terça-feira, 27 de setembro de 2016

Estranguladoras ou Enforcadoras de bicos, são eficazes?

A eficácia de um determinado instrumento de treino, nunca deveria ser o motivo pelo qual o usamos. Tentar chegar a um objectivo, sem olhar a meios é não só eticamente errado na aplicação desses meios em seres sencientes, como absolutamente desnecessário.

A pergunta, portanto, está errada, mas vamos responder. Sim, estranguladoras e ou enforcadoras de bicos, resultam e isto é um facto científico. Isto, claro, se forem bem usadas. Ao contrário, do que muitos pensam, estas coleiras, para serem bem usadas significa que se devem tornar aversivas.

Mas o que é um aversivo? Um aversivo é um evento ou estímulo que causa medo, desconforto ou dor de forma a que o animal o queira evitar.



Assim para que estas coleiras resultem, é imperativo que as coleiras e o seu uso seja aversivo, ou então, não funcionam e tornam-se inócuas. Precisamente o oposto daquilo anunciado por muitos, que anunciam que o uso destas coleiras, “se bem feito não dói”, elas têm que causar dano ou dor para funcionarem e isto é um facto científico.

Analisemos um exemplo prático. Estas coleiras são usadas, infelizmente, para muitos propósitos, mas o mais visto é para impedirem que os cães puxem quando andam de trela. Assim que o cão puxa, os tutores são aconselhados a darem um esticão na trela de forma a “dizer ao cão que não deve puxar”.
Muitos treinadores, vendedores de lojas, vizinhos, conhecidos, artigos de internet etc. afirmam que as coleiras simplesmente “chamam a atenção” do cão e que não doem.  Existem muitas falhas nessa afirmação, se o cão não sentir dor ou desconforto, ele continuará a puxar, porquê parar?

O cão puxa e no momento em que puxa sente uma dor que pára no momento em que ele alivia a marcha. Ao fim de algumas repetições o cão começa a perceber que para evitar sentir a dor, basta caminhar mais devagar e evitar chegar ao fim da trela. O uso destas coleiras trazem outras complicações, cientificamente provadas entre estas: medo, comportamentos agressivos, comportamentos obsessivo compulsivos, deterioramento do relacionamento com a pessoa, fobia ambiental, etc..

Podem existir pessoas que não se importem de causar dano ou dor aos seus cães para atingir resultados, a escolha é de cada um, mas será importante que entendam que existem outras formas que não causam nem dano, nem dor, e que atingem o mesmíssimo objectivo, para além de evitarem os danos colaterais descritos acima.

Portanto a pergunta certa é sem dúvida, coleiras estranguladoras ou enforcadoras de bicos são necessárias? A resposta é simples. Não.

Qualquer treinador que sabe como aprendem os cães e que tenha experiencia no uso de reforço positivo, saberá ensinar com facilidade o seu cão a não puxar na trela e andar bem de trela, sem nunca magoa-lo, causar-lhe dano e também sem nunca ter que usar aversão.

Para tal basta que criemos o comportamento desejado no cão – que ele ande sem puxar – e que tornemos esse comportamento o preferencial e mais comum e habitual. Não é difícil, é até muito mais fácil do que o oposto, que é esperar que o cão puxe e ter que administrar esticões que sejam suficientemente dolorosos para que o cão pare. A escolha está, portanto, entre causar ou não dano físico ou dor ao seu cão.

Métodos aversivos pertencem ao passado, a um passado onde a senciência dos cães era colocada em causa, onde se consideravam os cães como autómatos, e animais pouco sensíveis que respondiam como robots aos estímulos. O uso de métodos aversivos pertence ao passado, e aqueles que não estão actualizados ou que têm dificuldade em mudar.


Não tenha receio em mudar principalmente se a mudança significa uma melhoria na vida do seu cão e na sua vida também. Aprenda com métodos que vê o treino como algo que se faz com o cão e nunca AO cão.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Os cães não sentem culpa

antropomorfizarão é o fenómeno que nos leva a ver “culpa” no comportamento dos nossos cães. Esta perspectiva é extremamente prejudicial para um bom entendimento daquilo que os nossos cães nos tentam comunicar, e da interpretação que fazemos desses sinais comunicativos.
Um exemplo ocorre quando adquirimos um cachorro pela primeira vez. Por norma, a maioria das pessoas vai buscar o cão ao fim-de-semana para ter tempo para dedicar ao novo companheiro. Passados os primeiros dias de atenção constante, o cão é deixado em casa por um período entre 7 e 9 horas sozinho. Isto pode é difícil para o cachorro, que não entende porque é que está só. Durante esse tempo, ele vai tentar encontrar algo com que se distrair, e, normalmente, acaba por descobrir o ambiente que o rodeia através da boca e dos dentes, roendo e explorando. Durante o dia, também terá necessidade de ir à casa de banho, e escolhe sempre os locais que mais se assemelham a uma casa de banho para eliminar, como os tapetes.
Quando o tutor finalmente chega a casa, o cachorro corre para a porta, feliz por reaver a sua família. O tutor, por sua vez, da porta de casa, observa o espetáculo medonho que o espera – de tapetes com xixi, fezes por todo o lado, móveis roídos, etc. Imediatamente, começam os castigos e reprimendas. Desde fechar o cachorro sozinho (após já ter passado 9 horas sozinho), a dar uma palmada, ou agarrar no cachaço, a gritar, etc. No dia seguinte o mesmo repete-se. O cão é deixado só, volta a ter os mesmos comportamentos e o tutor volta a chegar a casa e a punir o cão pelo seu “mau comportamento”. Ao terceiro dia deste ciclo, quando o tutor chega a casa, a primeira coisa que vê é o cão cabisbaixo. Muitos escondem-se debaixo de mesas ou sofás, outros oferecem a barriga ao dono, outros urinam. Estes comportamentos são imediatamente interpretados como culpabilidade na antecipação das asneiras que os tutores podem encontrar.
É nesta altura que os tutores afirmam que o cão sabe que fez mal. Ele tem que saber, senão porque é que viria com aquele ar de culpa, quando entro em casa? Porque é que se esconde debaixo da mesa, mesmo quando não fez nada?
O que o seu cão está a fazer, é oferecer sinais de apaziguamento, ou seja, o seu cão aprendeu que, quando você entra por aquela porta, existe uma enorme probabilidade de ele ser castigado.
Os sinais de apaziguamento englobam comportamentos como: urinar, virar a barriga para o ar, lamber os lábios, caminhar com o corpo rente ao chão, virar a cabeça, baixar a cabeça, esconder-se, colocar o rabo entre as pernas, etc. e são sinais que os cães enviam para comunicar calma e evitar confrontos. Não significam, de modo nenhum, que ele sabe que fez mal, porque aliás ele não fez nada mal, ele apenas se comportou como um cão. Ele não faz ideia do que fez mal, se soubesse, bastaria um castigo, para o cão aprender a não repetir a façanha, de forma a evitar novos castigos no futuro. Tudo o que você faz ao seu cachorro, se o castigar por algo que ele fez há algumas horas atrás, é ensiná-lo que você é imprevisível, e associar a punição à sua chegada.

Da próxima vez que você levantar o tom de voz ao seu cão, e ele se desfizer no que lhe parecem desculpas, pense bem que ele apenas está, ao jeito canino, a tentar evitar confrontos. Poupe o seu companheiro destas situações, que em nada beneficiam a vossa convivência. Foque-se em ensinar ao seu cão o que ele pode fazer. Restrinja os locais a que ele tem acesso em casa, quando está só, retire os tapetes do chão, e outro tipo de objectos, que possam ser alvo dos dentes do seu cachorro. Deixe vários brinquedos recheados de ração para ele se ocupar e poder roer saudavelmente. Prepare tudo para que o seu cachorro tenha excelentes oportunidades de fazer aquilo que você quer. Acima de tudo, chegue a casa e ofereça muitos mimos e carinhos ao seu cão. Ele passou um dia inteiro à sua espera, e o que mais quer é estar consigo e partilhar consigo a alegria de o ver.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

São só 2 minutos!

O carinho e a vontade de estar com os nossos patudos é sem dúvida cada vez maior. Num mundo que nos obriga a deixar o cão em casa durante horas a fio enquanto trabalhamos e nos dedicamos à rotina diária da vida, são os momentos de lazer que nos restam em casa para podermos deleitar-nos e apreciarmos a companhia destes animais tão especiais.

Quem tem amigos de 4 patas sofre com a distância e falta de tempo para lhes dedicar e tenta colmatar isso nos tempos livres. Grandes passeios na praia no Inverno, grandes caminhadas na serra, ir à esplanada apanhar sol, relaxar e ver o mar, só se o patudo for connosco!

O mundo dos tutores dos cães muda à medida que melhoramos através do treino e educação a forma como lidamos com eles e eles cada mais adaptam-se melhor à nossa forma de estar e viver e às nossas sociedades com todas as regras rígidas e inóspitas que desenhamos para eles.

Está a resultar. Cada vez vejo mais cães serem passeados pelos seus tutores, cada vez se vê mais tutores a brincarem com eles, a apreciarem o tempo juntos a aprenderem a ter o cão como verdadeiro companheiro que é, e não apenas uma coisa que está ali.

O que me leva a escrever este texto prende-se, no entanto, com um fenómeno que felizmente para mim não vejo com frequência, visto morar num local rural, mas vi muitas vezes em grandes cidades, que é ver cães atados a um poste à porta de um local qualquer (banco, mercearia, farmácia, etc…).

Perigos invisíveis

Sempre que eu vejo um cão nessa situação eu estremeço.

Aí está uma situação que eu nunca vou entender, e que justificada pelo facto da pessoa querer levar o cão a todo o lado, esbarra com uma realidade franca no nosso país, é que não pode.

Não podemos levar nos nossos cães a todo o lado, porque é proibido entrar com eles na grande maioria dos espaços. Esta é, ainda, a nossa realidade e mudando (e acredito que isso acontecerá) irá mudar muito lentamente, correspondente com a mudança de mentalidades em relação ao que significa sermos tutores responsáveis.

Até podermos entrar com os nossos cães em todos os locais, a alternativa de deixar o cão atado a um poste ou qualquer outro local, é inaceitável aos meus olhos e felizmente sou acompanhada pela esmagadora maioria de profissionais qualificados quando dizemos “não faça isso”.

Os riscos aos deixar o seu amigo patudo sem supervisão activa nem que seja por 2 mnts suplantam grandemente qualquer benefício que possa advir de o ter trazido consigo.

Muitas coisas podem acontecer em segundos, quanto mais em alguns minutos. Ao deixarmos um cão sozinho sem supervisão em plena via pública estamos a jogar com a sorte e não estamos a tomar uma decisão informada sobre o que é melhor para o cão.

Muitas coisas podem acontecer quando o seu cão fica preso num local na rua sem supervisão, seja responsável e não pense que consigo ou com o seu cão nunca vai acontecer. Pensar que só acontece aos outros é perigoso, todas as situações faladas abaixo já aconteceram a cães deixados nessas situações.

  •              Alguém pode roubar o seu cão (fácil de fazer e nada fora do comum)
  •       Alguém pode provocar indevidamente o seu cão que estando preso pode assustar-se e não ter escolha mas morder ou defender-se (isto pode acontecer até com cães que nunca tiveram nenhum tipo de episódio com estranhos ou pessoas)
  •        Crianças podem correr e agarrar o cão assustando-o e podendo causar um acidente
  •      Os cães podem assustar-se com algum estímulo exterior, como um som ou algo e tentar fugir (conseguindo) ou magoar-se no processo ou magoar alguém que se aproxime
  •        Pode conseguir escapar-se e fugir
  •        Pode vir um cão solto ter com o seu que está amarrado e criar um problema sério
  •    Alguma pessoa pode vir com a melhor das intenções e tocar no cão que se pode sentir incomodado e reagir
  •       Alguém pode magoar o seu cão


Existem muitos cenários que podem acontecer e aqui não estão todos, e se considera que para tal precisaria do cão estar sem supervisão muito tempo engana-se. Qualquer uma destas situações pode ocorrer em muito menos de 2 mnts. Mesmo que você esteja dentro da loja o tempo todo a olhar para o seu cão (algo que não vai acontecer, porque em alguma altura você terá que virar a cara e atenção para outro local) à distância você não conseguiria evitar o incidente. Todos estes cenários podem acontecer em questão de segundos.

Mas o meu cão é amigável

É óptimo quando um cão é sociável e bem-disposto, quando adora estranhos e receber carinhos dos mesmos, no entanto, quando colocamos um cão preso a um local e sozinho não é realista pensarmos que podemos com toda a certeza antecipar o comportamento do mesmo. Um cão preso não tem possibilidade de fugir caso se sinta ameaçado, com medo ou assustado. Segundo o comportamento biológico dos animais, cães incluídos, estes quando se sentem ameaçados, fazem uma de duas coisas, ou fogem ou atacam. Se a estratégia de fugir lhes for impossibilitada ou ineficaz, atacar é sempre a estratégia seguinte.

Neste caso quando atamos um cão a um local, este está imediatamente impossibilitado de fugir, caso aconteça algo que o assuste, o intimide ou o coloque em perigo ele vai atacar para se defender. Por mais que controlemos o comportamento do cão, nunca podemos controlar o ambiente ao seu redor, e é este que verdadeiramente dita como o animal se comporta. O facto de o cão estar sozinho, deixa a maioria dos mesmos mais ansiosos e predispostos a sentirem-se inseguros. Dito isto, se alguém se aproxima, e faz algo ou tem alguma reacção que o cão interprete como ameaçadora ou que ele considere como perigosa, ele irá defender-se.

E assim temos centenas de histórias de cães presos a portas de algum local, que mordem crianças, adultos ou qualquer outra pessoa que se aproxime ou que simplesmente passe perto dos mesmos. Na maioria destes casos os tutores, juram de pés juntos que o cão é amigável e nunca teve essa reacção antes, mas o que eu vejo é que a pessoa colocou responsabilidade no cão e esperou deste demais.

Se queremos proteger os nossos cães, deixá-los sem supervisão atados a um local por mais rápido que seja e por mais “habituado” que ele esteja não é, nem nunca será sinónimo de um acto consciente e responsável.

Extremismo

Quando me ligam e perguntam quanto custa ensinar o cão a andar na rua sem trela e ficar junto do tutor, a resposta é sempre a mesma. Não fazemos esse serviço. Para além de ilegal, não existe nenhuma vantagem em ter um cão circular na via pública sem trela. A trela existe para segurança do cão especialmente e para que o possamos proteger nas diversas e variadas situações que podem surgir.

Muitas pessoas consideram isto extremismo, mas no fundo é bom senso. Eu não posso obrigar ninguém a andar sempre de trela na via pública com o seu cão (embora a polícia possa) e também não posso impedir ninguém de atar um cão a um poste enquanto vai só ali 2 mnts rapidamente.

Mas o que posso fazer é informar as pessoas dos perigos que este acto incorre e adverti-las de que realmente não faz sentido e que os acidentes acontecem e não é só aos outros. Para quê correr o risco? Certamente que a última coisa que queremos é ver os nossos cães magoados, ou termos problemas com outros.

Sendo assim pense cuidadosamente se realmente é no melhor interesse do cão ser atado nem que por escassos minutos a um local sem supervisão.

Se quer sair com o seu cão, saia. Passear é saudável, divertido e extremamente necessário para todos os cães. Mas se precisa de ir a um local onde o cão não pode entrar tem duas opções, ou vai depois ou vai alguém consigo que possa esperar com o seu cão.

Usar a desculpa de que o cão não vai sair de casa tanto porque você vai deixar de o levar consigo quando for fazer uma determinada tarefa à rua, é apenas isso, uma desculpa. Vá fazer tudo o que tem a fazer e depois leve o cão a passear. Os dois não se complementam, nem se anulam, fazer um ou outro porquê?

Os casos não falados

Pessoalmente tenho um grande problema com este tipo de situações, precisamente por ter assistido em Inglaterra a uma criança ser mordida na porta de um 7/11 (seven eleven), ou seja, uma loja de conveniência.

O cão estava atado ao corrimão de entrada, deitado no chão. A minha colega entrou na loja e eu fiquei de fora na parte de baixo da loja. Eu observei o cão e senti-me desconfortável com a situação. Quem me conhece sabe que adoro fazer carinhos aos cães, e faço sempre uma festa quando vejo um, mas quando estão assim atados e presos sozinhos nem me passa pela cabeça aproximar. Felizmente todas as pessoas que iam entrando na loja e que passavam bem perto dele, não interagiram com o cão. No entanto tudo mudou quando um senhor de bengala sobe a rampa e se vira para entrar na loja. Quando já de costas para o cão, este num ápice levanta-se e agarra a beira das calças do senhor. Este virou-se para trás assustado e imediatamente levantou a bengala e acertou no cão. Eu gritei e fui para perto deles, entretanto o tutor do cão saiu pegou no cão e fugiu rapidamente, insultando o senhor. O cão estava assustadíssimo, o senhor igualmente e resmungava que tinha medo de cães e que nem se podia entrar numa loja em paz.

Eu fiquei muito perturbada com tudo aquilo, a única coisa que pensei foi tudo poderia ter sido muito pior mas mais ainda, como seria fácil evitar tudo aquilo. O cão certamente ficou traumatizado com a situação, a reacção do senhor exagerada e agressiva não pode ser punida. O único responsável por este cenário foi de facto o tutor. Para quê correr este risco. Tudo pode correr mal, tantas coisas podem acontecer que realmente me parece que quem ata cães a postes não pensa em tudo o que pode acontecer.

A realidade

Em baixo deixo alguns links dentro das centenas que podem encontrar de cães que sofreram tragédias nesta situação específica. Vamos ser responsáveis pelos nossos cães, afinal de contas eles precisam de nós para se safarem neste mundo tão dos homens e das suas acções.


http://www.cambridge-news.co.uk/Cambridge-dog-attack-dramatic-scenes-outside/story-26053514-detail/story.html - Cão preso à porta de uma loja é violentamente atacado por dois cães soltos

http://www.plymouthherald.co.uk/dog-mauled-daughter-s-face-says-Plymouth-mum/story-24434603-detail/story.html - Criança sofre danos severos quando atacado por cão preso à porta de uma loja

Informar é ajudar

Espero que com este artigo, reconsiderem, pensem bem em tudo o que implica deixar o vosso cão sem supervisão em plena via pública e evitem acidentes catastróficos, graves e perigosos. Pensem que as pessoas na via pública não são responsáveis pelo que podem e não podem fazer com um cão que está ali. Na verdade todas as pessoas imediatamente assumem que se alguém deixa o seu cão preso a um local sem supervisão é porque este deve ser amigável.


quarta-feira, 20 de julho de 2016

5 mitos do cão "agressivo"

Comportamentos agressivos fazem parte do portefólio de comportamentos dos cães e são comportamentos completamente normais e naturais para a espécie. Este artigo pretende abordar 5 mitos que rodeiam a apresentação de comportamentos agressivos por parte dos cães

“O meu cão é agressivo” 

“Agressividade” não é uma característica da personalidade. O seu cão não é agressivo, ele apresenta, consoantes determinados estímulos, comportamentos considerados agressivos. Estes comportamentos são demonstrados em certas situações e noutras não. O seu cão pode demonstrar comportamentos agressivos direcionados a cães, mas ser muito sociável com pessoas. Todas estas variantes deveriam ser suficientes para entendermos que comportamentos agressivos não fazem parte da personalidade de um cão. Ele não nasceu assim, ele começou a demonstrar comportamentos agressivos simplesmente porque a sua experiência e aprendizagem de alguma forma o levou a apresentar esses comportamentos em determinados contextos.

“O meu cão é mau” 

Maldade e bondade são conceitos humanos que implicam uma moralidade que, inclusive na nossa espécie varia. A subjetividade do conceito está longe do mundo dos cães. A exibição de comportamentos agressivos servem uma determinada função, isto é, eles existem com o intuito de servir um objectivo específico muitas vezes relacionado com defesa ou afastamento de um determinado estímulo que assusta o cão ou do qual ele pretende manter uma certa distância. Como tal, o cão que exibe comportamentos agressivos não é, nem nunca irá ser um cão mau.

“O meu cão é dominante porque é agressivo” 

Dominância é uma meme, isto é, uma ideia que passa de pessoa para pessoa ao longo do tempo mas que não tem relação nenhuma com a ciência. O conceito do cão dominante é um completamente ultrapassado. Muitas pessoas associam a exibição de comportamentos agressivos com a ideia de dominância. Como já dissemos antes em relação à agressão, esta é entendida como um conjunto de comportamentos e não uma característica da personalidade, como tal nunca poderíamos afirmar que o cão é agressivo e consequentemente dominante. Dominância, etologicamente falando também não é uma característica da personalidade, mas sim uma forma de descrever o relacionamento entre dois ou mais indivíduos da mesma espécie.

“A agressividade do meu cão é genética” 

Os cães não nascem com nenhum gene de agressividade. Características genéticas, determinam coisas como cor do pelo, tamanho, orelhas, cauda e algumas outras características morfológicas. A genética também pode tornar com que alguns comportamentos estejam mais predispostos a serem apresentados do que outros. Mas é apenas uma predisposição que depende dessas variantes e estas últimas estão em ultimo caso dependentes da aprendizagem e experiência à qual o cão é exposto durante a sua vida. Quando colocamos a genética como única responsável pela apresentação de comportamentos agressivos, estamos a dizer que não existe nada a fazer. Em último caso, sabemos que a modificação de comportamentos agressivos é, não só possível, como aconselhada.

“O meu cão é agressivo como tal tem um problema comportamental” 

Nem sempre a exibição de comportamentos agressivos se prende unicamente com factores comportamentais. Muitas pessoas não estão cientes de que existem inúmeros problemas médicos que podem estar na origem da exibição de comportamentos agressivos. Doenças como epilepsia, problemas na tiroide, problemas neurológicos ou hipotiroidismo são algumas das doenças que têm como sintomas a exibição de comportamentos agressivos. Fazer exames médicos completos e muitos minuciosos quando um cão começa a apresentar comportamentos agressivos é uma das mais importantes acções a tomar para evitar que estejamos a tratar algo que não foi devidamente identificado.


Aqui ficam alguns dos mitos mais comuns ao desmistificar estes espero que as pessoas entendam melhor os seus cães e os seus comportamentos e consigam dessa forma ajudá-los de forma mais eficaz. 


quinta-feira, 30 de junho de 2016

NÃO QUEIRA UM CÃO DE GUARDA Por Claudia Estanislau

As pessoas adquirem uma certa raça ou um certo cão porque acreditam que eles serão bons “cães de guarda” ou porque querem um “cão de guarda”.

Mas o que é afinal um cão de guarda?

Ao longo dos anos tenho ouvido as perspetivas de diferentes pessoas acerca do que acreditam ser um cão de guarda. Algumas descrevem o cão de guarda, como um que vai atacar os ladrões ou pessoas que queiram fazer mal à família humana. Outros esperam que o cão adquira um sentido humano de moralidade e valorize objectos e que saiba protege-los. Outros descrevem um cão de guarda como um cão “mau” para todos os que se aproximem, menos as pessoas que são da família.

Um cão de guarda é, em geral, muitas vezes entendido como um cão que sabe a quem e quando demonstrar comportamentos agressivos – enquanto sabe também ser o cão mais sociável e amigável com todas as outras pessoas.

Aquilo que chamo cães de alerta, são a grande maioria dos cães que temos connosco. A maioria dos cães, ladram quando ouvem um barulho fora do normal dentro ou perto da propriedade. A maioria dos cães alerta, ladrando para algum movimento ou som fora do normal.

Tendo em conta estas duas distinções, garanto que a maioria dos cães (salvo raras exceções) são ótimos a alertar para algo suspeito que aconteça perto da sua casa. O problema está quando o humano pensa na questão da guarda, e essa sim precisa ser esquecida, porque tem implicações perigosas e muitas vezes irresponsáveis.

Objectificação dos cães

Os cães não são objectos que devem ser usados para nossa proteção. Eles são, tal como nós, animais sencientes, que se assustam, sentem medo e insegurança. Muitas vezes, os comportamentos agressivos veem exactamente desses sentimentos de insegurança, e acredito que ninguém queira o seu cão num pátio escuro à noite petrificado de medo a ladrar para todos os sons e movimentos enquanto a isso chamam de um “bom cão de guarda”.

É importante também reconhecermos que vivemos numa sociedade humana que tem pouca ou nenhuma tolerância para o comportamento agressivo de outras espécies, direcionado a pessoas. Na nossa sociedade é perfeitamente “normal” matarmos um animal que demonstre qualquer tipo de comportamento agressivo direcionado a pessoas, mesmo que seja em autodefesa. Portanto, quando adquirimos um cão com o intuito de que o mesmo possa algum dia causar dano a outra pessoa, estamos a brincar com a vida do cão.



Eu protejo os cães pois sou responsável por eles. Os tutores de cães devem estar ali maioritariamente para proteger os seus cães e não o contrário.



Os meus cães nunca ficam fora de casa quando saio. Se eu saio de casa, os meus cães ou cães que estejam comigo são colocados dentro de casa. Dessa forma eu evito que alguém os roube, envenene ou magoe.

Se eles estiverem dentro de casa, sei que estão não só mais seguros como mais confortáveis e sei também que se alguém se aproximar da casa, eles vão ladrar e que a pessoa vai conseguir ouvi-los. É muito mais difícil causar dano, envenenar ou deter um cão que está fechado dentro de casa. Como tal a sua casa e o seu cão, ficam muito mais seguros se o seu cão estiver dentro e não num jardim, preso num canil ou preso numa corrente (cães presos a correntes não protegem absolutamente nada para além de ser uma prática criminosa e abusiva).

Eu sempre aconselho as pessoas que questionam acerca de qual o melhor cão de guarda, a adquirirem a raça alarme. Os alarmes são, sem sombra de dúvida, os melhores detentores de ladrões ou pessoas com más intenções. Um cão, por outro lado, é um amigo, um companheiro, parte da família, um animal com sentimentos, e não deve ser usado como um objeto, como um alarme ou uma pistola.

Infelizmente a história fala de cães que foram usados durante séculos como cães de guarda, claro que falamos de centenas de anos atrás, quando quase todos os cães tinham uma tarefa dentro da nossa sociedade e onde o companheirismo era raro.
A “guarda” de que tantos falam, era muitas vezes ligada à guarda de animais que eram transportados para as feiras, por exemplo, guarda de gado, de ovelhas, de animais que eram a subsistência da família. Este historial infelizmente, ainda é extrapolado para o presente, apesar de nada do passado ter referência hoje em dia, nem o que fazemos, nem o papel que os cães desempenham na nossa vida. Muitos treinadores e criadores tentam vender aos tutores a ideia bizarra de que certas raças serão óptimas para proteger os seus filhos e propriedade e isso deveria ser proibido num país onde existem leis que têm como intuito evitar acidentes de mordidas entre cães e pessoas. É um contrassenso e uma boa e gorda mentira.

Hoje em dia, os cães dormem perto de nós, passeiam connosco, brincam com os nossos filhos, adormecem no sofá connosco e acompanham-nos nos passeios em dias de sol. Hoje em dia os cães são vistos como amigos e companheiros e não como animais com um propósito único de guardar gado, ou neste caso no nosso Porsche, por exemplo.

Portanto, a ideia de que certas raças de cães darão bons cães de guarda, não é verdade. Nenhum cão nasce com sentido de moralidade e mesmo que o fizesse essa moralidade não era certamente igual à humana.

Os cães não vão conseguir distinguir um amigo de um inimigo nos mesmos termos do seu tutor, eles irão fazê-lo nos seus termos, o que quer dizer que se você não sociabilizar o seu cão e educa-lo e optar por treiná-lo com métodos aversivos, conseguirá criar um cão medroso e inseguro que rapidamente aprenderá a usar comportamentos agressivos para afastar as pessoas das quais tem tanto receio e a isso muitas pessoas chamam guarda. Na lei isso denomina-se um cão perigoso.

Claro, já todos ouvimos e lemos histórias de cães que apanharam ladrões, morderam pessoas mal-intencionadas que invadiram uma propriedade, protegeram os seus tutores durante um passeio. Não há muito tempo ouvi uma história de um gato que atacou um ladrão que entrou na casa dos tutores enquanto estes dormiam e conseguiu que ele fosse apanhado e preso.

A parte romântica destas histórias leva-nos a esquecer o facto de que o tal cão atacava qualquer pessoa que se aproximasse do tutor, e apenas calhou que naquele dia era um ladrão, e que o gato não tolerava estranhos dentro de casa, e que qualquer uma destas histórias ao invés de heróicas poderiam ter sido desastrosas se fossem com a criança que vive na casa ao lado, o entregador de pizzas ou qualquer outra pessoa que viesse por bem.

Algumas pessoas podem estar a interrogar-se se não será verosímil entretermos a ideia de que os cães podem de facto compreender de alguma forma quando uma pessoa que lhes é próxima esteja em perigo. Apesar de não existirem estudos, eu sou uma das pessoas que considera essa ideia uma bastante provável de ser verdadeira. No entanto, isto não muda em nada a forma como eu vejo os cães e como vejo que somos nós que devemos protegê-los e não ao contrário.

Se algum dia acontecesse alguma coisa e os meus cães me protegessem eu iria ficar muito agradecida mas não seria algo que eu esperaria e muito menos algo que treinaria para que fosse feito. Eu jamais quereria colocar a vida dos meus cães em perigo.

Cães polícia são muitas vezes usados como exemplo, no entanto, estes não são exemplo para ninguém, a não ser para os polícias e o que fazem lá. Os cães usados pelos polícias, são cães com treino diário e muito específico. Manuseado por uma ou duas pessoas, que vivem uma vida muito específica. Nunca vemos cães polícia a correrem livremente num parque ou a cumprimentar pessoas com a cauda a abanar enquanto passeiam na rua. Cães polícia, são cães que vivem extremamente controlados e que são usados para um propósito específico. A maioria vive em canis e só sai para treinar ou trabalhar. E não policias não fazem bons treinadores do seu cãozinho de companhia!

Existem treinadores que treinam cães de guarda, e a irresponsabilidade de tal acto é quase absurda! 

Num mundo que lança leis de cães potencialmente perigosos e/ou perigosos, com o intuito de proteger a população de mordidas e acidentes com cães, é no mínimo estranho que treinadores que na sua grande maioria usa métodos antiquados e ultrapassados, sejam permitidos a treinar cães a morderem indiscriminadamente e os coloquem nas mãos de tutores comuns que nada entendem de como lidar com cães.

Onde fica a segurança das pessoas nestas alturas?

A maioria dos acidentes dos cães que saem dos portões das propriedades e atacam a primeira pessoa que veem à frente, advêm de cães isolados e treinados para serem cães de guarda. É inadmissível que usemos os cães desta forma apenas para que sejam eles e outras pessoas, vitimas desta cultura egocentrista e ultrapassada.

Vamos portanto, como comunidade, reflectir sobre o tema. Não existe lugar no século XXI para tratarmos cães como objectos que podem ser descartados e usados unicamente para benefício humano e dos seus pertences. Cães merecem mais e melhor, se as ultimas décadas nos deram algo sobre os cães, foi o entendimento do relacionamento estreito e tão unido que temos com estes animais, está na hora de começarmos a honrar este relacionamento.

Claudia Estanislau -IAAD – Its All About Dogs
DTBC, IAABC, LLA, PPG

domingo, 26 de junho de 2016

Quando a mentira incomoda muita gente a verdade incomoda muito mais

Não gostando de perder tempo com estas coisas, e como me foi indicado terei que escrever isto, algo que me custa muito porque é perda de tempo e cusciçe no seu melhor algo que detesto fazer.
Lamento esta lavagem de roupa suja mas por vezes ficar calado é simplesmente impossível e contrapodutivo.
O meu ex-aluno Patrick Rocha, acusou-me copiar os temas dos artigos dele. Colocou esta acusação com os nomes dos artigos escritos por mim e como tal a difamar o meu nome, o que merece resposta directa.
Senhor Patrick o senhor foi meu aluno por mais de 3 anos e quando começou o curso de treinadores, não sabia nada sobre cães nem tinha formação anterior nenhuma. Tudo o que aprendeu começou por aquilo que EU ensinei, que ouviu de mim, que ouviu nas minhas aulas, leu na matéria do meu curso, nos livros aconselhados por mim, traduzidos por mim, nos meu blogs, etc.. etc.. por isso e só isto já deveria ser estranhíssimo dizer que EU estou a roubar seja o que for seu. Eu estou neste negócio há mais de 11 anos o sr. chegou há pouquíssimo tempo!
Em resposta directa às suas acusações em público:
1. O Patrick afirma que escreveu um artigo sobre andar de trela em Janeiro de 2016 e que eu lhe roubei a ideia publicando acerca do mesmo tema em Abril. Pois olhe, só assim sem procurar muito os artigos "O que fazer se vir um cão sem trela vir em direcção ao meu" publicado em 2011, e outro "Extraordinário ou uma insconsciência" publicado em 2013 ambos falam deste tema em extenso. Mais 5 publicações minhas só em 2015 no FB da IAAD falavam sobre este tema e mais não procuro por falta de paciência e tempo.
2. O artigo "O meu cão sabe que fez mal" perdi a conta quantas vezes publiquei sobre este tema no FB e escrevi textos sobre isso e não vou procurar, mas posso dizer-lhe que fui eu que lhe falei disto no curso onde este tema é falado, e um texto foi publicado na Cães e Companhia com o nome "O meu cão sabe que fez mal" em 2011 e publicado nas notas do FB no mesmo ano.
3. "Cães acorrentados" que o sr. diz ter escrito já em 2015? Por favor, eu tenho desde 2009 um blog com o nome "Diário de um cão acorrentado" onde escrevo sobre esse tema unicamente. O artigo foi tirado desse blog (está lá mas já sabe certamente de onde foi você tirar a ideia).
E pronto e agora digo a minha verdade. O sr. tem textos plagiados meu, frases inteiras e parágrafos plagiados da matéria do curso, crime, fique sabendo que nunca falei porque ao contrário de si não me quero aborrecer ou perder tempo a falar de outros como me obriga agora.
Em 2015 tentou roubar-me o orador Steve Mann e quando foi confrontado negou e ainda ficou ofendido (faz sentido!) eu soube disso através do próprio Steve durante a clicker expo que me mostrou a conversa toda e diz ter testado o Patrick para saber se este queria mesmo rouba-lo levando-o ele mesmo ou se era com minha autorização. Para azar dele o Steve foi fiel a quem tinha falado primeiro e achou por bem contar-me. Nessa altura você disse ao Steve que estava disposto a pagar a ida dele a Portugal para falar de outro tema diferente do que ele já tinha preparado comigo.
Este é o verdadeiro motivo pelo qual eu cortei contacto consigo e pelo qual o sr. devia ter vergonha na cara ao invés de se mostrar ofendido e falar de mim nas costas.
Quanto às acusações acima saiba que quem copiou ideias é o sr. e todinhas. Mas sabe que mais, saia da sua caixa de sabão que para sua surpresa nem eu nem o sr. escrevemos nada que ainda não tenha sido escrito por outras pessoas noutra local qualquer. Somos dois grãos de areia pequenos numa praia de treinadores a nível mundial, muitos tão maiores que nós que nem vale a pena.
Seja humilde, seja honesto e pare de ser pequenino. O sr. é uma vergoha para o treino de cães em Portugal e a minha profissão com estas atitudes publicas, você veio aprender tudo comigo, tomou más decisões e agora anda emburrado. Sr. Patrick Rocha, relaxe, desemburre e não se preocupe com o que eu escrevo, você tem 10 anos para andar e eu estarei sempre 10 anos à sua frente. Não tem como escapar.
Agora deixe-me em paz que eu não quero perder mais tempo com pessoas negativas . Eu quero o que sempre quis, fazer o meu trabalho, dedicar-me ao que faço e que pessoas como o sr. esqueçam que eu existo, porque insiste em gastar tempo comigo se me tem tanto desdém? Faça o seu trabalho e dedique-se mais a ele não se ridicularize que lhe fica mal a si e a toda a profissão. Não procure conflitos que isso não faz bem a ninguém. Para o bem de todos, esqueça que eu existo que por mim está optimo.
Espero que seja o fim desta palhaçada que tenho mais que fazer, amanhã parto para Inglaterra para dar uns seminários e em Novembro para o Brasil, local onde o sr. começou a se imiscuir e se eu fosse amarga como você é, imagine o que eu não pensaria.
Beijinho no ombro ‪#‎ficaadica‬ ‪#‎plagioécrime‬

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Cães Acorrentados

Colocando de parte todas as considerações éticas e morais acerca do facto de mantermos um cão atado a uma corrente, o que torna este acto não só detestável como extremamente perigoso é o facto de que a grande maioria dos cães acorrentados desenvolvem comportamentos agressivos ou reactivos.

Cães presos a correntes sabem que estão presos, logo sabem que estão em perigo! Tudo o que os cães presos a correntes veêm que os assusta, é imediatamente confrontado com demonstrações veementes e claras de afastamento, ou sejam comportamentos agressivos.

O cão defende-se, afinal ele está preso não pode fugir e tem que evitar a todo custo que aquilo que ele não conhece, ou que o assusta, se aproxime dele. Se alguém se aproxima de um cão preso e este por qualquer motivo percebe esta aproximação como perigosa para si, ele irá usar comportamentos agressivos como forma de aumentar a distância e afastar o estímulo causador do perigo. A este tipo de comportamento agressivo chamamos de agressividade defensiva.

Outro tipo de agressividade recorrente em cães acorrentados provém da frustração. A frustração de não poderem sair dali e interagir. Á medida que passam os dias, veêm cães a passar, ouvem-nos, cheiram-nos mas nunca se podem aproximar. O mesmo com pessoas, carros, crianças, etc.. Esta frustração leva inadvertidamente ao desenvolvimento de comportamentos agressivos gerados por frustração. Este tipo de comportamento escala a um ritmo enorme com o tempo e generaliza-se a todos os que se tentam aproximar levando a que os únicos comportamentos que os cães sabem exibir a partir de determinado ponto são agressivos e reactivos.

Cães que estão presos a correntes uma vida inteira, são animais que vivem num vazio social e mental. Não se exercitam fisicamente, nem mentalmente, e não detêm contacto social com pessoas e ou membros da própria espécie. Esta inactividade mental e física e este vazio social, leva a que determinados cães (principalmente os mais activos) desenvolvam muitas actividades para se distrairem. Alguns cães desenvolvem comportamentos obsessivo-compulsivos de andar à roda, perseguir a cauda, cavar buracos ou ladra incessantemente, como se o próprio som da sua voz fosse uma distracção para o vazio em que se encontram.

Alguns cães sobrevivem toda uma vida neste estado catatónico. A exploração de um animal nestes termos não só é éticamente reprovável como é produtor de muitos cães que podem vir a representar para a nossa sociedade um perigo gravíssimo. Muitos acidentes de mordidas reportadas pelo mundo fora, advém de cães que viviam presos e por algum motivo se soltaram.

O governo se pretende proteger a sua sociedade e a comunidade do perigo de mordidas deveria começar por proibir que as pessoas mantenham cães atados a correntes. Atar cães a correntes é um acto reprovável a todos os níveis e por nós considerado abusivo.

Outros problema grave é o desenvolvimento do que chamamos estado de learned helplessness, que é um estado que leva a que um animal desista. Estes cães normalmente sucubem, muitos morrem precocemente, entram em depressões graves, ficam doentes com facilidade e por falta de palavras melhores para descrever este estado, simplesmente deixam de lutar pela vida.

domingo, 8 de maio de 2016

Estimulação Mental com a Amanda

Amanda apesar de cega aprende a comer de uma bola de ração. A estimulação mental ajuda o cão a manter o seu bem-estar e ajuda na estimulação da sua mente evitando problemas durante a velhice, como disfunção cognitiva e outros relacionados com o deteriorar do funcionamento do cérebro.


terça-feira, 3 de maio de 2016

O meu cão reage a skates e bicicletas!

O que fazer quando o seu cão reage, ladrando e ou perseguindo objectos em movimento ou que fazem barulho, tais como skates, bicicletas, pessoas a correr, etc?

Estamos a trabalhar isso com o nosso cliente Major, um lindo Weimeraner e com a sua tutora a Beatriz. A Beatriz deixou-nos filmar um pouco do trabalho que temos feito que assenta na premissa de ensinar comportamentos novos. Aqui queremos que quando ele veja o estímulo ele redireccione e olhe para a Beatriz. Ainda temos muito trabalho pela frente, no entanto, estamos certamente no bom caminho.
Vejam o vídeo


domingo, 14 de fevereiro de 2016

CÃES, PRENDAS E ANO NOVO – por Claudia Estanislau

E se de repente na sua meia aparecesse a cabeça de um cachorrinho como prenda? Isso seria amor?

CÃES COMO PRENDAS

Cães não são objectos utilitários que devem ser dados como prenda. O pressuposto da prenda sendo que é uma surpresa, claro está. O problema está mesmo aqui. Um cão sendo um animal senciente que envolve muita responsabilidade em variadas partes da nossa vida (social, financeira, tempo, etc..) não deve ser uma surpresa, porque no final vamos fazer sofrer o cão e potencialmente a pessoa e/ou família a quem o demos.

Eu compreendo o ideal romântico por trás do facto de oferecer um animal fofinho e bebé no natal, mas quando falamos de animais sencientes, como cães e gatos, temos que ser realistas mais do que românticos. A pessoa realmente quer um cão ou gato? Ela pensou cuidadosamente nesta decisão? Ela ponderou todos os factores? Todas as pessoas que irão contactar diariamente com o cão ou gato estão de acordo? Pensaram em todos os cenários que envolve ter um cão, tais como férias, escapadinhas de fim-de-semana e saídas à rua às 22h com uma temperatura de 5 graus e a chover a potes?

Se considera radical a minha visão, visite o canil ou associação de ajuda aos animais mais perto de si e verá que radical é o número de cães que acabam nestes locais pelos mais variados motivos.

Cresceram demais por exemplo é um deles como se o cachorro não tivesse permissão para se tornar adulto. Ladram, destroem, comem cócós e largam pelos, em suma são cães. Muitos cães que acabam na rua, ou em abrigos foram bem-intencionadas mas mal pensadas prendas de natal.

OS MEUS FILHOS NÃO PÁRAM DE PEDIR UM CÃO

Crianças e cães são uma das imagens mais românticas da nossa sociedade. As vantagens de crianças crescerem com cães são inúmeras e mais que comprovadas eu sou totalmente a favor de que beneficia ambas as partes se feito com cabeça, tronco e membros. No entanto, o cão tal como não é uma prenda, nunca pode ser dado a uma criança como se esta fosse ser a única responsável pelo mesmo.

Tinha eu cerca de 10 anos quando os meus pais trouxeram o primeiro cão para casa. Até à data eu tinha pedido todos os natais, aniversários, páscoas, Halloweens e festas da cidade, por um. No entanto, e felizmente, os meus pais sabiam que por mais que eu quisesse seriam eles os verdadeiros responsáveis pelo cão e só quando eu já era mais capaz de entender certas coisas e eles capazes de abraçarem essa responsabilidade é que aconteceu e assim tive a minha primeira cadelita, a Lira.

Apesar de eu ser uma criança que era muito responsável e por gostar tanto dos cães, não me importava nada de a passear, dar-lhe comida, dar-lhe banho quando necessário, etc… Mas os meus pais sempre entenderam que eram verdadeiramente eles, os responsáveis pela Lira.

No final de tudo, se ela precisava de cuidados médicos eram eles que a levavam e pagavam, se ela precisava de ser passeada e eu tinha saído com amigos ou estava no meu submundo adolescente fechada no quarto, eram eles que tinham que ir, se eu me esquecia de lhe dar comida, eram eles que tinham que tratar disso.

A criança pode muito querer compartilhar a vida com um cão e isso é óptimo, mas colocar nas mãos das crianças, a responsabilidade inerente a ter um cão é uma receita para desastre, e quando a criança falhar, e vai falhar porque é, pois claro, uma criança, os adultos não podem levantar as mãos e dizer “foste tu que quiseste” esquecendo-se que pelo meio existe um animal que sente fome, frio, precisa de carinho, amor, atenção e não pode ser negligenciado porque a criança é uma criança e as adultos “nem queriam o cão”.

Por isso, ter cães porque as crianças querem é uma péssima ideia. Devemos adoptar um cão porque nós queremos, e com isto a criança pode também beneficiar desta interacção e vivência, mas somos nós como família e em especial os adultos que devem arcar com esta decisão e responsabilidade.

COMPRAR OU NÃO COMPRAR

Agora que ficou claro que cães ou animais, dados como prendas não são a melhor ideia, festeje o natal e depois pense cuidadosamente em adquirir um amigo novo.

Antes de decidir que raça adquirir, deixe-me dar-lhe a perspectiva de alguém que trabalha há 10 anos com cães de todas as raças possíveis e imagináveis.

A raça de um cão, cada vez menos determina a personalidade do mesmo. O que quero dizer com isto é que, a raça de um cão dá-nos informação sobre aspectos como a cor, tamanho que cresce, tipo de pelo, etc… mas não exactamente vem de encontro com a ideia do que um (coloque aqui a raça) é.

Labradores não são todos pacatos e sabem não puxar na trela, nem todos os Golden Retrievers adoram crianças e vão buscar bolas, se acha que todos os chihuahuas ladram sem parar a tudo engana-se e não, nem todos gostam de andar sempre dentro de carteiras. Os Grand Danois, não são todos lentos e mexem-se pouco, nem todos os Pastores Alemães vão comer ladrões e lamber a vizinha, alguns lambem todas as pessoas de tão amigáveis que são, e os Border Collies, não são todos cães fáceis de ensinar.

Isto são tudo rótulos que nos levam a uma ideia errada dos cães, porque o que nos esquecemos é que cada cão tem a sua personalidade, e que o que fazemos depois com ele a nível de treino e educação vai ter a maior influência de todas, na forma como o cão se comporta e se relaciona connosco. Por isso seja lá a ideia que tenha de uma determinada raça, pense de novo, pode sair totalmente ao lado daquilo que espera.

Cães de raça definida se adquiridos em criadores responsáveis são também caros. Custa-me pessoalmente, pensar que podemos estar a gastar tanto dinheiro num cão específico, quando existem tantos fantásticos a precisar de uma casa.

Eu mesma tenho um Border Collie, e apesar de o amar profundamente foi o primeiro e ultimo cão que alguma vez comprei. Ele é um cão fantástico, mas tem Border Collie Collapse Syndrome e Displasia da Anca grau D e garanto-vos que procurei afincadamente e só em criadores responsáveis e conscientes. Mesmo assim não me livrei de pagar muito por ele, ver a saúde dele deteriorar-se e sentir-me algo culpada pela decisão que tomei.

Se mesmo depois de ler isto, pensar, “mas eu quero mesmo um cão da raça x” deixo alguns conselhos:

- Tente saber se não existe nenhum da raça x disponível para adopção, iria ficar surpreendido que hoje em dia quase qualquer raça pode ser adoptada.

- NUNCA compre esse cão numa loja, na internet.

- Procure extensivamente por criadores se quer evitar dar muito dinheiro e acabar com um cão com problemas de saúde graves que diminuirão a qualidade de vida do seu companheiro, lhe partirão o coração e esvaziarão a sua carteira. Conheça os pais do cão, interaja com eles, pergunte tudo o que quiser sobre a saúde eles, e o comportamento deles. Exija ver testes médicos, informe-se sobre as doenças mais comuns dentro da raça, etc.. conheça vários da mesma raça e fale com os tutores, pergunte como eles são, para perceber se é realmente o que procura. É um trabalho de casa extenso, mas do qual nunca se vai arrepender.

Se a raça e ou proveniência não é o principal, então parabéns! Acabou de salvar a vida de um cão

ADOPTAR É TUDO DE BOM

Adoptar um cão é outra decisão importante, mas extremamente satisfatória, sabermos que salvamos um cão de uma vida miserável ou até mesmo da morte, e que estamos a dar muitas vezes uma nova oportunidade a um cão é algo difícil de descrever por palavras.

Procure nas associações ou canis perto de si, e faça perguntas sobre os cães. Muitas vezes as pessoas que lá trabalham, conhecem melhor os cães que têm dentro das associações do que nós, por isso ouça-as e não seja movido apenas por um determinado aspecto como: aquele é lindo, aquele é sossegado, etc.. tente saber mais sobre a personalidade do cão e se ele será um bom companheiro para si.

Para cada adoptante existe mais do que um cão perfeito, pode não ser aquele que está ali mas pode ser o outro ao lado e muitas vezes as pessoas que estão na associação são as melhores a responder às suas dúvidas. Não se apresse, leve o seu tempo a decidir. Peça para passear com o cão, pode mesmo fazer isso mais do que uma vez caso esteja com dúvidas. Passar algum tempo com o cão vai apenas dar-lhe certezas e evitar surpresas.

Se decidir por um cachorro, saiba que por vezes é difícil saber o tamanho que vai ter em adulto ou o aspecto físico exacto, eu pessoalmente gosto do factor surpresa e das características únicas, mas caso isso não o motive, tente perguntar às pessoas mais experientes dentro da associação quais os cachorros mais fáceis de identificar em termos de aspecto físico, etc.

Se decidir por um cão adulto as coisas facilitam-se em termos do aspecto físico. Ali está o que é, peludo, carequinha, pretinho ou colorido, barbudo ou com orelhas espetadas. Dali questione o comportamento do cão, saiba que nem sempre as pessoas da associação podem garantir nada em termos de comportamento, pois os cães comportam-se de forma diferente em ambiente de canil do que em casa individuais.

Se decidir adoptar um idoso, terá uma agradável surpresa. Eles usualmente são cães que surpreendem pela sua capacidade de adaptação, procuram coisas que nunca, raramente ou já não têm à muito tempo, contacto humano, cama seca e quente e comidinha sem falta. Cães idosos têm o maior defeito de todos, uma vida mais curta que um cachorro, mas as vantagens são infindáveis, a começar pela carga de trabalhos que os cachorros dão e que os cães idosos não vos vão dar. Usualmente cães idosos são mais previsíveis no seu comportamento pelo que é mais fácil saber lidar com um. Um cão idoso apesar de ter uma vida mais limitada, continua a ser um cão que irá passar vários anos ao seu lado, e por experiência estes cães rejuvenescem sempre que são adoptados e acabam por viver bastante mais tempo que o esperado.

Quando adopta um cão, seja de que idade for, está sem dúvida a dar a um patudo que merece uma nova casa. Estes cães muitas vezes vêm acoplados a um sentimento de “agradecimento eterno”, difícil de explicar, impossível de provar, mas que quem adopta, acaba sempre por descrever e reconhecer como existente, quase como se “eles soubessem que os ajudamos”.

Pondere adoptar um cão para si, no caso de ter pensado em ter um, e esse será verdadeiramente um bom começo de ano!