NOVO ESTUDO ESTIPULA QUE TÉCNICAS BASEADAS NO “CÃO ALFA” CAUSAM MAUS DANO DO QUE AJUDAM




POR SOPHIA YIN Março 9, 2009

“ Os clientes, um casal reformado, tinham um Rodesian Ridgeback de 6 anos macho esterilizado que era agressivo com outros cães” descreve a Dr. Jennie Jamtgaard, uma especialista em comportamento animal e instrutora no Colégio de Medicina Veterinária da Universidade de Colorado. “Eles tinham visto o Encantador de Cães com o Cesar Millan e visto o Millan a colocar cães agressivos com o seu grupo de cães e segurá-los no chão se estes mostrassem agressão. Então eles trouxeram o cão deles para o parque e basicamente inundaram o cão (emergiram-no na situação que induzia agressão)”.

Não surpreendentemente, não chegaram muito longe. “A dona estava a tentar fazer com que o cão ficasse deitada enquanto ela pisava a trela, enquanto outros cães vinham e cheiravam-no. O seu cão rosnava e os outros cães rosnavam de volta, e o cão dela (que pesava provavelmente tanto como a dona) começou a atirar-se aos outros e ela não conseguiu segurá-lo. Então ela foi mordida, enquanto tentava separar uma luta que ela mesma tinha provocado. Ela nunca teria conseguido fazer um alpha roll mesmo que quisesse, embora ela tenha lamentado a sua falta de capacidade para ser o líder da matilha”.

Neste caso a mordida foi um acidente. Mas nem sempre é assim.

Jamtgaard descreve outro caso, de um cruzado de Pastor Australiano com agressão severa (atirar-se, rosnar e ladrar) direccionada a outros cães sempre que os via, nem que fosse a vários metros de distância:

“ O cão era ótpimo com pessoas, e nunca tinha sido agressivo com pessoas antes desta mordida. Os donos assistiam a todos os episódios de Millan e lidavam com o seu cão de uma forma completamente baseada em punições. Eles pensavam que era isto que eles eram suposto fazer, mas sentiam-se desconfortáveis e frustrados. Eles tentavam repetidamente submeter o seu cão fisicamente sempre que ele era agressivo, uma técnica que eles empregavam já há meses. Eles admitiram que as coisas não estavam a melhorar, mas não tinham ideia do que fazer. Finalmente, numa loja de animais, o cão rosnou e lançou-se e quando a dona – grávida de 5 meses na altura – tentou forçar o cão a um alpha roll, foi mordida no braço. A mordida deixou marcas da profundidade dos dentes. Foi aí que eles me chamaram”.

ACIDENTES COM MORDIDAS NÃO SÃO SURPRESA

Infelizmente, estes incidentes com mordidas não são supreendentes. De acordo com um estudo veterinário publicado no Jornal de Comportamento Aplicado Animal (2009) se você fôr agressivo, o seu cão será agressivo também.


Meghan Herron, DVM, autora do estudo diz, “Por toda a nação, a razão principal pela qual as pessoas levam os seu cães a um veterinário comportamentalistas é para tratamento de comportamentos agressivos. O nosso estudo demonstra que muitos métodos confrontacionais, quer sejam olhar fixamente para os cães, bater neles ou intimidá-los através de manipulação física, fazem muito pouco no sentido de corrigir comportamentos inadequados e podem de facto desencadear respostas agressivas”.


Na realidade, o uso de tais técnicas de treino confrontacionais podem provocar medo no cão e levar a uma agressão defensiva direccionada à pessoa que adminstra a acção aversiva”.
Para o estudo, Herron, Frances S. Shofer e Ilana R. Reisner, veterinários do Departamento de Estudos Clínicos da escola de veterinária na Universidade da Pensilvania, produziram um questionário com 30 questões a donos de cães que usaram os serviços de comportamentalistas na veterinária de Pensilvania. No questionário, os donos dos cães eram perguntados como é que tinham previamente lidado com os comportamentos agressivos, se existira um efeito positivo, negativo ou neutro no comportamento do cão e se as respostas agressivas resultavam dos métodos que eles haviam usado. Os donos também foram questionados onde haviam aprendido as técnicas que tinham aplicado. 140 questionários foram efectuados.

ALGUMAS TÉCNICAS DESENCADEIAM AGRESSÃO

A maior frequência de comportamentos agressivos, ocorreram em repostas a intervenções aversivas (ou punitivas), mesmo quando esta intervenção era indirecta:


• Bater ou dar pontapés no cão (41% dos donos reportaram agressão)
• Rosnar ao cão (41%)
• Forçar um cão a dar algo que tem na boca (38%)
• Alpha Roll (forçar o cão a ficar deitado e mantê-lo deitado) (31%)
• Deita dominante (forçar o cão a ficar deitado de lado) (29%)
• Agarrar o cachaço ou focinho (26%)
• Fixar o olhar no cão (olhar fixamente parao cão até que este olhe para o outro lado) (30%)
• Esguichar o cão com água (20%)
• Gritar “Não” (15%)
• Exposição forçada (forçar um cão a enfrentar o estímulo que assusta o cão – chão, barulhos ou pessoas) (12%)

Em contraste, métodos não aversivos resultaram numa muito menor frequência nas respostas agressivas:

• Treinar o cão a sentar sempre que quer alguma coisa (apenas 2% reportaram agressão)
• Recompensar o cão por manter contacto visual (2%)
• Trocar um item que tem na boca por um pedaço de comida, na vez de forçar a dar (6%)
• Recompensar o cão por olhar para o dono (0%)

QUEM USA TÉCNICAS BASEADAS EM PUNIÇÕES?

“Este estudo sublinha o risco de técnicas de treino baseadas na dominância, que foram tornados populares por programas de televisão, livros e advocadas por outras fontes de treino canino”, diz Herron.


Por exemplo, o Encantador de Cães com Cesar Millan - o famoso programa da National Geographic – rotinamente demonstra “alpha rolls”, “deitas dominantes”,e exposição forçada e mostra Millan a prender cães e administrar correções físicas de forma a retirar posessões valiosas dos mesmos.

Tal como os seus antecessores, o livro “Divine Canine” dos Monges de New Skete focam-se em corrigir comportamentos “maus” usando estranguladoras e coleiras de bicos na vez usar técnicas provadamente eficazes e não aversivas.

Estas fontes atribuem comportamentos indesejados ou agressivos nos cães à vontade do cão de ganhar status social ou a uma falta de dominância por parte do dono. Aqueles que apoiam estas técnicas sugerem portanto que os donos estabeleçam o papel de alpha ou líder.

Mas a veterinária comportamentalistas e a Sociedade Veterinária Americana de Comportamento Animal (AVSAB), através da sua posição no artigo “O uso da teoria da dominância na modificação comportamental animal” – atribui comportamentos indesejáveis ao reforço de comportamentos indesejados e à falta de consistência no reforço dos comportamentos desejados.

Herron afirma ainda, “Estudos acerca de agressão canina na última decada mostram que a agressão canina e outros problemas comportamentais não são o resultado de um comportamento dominante ou da falta de “status alpha” dos donos, mas sim do resultado de medo (auto-defesa) ou problemas intrínsecos de ansiedade. Técnicas aversivas podem desencadear respostas agressivas nos cães porque podem aumentar esse medo e excitação no cão, especialmente naqueles que já estão na defensiva”.

OS DONOS MUITAS VEZES NÃO PERCEBEM A LIGAÇÃO

Herron aponta que, curiosamente, nem todos os donos que reportaram uma resposta agressiva relacionada com técnicas aversivas, sentiram que a o método teve um efeito negativo no comportamento do cão. Por exemplo, enquanto que 43% dos donos que batiam ou deram pontapés no cão reportaram agressão direccionada a eles como resultado dessa técnica, apenas 35% dos donos sentiram que a mesma teve um efeito negativo.


Herron explica que um motivo pelo qual os donos tiveram dificuldade em fazer a ligação é que as técnicas aversivas podem temporariamente inibir comportamentos reactivos ou indesejados – parecendo então que o comportamento melhorou – embora não seja um efeito a longo prazo. Em adição, donos podem não reconhecer respostas medrosas não agressivas como reacções às correções e podem sentir que a técnica foi de facto eficaz naquele contexto. No entanto, aumentar o medo do cão, pode também aumentar a agressão defensiva na mesma e noutras situações.

QUE MÉTODOS PODEM ENTÃO SER USADOS?

Estes resultados salientam a importancia de usar métodos de treino positivos e outros métodos não aversivos quando se trabalha com cães, especialmente com aqueles que detêm já uma história de agressão. Na realidade, métodos não aversivos, que se focam em recompensar comportamentos desejados e mudar estados emocionais do cão, funcionam muito bem em cães agressivos.


Mas então e o que aconteceu ao Pastor Australiano e ao Rhodesian Ridgeback de que falamos no início?

Diz Jamtgaard acerca dos seus casos: “O pastor australiano melhorou dramaticamente na nossa consulta, estando calmo durant situações cujos donos nunca tinham assistido antes, tais como os cães dos vizinhos a ladrarem a apenas alguns metros de distância. Eu penso que ver o que se consegue com apenas alguns minutos de trabalho usando uma técnica diferente, deu-lhes esperança.

No espaço de 4-6 semanas, eles começaram a levar o seu cão em passeios normais, com cães a passarem a distâncias “normais”. Eu continuei a seguir o desenvolvimento por telefone com os donos quase diariamente no início e depois semanalmente durante 3 meses. Eles sentiam-se tão bem que tratavam o cão de forma diferente (com mais paciência e carinho). O dono agora compete com o seu cão em competições de puxar pesos e pode estar em contacto directo com outros cães mesmo durante as competições e na rua, enquanto que antes, o cão era reactivo a vários metros de distância”.

Este comportamento calmo continuou muito depois dos primeiro meses de treino, diz Jamtgaard,


“Eu vi a dona dois anos depois do tratamento, com um filho, e ela disse-me que tudo continuava bem”.

“O casal de reformados com o Rhodesian Ridgeback também atingiram os seus objectivos em cerca de 6-8 semanas”, diz Jamtgaard. “Eles foram capazes de caminhar o seu cão com segurança e mantê-lo calmo e controlado quando encontrava outros cães. O cão sentava-se enquanto eles falavam com donos de outros cães. Eles levam-no num Gentle Leader, mas isso ajuda com a questão da segurança relativamente ao seu peso. Aproximadamente 6 meses após o tratamento, tudo continuava bem com o cão”.

Comentários

Doglover disse…
Muito bom artigo, é com estes artigos que acabamos com os mitos e ideias pré-concebidas, contra factos e evidências não há argumentos. Atrevo-me a desafiar os amantes do treino tradicional a provar o contrário ... se forem capazes!
Carol E. disse…
Ótimo artigo Claudia! É muita verdade que agressão só gera agressão, pena é que poucas pessoas conseguem conceber maneiras positivas de se ensinar o treino correto. Eu, como exemplo, tenho que trabalhar a doidado a agressividade do meu cão porque usei e abusei de Alfa rolling pra tentar corrigir a agressividade dele. Foi um fiasco como deve imaginar. Mas graças a deus, estamos dando a volta por cima com métodos positivos :)

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