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Ao visionar vários programas do Cesar Millan, muitas são as questão que se colocam. Quando confrontados com a verdade sob os métodos de Cesar muitas pessoas contestam. Espero aqui poder esclarecer algumas dessas questões de uma forma clara.
NUNCA O VI MAGOAR UM CÃO
A maioria dos críticos não se referem a um abuso físico, embora alguns dos métodos usados no seu programa poderão ser classificados como tal. No episódio Fondue, Chip, Hope & JoyJoy, cães pequenos são agarrados e içados do chão pelo cachaço. No episódio de Teddy, os pés de um Labrador são levantados do chão içados pela coleira. A maioria dos donos de cães não iria permitir que uma pessoa no parque tratasse o seu cão dessa forma, independentemente do comportamento do seu cão.
JonBee, amordaçado, é levantado do chão com uma coleira de engasgo (parece uma inofensiva fita amarela), um procedimento conhecido por “stringing up”. Antes disto, o cão não só não demonstrou nenhum sinal de agressão como tentou várias vezes evitar qualquer tipo de interacção com Cesar Milan.
Ruby mostra multiplos sinais de stress durante este episódio. Pouco depois disto, é-lhe oferecido um pedaço de comida que ela recusa. A recusa de comida num cão saudável é um sinal comum que o sistema nervoso simpatético do cão foi activado, desactivando o sistema digestivo do cão e preparando-o para um situação de fuga ou de luta.
Aquilo que realmente preocupa os críticos é o stress psicológico no qual são colocados os cães durante o programa. Muitos cães que oferecem comportamentos de evitação no início do programa são na sua maioria “empurrados” para uma situação de agressão e luta.
Um exemplo bastante perturbante é o de JonBee, um Jinbo que é forçado a deitar-se de lado. Após uma luta significante e perigosa (durante a qual o cão parece ter urinado), o cão finalmente desiste e permite-se a ser deitado de lado. No entanto, o cão não está relaxado. Muito pelo contrário, o cão exibe todos os sinais de stress e exibe um fenómeno chamado de “learned helplessness”, ou muitas vezes chamado também por treinadores de “shut down” ou em português uma situação de desamparo em que o cão “desliga” e deixa de oferecer qualquer tipo de comportamento a fim de terminar o confronto.
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“Learned helplessness” foi originalmente observado por cientistas que colocavam cães numa caixa fechada sem saída e lhes administravam choques através do chão. Os cães inicialmente tentavam escapar e depois, já exaustos e não encontrando uma saída, simplesmente se deitavam no chão, apesar de continuarem a receber choques. Os cães não estavam a “gostar” dos choques ou não se habituaram aos mesmos, simplesmente desistiram.
Não é necessária uma lesão física para traumatizar um cão. Enquanto alguns cães recuperam de experiências traumáticas com mais facilidade, outros terão como consequência problemas comportamentais para o resto da vida.
Tal como nos humanos, o stress crónico causa sérios problemas médicos em cães, que vão desde sistemas imunitários fragilizados, doenças digestivas, a problemas de coração. O stress agudo pode tornar um cão sensível a determinados ambientes e pessoas, criando uma associação ainda mais negativa do que antes e consequentemente levando a outros problemas no futuro.
Como tal, repetidamente colocar um cão numa situação de stress, na realidade, causa-lhe dano.
JÁ ALGUMA VEZ VIU O PROGRAMA?
Na realidade, a maioria dos profissionais que levantaram a voz contra os programas de Cesar Milan, veêm o show com regularidade. Andrew Luescher, um Veterinário Comportamentalista na Universidade de Purdue, viu Dvds do programa que lhe foram enviados pela própria National Geographic antes estes irem para o ar. Ele na altura, exprimiu as suas preocupações à produção do programa.
Eu regularmente observo o programa e faço downloads dos videos podcasts. Primeiro observo-os sem som, para que possa observar os comportamentos do cão e as acções de Milan, assim como as respostas do cão aos métodos usados. Eu considero a música dramática, o narrador e as explicações da estrela do programa frequentemente contraditórias com o que realmente está a acontecer no ecrã.
NÃO ESTARÃO OS CRÍTICOS APENAS INVEJOSOS DO SEU SUCESSO??
Muitos do profissionais que falaram contra o programa são extremamente bem sucedidos. Têm o respeito dos seus colegas, são professores em universidades, locutores e autores famosos. Outros incluem treinadores profissionais e consultores de comportamento canino que ajudam com sucesso cães com problemas comportamentais sérios através de associações de animais e outras organizações sem lucro dedicadas à melhoria do bem-estar dos cães e de outros animais.
A popularidade do programa de tv não criou uma perda de negócio para treinadores e especialistas em comportamento canino. De facto, o oposto aconteceu. Vemos um aumento impressionante de chamadas de donos de cães que se apercebem que os problemas dos seus cães não são algo com o qual eles têm que viver, que é o que o programa anuncia. No entanto, mais de metade das casas que visitamos vê o programa com certa regularidade e já tentaram os métodos sem sucesso ou com resultados negativos.
Se o programa atingisse o mesmo sucesso, com métodos humanos e positivos, baseados no conhecimento cada vez mais crescente da ciência e do comportamento canino, e não baseado numa interpretação individual do comportamento, a maioria dos profissionais estaria a glorificar o programa e a estrela. Não é inveja que motiva os protestos de outros colegas da profissão mas sim a falta de segurança e bem-estar dos cães e dos seus donos.
MAS ELE NÃO TREINA CÃES, ELE REABILITA-OS
Enquanto que treino de obediência e modificação comportamental não são a mesma coisa, eles não estão completamente separados um do outro. Para se treinar um cão com sucesso, é necessário um conhecimento complexo de como os cães aprendem e do que os motiva a repetirem comportamentos. Essa compreensão também é essencial para poder modificar comportamentos.
Cães que não detêm um fundamento básico de obediência são mais difíceis de controlar e respondem menos aos seus donos, o que torna a modificação comportamental (ou reabilitação) muito mais difícil. Uma das coisas que eu observo frequentemente no programa é que enquanto o cão não responde ao que despoleta o comportamento (outros cães, pessoas, skates, etc...), também não responde ou olha para os seus donos. Na realidade, a presença de uma trela curta e a frequência de esticões dados na trela sugere que o cão não seria tão “submisso” se o dono largasse a trela.
É difícil imaginar como é que alguém consegue reabilitar um cão sem um conhecimento básico de como os cães aprendem, ou porque é que alguém iria ignorar este passo tão importante que encoraja a cooperação e coloca o dono numa posição de “liderança”.
MAS NÃO EXISTE APENAS UMA FORMA DE TREINAR CÃES
Claro que não. No entanto, o que poucas pessoas sabem é que muitos dos treinadores “positivos” de topo (incluindo os treinadores de “clicker”) começaram exactamente como treinadores hà 20-30 anos atrás e mudaram de métodos após se aperceberem dos benefícios deste tipo de treino para obediência, competição e modificação comportamental. Portanto não só estão estes treinadores cientes de que existe mais do que uma forma de se treinar um cão, como têm uma experiência extensa em variados métodos, incluindo os métodos aversivos usados neste programa.
Sim, existem muitas formas de se treinar um cão. Eu penso que o que os donos de cães deveriam perguntar-se é porque é que deverão escolher um método que causa stress ou magoa o seu cão sem tentarem primeiro métodos menos aversivos.
OUVIR DIZER QUE TREINADORES “POSITIVOS” PREFEREM EUTANAZIAR CÃES
Dado o extenso número de livros escritos por treinadores “positivos” em como modificar problemas comportamentais sérios, incluindo agressão, já para não mencionar a contínua educação através de seminários e conferências referentes ao tema da modificação comportamental nomeadamente de agressão, é claro que treinadores “positivos” não escolhem a eutanásia em vez da modificação do comportamento problemático.
Um treinador com ética profissional, seja ele “positivo” ou não, sabe que a eutanásia é uma opção que não deverá ser recomendada de ânimo leve, e nunca por telefone ou pela internet. A decisão final deverá ser feita pelo dono do cão, após considerar todos os factores incluindo possíveis doenças que possam ser a causa ou contribuam para o comportamento, a extensão do problema, as opções de modificação disponíveis, a habilidade de gerir a situação em segurança enquanto se implementa o plano de modificação comportamental e o empenho de todos os membros da família.
Se o dono de um cão é aconselhado a eutanásia como uma opção pelo telefone ou pela internet ou sem serem dadas opções ou alternativas ou por apenas um profissional, o conselho é que procure ajude noutro local.
MAS RESULTA
Eu nunca vi um comportamento ser realmente modificado em nenhum dos programas. O que vejo são cães com comportamentos suprimidos; cães a caminhar com trelas curtas, cães hirtos e imóveis após serem rolados ou atirados á força para o lado, cães que em quase todas as instâncias estão presos de uma forma ou de outra.
Para mim, como para muitos outros treinadores que trabalham com cães diariamente, se o cão tem que estar preso por uma trela curta para poder passar por outro cão, para ser penteado ou para outra coisa qualquer, o comportamento não foi alterado.
RESULTOU NO MEU CÃO
Se os métodos usados no programa o ajudaram a si e ao seu cão nalguma forma e não criaram problemas comportamentais adicionais então consigo compreender porque é que é difícil ver o mal neles.
No entanto, em comparação ao número limitado de cães que uma só pessoa poderá ter durante toda a sua vida, comparado com os milhares de cães cujos profissionais que falam contra estes métodos, encontram e que desenvolvem problemas muito graves como consequência directa de métodos punitivos, prova o contrário.
Também se deve definir “resultou”. O que normalmente ouço é algo parecido com isto:
“Resultou no meu cão. Sempre que ele (inclua aqui o comportamento), eu dou-lhe uma correcção, digo “Tssssht” e ele pára”.
Note as palavras, “Sempre que ele ladra”. Isto indica que o cão continua a repetir o comportamento. A ideia por trás da modificação comportamental não é que o cão pare de demonstrar o comportamento momentaneamente mas que o comportamento mude de forma a que as reacções do cão naquele ambiente sejam diferentes, tal como olhar para si, na vez de ladrar. A supressão de um comportamento não é a modificação do mesmo. Se o dono tem que continuamente repetir a “correcção” o comportamento não está a ser mudado.
E DEPOIS SE ELE NÃO TEM EDUCAÇÃO FORMAL? ELE NÃO ESTUDA SÓ OS CÃES NOS LABORATÓRIOS, ELE TRABALHA COM ELES DIARIAMENTE
Existem muito treinadores profissionais e consultores de comportamento que não têm educação formal ou cursos universitários. No entanto, estes treinadores, educam-se e continuam a educar-se, mantendo-se sempre a par das últimas descobertas no mundo do treino e comportamento canino.
Enquanto possa ser verdade que os cientistas que trabalham em laboratórios e estudam o comportamento nem sempre trabalham com cães que detêm problemas comportamentais, a informação que eles nos dão com os seus estudos, é importantíssima para todos os que realmente trabalham com esses cães.
Ignorar mais de um século de estudos científicos em comportamento animal aumenta a ignorância dos donos de cães, que é a verdadeira causa dos problemas comportamentais nos cães.
ENTÃO DEVEMOS TRATAR OS NOSSOS CÃES COM PANINHOS QUENTES? COMO CRIANÇAS?
Cuidados parentais, incluem dar aos filhos nutrição, educação e regras sem o uso da violência e/ou abuso físico ou psicológico. Todos estes princípios são consistentes com a criação de um cão saudável e bem comportado. Como tal se os donos de cães tratassem os seus cães como são esperados tratar os seus filhos existiriam muitos menos problemas, não mais.
Em 1992, O Jornal de Ciências Aplicadas ao Bem-Estar Animal publicou um estudo feito com mais de 700 cães, no qual tentaram determinar se atitudes ou actividades antropomórficas estavam directamente relacionadas com problemas comportamentais:
“... cães que eram lidados pelos seus donos de uma forma antropomorfica, eram “mimados” em certas formas e não detinham treino de obediência mas não demonstravam mais comportamentos problemáticos dos que os cães cujos donos não os tratavam de uma forma antropomórfica...”
Os cães não desenolvem problemas comportamentais porque os seus donos os veêm ou tratam como subsitutos de crianças. Muitos outros factores tais como genética, sociabilização (ou falta de) e traumas contribuem para o desenvolvimento de comportamentos problemáticos em cães.
Enquanto que não é aconselhável ver um cão ou tratá-lo como um humano, também não é aconselhável vê-los ou tratá-los através de uma interpretação defeituosa e errada do comportamento de lobos.
MÉTODOS POSITIVOS NÃO RESULTAM EM CÃES DE “ZONA VERMELHA”
Mais uma vez, muitos dos profissionais que se baseiam em métodos livres de força e coerção física começaram por usar métodos semelhantes àqueles usados no programa de tv, há 30 anos atrás. Com o tempo, estes concluiram que métodos compulsivos apresentavam um risco de aumentar comportamentos problemáticos em muitos cães.
Quando um cão se encontra numa situação dentro da qual o sistema nervoso automático é activado (também chamado de fuga ou luta), o sistema digestivo “desliga” para dirigir toda a energia para os músculos para sobrevivência. Isto é o que é conhecido por “over-treshold” ou ultrapasse do limite.
Portanto, se alguém tentar dar comida a um cão quando esse limite foi ultrapassado, o cão não irá comer. Isto quer dizer que o dono ou o treinador, avançou demasiado depressa num determinado ambiente no qual o cão reage e está incapaz de aprender.
Usar métodos positivos eficazmente de forma a modificar um comportamento, é necessário o conhecimento de como o cão aprende. Se esse conhecimento não existe, o sucesso não existirá. No entanto, quando alguém não é bem sucedido no uso de métodos positivos, não ocorrerá nenhuma modificação no comportamento. Quando alguém não é bem sucedido no uso de métodos punitivos, muitas vezes existe um escalar do problema ou o aparecimento de outros.
CONCLUSÃO
Lá porque alguém não entende um método não quer dizer que este não resulte. Lá porque alguém não segue o treino em casa não quer dizer que este seja um falhanço. Lá porque um método contradiz as longas crenças pessoais acerca de comportamento não quer dizer que este esteja errado. Lá porque alguém teve algum sucesso com um certo método não quer dizer que outros sejam ineficazes.
Houve um tempo em que, também eu acreditei, através de informação que adquiri de amigos e amantes de cães bem-intencionados, que a agressão em cães era resultado duma personalidade dominante e que a única solução era o uso de meios físicos e aversivos. Quinze anos atrás eu próprio seria um fã deste programa de tv.
Para alívio e paz do meu cão Mac um cão cujo programa provavelmente consideraria um cão de “zona vermelha”, eu descobri os muitos benefícios do uso de métodos positivos. Desde esse dia, a coleira de choque e de picos estão no armazém com teias de aranha, enquanto nós gozamos passeios longos sem trela.
Quando falamos em trabalhar com cães, a alternativa ao uso de métodos aversivo não é o uso de métodos permissivos. O abuso de métodos permissivos causam tanto dano como os métodos aversivos.
Treinadores “positivos” e especialistas em comportamento canino glorificam há mais de uma década os benifícios do exercício físico e de regras. A diferença não está no que fazemos nem nos resultados que obtemos, mas sim na forma como os obtemos.