressão. Cursos pré-feitos que são válidos para todos os cães, isto é, todos os cães com medo vão ter o mesma solução, todos os cães agressivos têm a mesma solução, etc.. etc.. Para além disso a validad e sucesso desses cursos não depende dele, nem dos conselhos que ele dá mas sim do facto da pessoa acreditar que o curso ajuda (não se esqueça de pagar primeiro!). Já imaginou ir ao veterinário e este dizer que o tratamento que ele dá ao seu cão só irá resultar se você acreditar que ele pode resultar, doutra forma, se você não tem a certeza não o faça.
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Esta entrevista mostra a natureza de um homem que é um verdadeiro entretainer. O que Steve Dale nos proporcionou foi a oportunidade de colocar questões importantes e directas e avaliarmos por nós mesmos as repostas que CM dá. A incoerência, incapacidade de ser directo e em explicar aquilo que ele faz e a falta de conhecimento acerca de cães e do seu comportamento, está patente.

Convido-vos a não se deixarem influenciar por ninguém, nem por Cesar,nem por mim, nem pelo Steve, nem mesmo pelo etólogo ao telefone.

Ouçam vocês mesmos e usem o vosso sentido crítico para encontrarem as respostas. Não aceitem nada como universalmente correcto, questionem e procurem saber todas as versões.
Se tiverem um problema com o vosso cão, continuem fãs do Cesar, mas sigam o seu conselho desliguem a TV, não façam o que ele faz e contratem um profissional.

Quem é Steve Dale:

Steve Dale é um especialista certificado em comportamento canino e felino.
Escreve uma coluna semanal no jornal (Tribune Media Services), é editor da revista USA Weekend e correspondente especial na revista Cat Fancy, sendo locutor de dois programas de rádio nacional, Steve Dale’s Pet World e The Pet Minute assim como locutor do famoso programa na rádio WNG de Chicacago Pet Central.


Steve foi convidado no programa da Opra Winfrey, na National Geographic Explore, na Fox News e vários programas no Animal Planet. Já apresentou vários programas de animais na televisão e rádio nacional.

É um convidado regular em conferências veterinárias e humanas e é frequentemente citado em publicações tais como USA Today, Los Angeles Times e Redbook.
Steve é editor da revista PawPrints uma revista para veterinários. Ele pertence ao quadro de directores de várias associações de renome incluindo a Associação Americana Humana que protege os direitos dos animais e das crianças contra a crueldade
(http://www.americanhumane.org/). Escreveu livros que incluem American Zoos e DogGone Chicago.

Os vários prémios recebidos por Steve incluem o distinto prémio por feitos humanitários da AVMA – Associação Médica Veterinária Americana (http://www.avma.org/).

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Richard Dawkins, acerca da importância da ciência como factual

Porque é que a ciência é tão importante para a compreensão de tudo o que nos rodeia, e porque é que duvidar da ciência, nos leva a uma incompreensão do que são na realidade factos.