sábado, 13 de dezembro de 2008
MITOS ACERCA DA DOMINÂNCIA E COMPORTAMENTO DE LOBOS RELACIONADO COM CÃES - AVSAB
O meu cão salta para cima de mim, rouba comida quando não estou a ver, tenta subir para o meu colo o tempo todo, pede festas e na maioria das vezes ignora-me quando o chamo. São estes sinais de dominância por parte dele?
Não. Nos sistemas sociais animais, dominância +e definida como o relacionamento entre dois ou mais indivíduos, estabelecido através da força, agressão e submissão de forma a obter-se prioridade aos recursos (Berstein 1981, Drews, 1993). A maioria dos problemas comportamentais descritos acima ocorrem não do desejo de obter um ranking mais alto, mas simplesmente porque são comportamentos que foram reforçados no passado. Por exemplo, os cães saltam para cima das pessoas e sobem para os colos porque quando o fazem, eles ganham a atenção dos donos. Da mesma forma, um cão não vem quando é chamado se está a ser reforçado pelos objectos ou actividades que os distraem ou se foi criada uma associação negativa à chamada através do castigo. Até roubar comida quando não estamos a ver, não é um display de dominância. Na vida selvagem, animais de ranking baixo roubam comida quando os animais de ranking superior não estão a guardar esses recursos. Esta é uma estratégia alternativa para over os recursos que eles querem. Aqueles que são recompensados com o sucesso, terão mais chances de repetir a “façanha”.
Porque os cães estão relacionados com os lobos, devemos usar o modelo social dos lobos para compreender os cães.
Enquanto que podemos tirar ideias dos tipos de comportamento que podemos estudar nos cães baseandomo-nos no que sabemos acerca dos lobos, o melhor modelo para compreender cães domésticos é mesmo o modelo dos cães domésticos. Os cães divergiram significativamente dos lobos nos últimos 15,000 anos. Os lobos, desenvolveram-se como caçadores e geralmente vivem em grupos consistindo maioritariamente de membros da sua família (Mech, 2000). Os membros desse pack cooperam na caça, em tomar conta das ninhadas. Num dado ano, heralmente apenas o macho a fêmea dominantes acasalam, de forma a que os recursos do pack inteiro possam-se focar nos mais novos. Os cães, por outro lado, desenvolveram-se como animais que comem restos na vez de caçadores (Coppinger e Coppinger 2002). Estes que eram os menos medrosos, sobreviveram dos restos e lixeiras dos humanos e reproduziram-se nesse ambiente. Actualmente, cães que vivem á solta (selvagens) vivem em grupos pequenos na vez de packs de cães coesivos, e nalguns casos passam a maior parte do tempo sózinhos (MacDonald e Carr 1995). Eles usualmente não cooperam para caçar ou para criar e virtualmente todos os machos e fêmeas têm a oportunidade de acasalar (Boitani et al 1995). Diferenças tão notáveis como estas nos sistemas socias, levam inevitavelmente a diferenças notáveis no comportamento.
Ouvi dizer que se eu achar que o meu cão é dominante, deverei rolá-lo no chão de costas num “alpha roll” e rosnar no focinho dele porque é isso que um lobo alpha faria.
Num pack de lobos, os alphas nunca rolam de costas os lobos de ranking mais baixo. Na vez disso, são os lobos de ranking mais baixo que mostram a sua submissão deliberadamente rolando-se de costas para o lobo dominante. Este movimento submisso é sinal de deferência, semelhante quando nós cumprimentamos a raínha ou o papa e nos ajoelhamos. Consequentemente o termo mais apropriado para essa postura seria na vez de “alpha roll”, “submissive roll” (Yin 2009).
Mesmo que os lobos não rolem os membros submissos de costas parece que resulta em alguns casos. Será que deverei tentar na mesma essa técnica com o meu cão agressivo?
A causa mais comum para agressão é o medo. Forçar um cão a rolar-se de costas no chão quando ele já está assustado não irá resolver o cerne do problema. Pior que isso, pode aumentar a agressão (AVSAB, 2007). Na realidade, um estudo recente feito em cães (Herron at al 2008) mostra que técnicas confrontacionais tais como bater, pontapetear o cão quando este demonstra comportamentos agresssivos, rosnar no focinho do cão, executar “alpha rolls”, olhar para o cão de cima para baixo e forçar uma “submissão” frequentemente desencadeiam respostas agressivas no cão. Esta agressão pode também ser direccionada a objectos inanimados, outros animais ou outras pessoas para além do dono. Mesmo castigos não físicos, como reprimendas verbais demasiado severas, ou abanar um dedo em frente a um cão, podem desencadear agressão defensiva se o cão se sentir ameaçado.
Ouvi dizer que para ser o líder, tenho que passar pelas portas primeiro e caminhar á frente do meu cão, como os lobos fazem.
Num pack de lobos, o lobo alpha apenas lidera a caça uma fracção do tempo (Peterson et al 2002). Para além disso quando estão a caçar, eles não mantém uma formação linear baseada no seu ranking.
Uma vez que o alpha come primeiro, deverei eu comer antes do meu cão?
Lobos alpha não têm necessariamente acesso prioritário á comida. Uma vez que o lobo tem acesso a comida pode não cedê-la a outro lobo independentemente do ranking do mesmo. Quando a comida ainda não está na posse de nenhum lobo, agressão ritualizada poderá ocorrer (rosnar, mostrar os dentes) sendo que lobos de ranking mais alto usualmente ganham. Mas claro isto são lobos em caça com comida em escassez e não cães e pessoas onde abunda a comida e não existe o factor caça.
Dar guloseimas aos cães pode torná-los dominantes.
Mesmo entre animais selvagens a partilha de comida não está relacionada com hierarquias. Lobos adultos frequentemente regurgitam comida para os mais novos. Machos de outros espécies frequementemente trazem comida às fêmeas como parte da “sedução”. Dar uma guloseima ao seu cão quando ele salta ou ladra leva ao fortalecimento desses comportamentos. Mas não lhe diz que ele está num ranking acima ou que tem prioridade a recursos.
Rosnar a um cão, mordê-lo ou fazer um gesto com a mão que finge ser uma garra imita o que os lobos fazem aos subordinados?
Não existem estudos nenhuns que provem isto. No entanto, como experiência pode perguntar a alguém que já tenha sido mordido por um cão se o facto de você lhe tocar com a mão em forma de garra tem um efeito semelhante ao mesmo quando ele foi mordido, ou se o seu rosnar ou morder é tão feroz como o de um cão. Em geral, nunca devemos assumir que as nossas acções mimicam as dos cães ou dos lobos. Na vez disso, deveremos avaliar as nossas interacções com os cães, observar as suas respostas e tentar entender como eles as percebem.
sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Abstracto
A teoria de que uma hierarquia baseada em relações dominantes é o principal princípiopelo qual se regem os grupos do tipo lupus familiaris é uma projecção humana que precisa de ser substituida. Para além disso, o modelo foi sem justificação possível transferido do seu propósito original na discussão do comportamento de lobos para a discussão do comportamento de cães. Este documento representa um novo e mais adequado modelo de como os familiaris se organizam quando estão em grupos. Este documento está baseado num estudo longitudinal de um grupo de 5 cães arbitrários a viverem no seu habitat natural, enquanto interagem uns com os outros dentro do grupo, com novos membros de várias espécies a juntarem-se ao grupo e com o encontro de vários indivíduos de outras espécies no ambiente externo.
Semyonova, A. 2003, The social organization of the domestic dog; a longitudinal study of domestic canine behavior and the ontogeny of domestic canine social systems, The Carriage House Foundation, The Hague, http://www.nonlineardogs.com/embed-SocOrg.html , version 2006.
terça-feira, 18 de novembro de 2008
A Panacéia da Dominância por Jean Donaldson

Para os donos de cães, esta explicação simplista, torna desnecessário o trabalho de se ter que estudar uma série de tópicos, como por exemplo, como os cães aprendem. Noções de cães que passam por portas antes dos donos, ou que puxam na trela para assertivar dominância sob os seus donos, são estúpidas demais para serem comentadas. Algumas pessoas têm estes conceitos tão confusos que vêm comportamentos como saltar ou colocar um pata em cima do dono, como exibições dominantes e como tal boas justificações para uso de aversivos. A panacéia é, uma vez mais, uma forma de tirar uma conclusão rápida antes de excluir explicações bem mais óbvias. Cães roem mobílias porque, para que mais poderão servir? São desobedientes porque não fazem ideia do que lhe estão a pedir, estão desmotivados, ou outra coisa qualquer ganhou o jogo da motivação naquela dada situação. O ranking não está nas suas mentes.
- Porque o ambiente está de alguma forma a reforçar esse comportamento
- Porque nunca ninguém ensinou devidamente o cão a fazer algo diferente
A panacéia da dominância está tão fora de proporção que escolas inteiras de treino canino são baseadas na permissa de que se você conseguir execer dominância sob o seu cão, tudo o resto se resolverá. Não só significa que abusos irão ser cometidos contra o cão, provavelmente aumentando os problemas tais como chamadas inconsistentes e agressão, mas questões importantes, como condicionamento bem executado e manipulação adequada do ambiente do cão serão renegadas, resultando em cães não treinados, a cummprir um “inútil” programa de dominância.
Nada disto quer dizer que os cães não são uma espécie cuja vida social relega às regras hierarquicas. Mas eles também vêm bem à noite e ninguém propõe cirurgia às retinas para resolver os seus problemas de agressão ou não cumprimento de comandos. A teoria da dominância, é simplesmente a forma mais deselegante de explicar, e querer tratar, problemas como agressão e “desobediência”. Treinadores e pessoas que usam aversivos para treinar tendo como base o modela da dominância, teriam muito melhores resultados com menos trabalho se usassem esses mesmos aversivos com uma compreensão de como os cães aprendem, ou, melhor ainda, se deixassem os métodos punitivos totalmente de lado e tentassem outras ferramentas que o comportamentalismo oferece.
O conceito da dominância é simplesmente desnecessário.
** meme - s. idéia, prática social, conceito ou ação que se torna norma e é conscientemente repetido numa sociedade (termo cunhado por Richard Dawkins no livro "The Selfish Gene", 1976)
domingo, 17 de agosto de 2008

A ideia de que o cão é um lobo domesticado tem uma grande atracção romântica para nós. Nós imaginamos o grande Lobo cinzento das regiões nortenhas da Terra, um animal poderoso que pesa cerca de 160-220 libras, que passa os seus dias a caçar alces. Sonhamos com os nosso antepassados a encontrarem (ou a roubarem) um filhote de lobo e a criá-lo com muito amor. Imaginamos esse cachorro a crescer e a tornar-se o melhor amigo do homem e o seu companheiro e a procriar crias domesticadas para nós. Após várias gerações deste processo, supostamente nós produzimos o cão tal como o conhecemos hoje em dia. Vemos uma linha de descendência directa dos nossos cães directamente ao grande lobo cinzento que vemos no canal Discovery. UAU, um lobo na nossa sala de estar, que sentimento poderoso!
Hoje em dia já sabemos que as coisas não aconteceram exactamente assim. Os nossos antepassados não domesticaram o cão, ele domesticou-se a si mesmo. Aliás os antepassados do cão não são os grandes lobos cinzentos do Discovery Channel. Esse lobo não existia quando o cão começou a dividir-se numa nova espéce – o lobo cinzento tinha ainda que evoluir, tal qual o cão doméstico fez. O que precisa de imaginar é um animal muito mais pequeno, que já se tinha divido da família dos lobos alguns 200,000-500,000 anos atrás. Este antepassado não era um caçador especializado como o lobo é, mas era antes o que os biologos chamam de um “generalista” - um animal que não é limitado a uma fonte específica de comida ou a um ambiente, mas sim que se pode adaptar a várias situações.
Então, agora está a imaginar um animal mais pequeno, parecido com o cão. O que é que este pré-cão fez que levou ao rpesente cão? E nós tivemos alguma coisa haver com isso? A resposta a ambas as questões está no nosso desenvolvimento como uma espécie. Tal como a maioria das espécies, nós sobrevivmeos por milhões de anos com números limitados, dada a escassez de comida. Hà cerca de 130,000 anos atrás inventamos o arco e a flecha.
Este foi um grande salto, mas – contrário ao mito - não quis dizer que os antepassados dos cães se juntaram a nós imediatamente para nos ajudar a caçar. O cão era ainda e apenas um animal selvagem, e como todos os canídeos selvagens – até mesmo ao presente, e mesmo que sejam criados numa casa humana – ele permaneceu completamente inútil nas tarefas da caça.
Como tal o nosso arco e flecha, não quiseram dizer que o lobo se tornou subitamente apto a trabalhar como um cão de caça. Quis sim dizer, que os nossos antepassados tiveram uma tarefa bem mais fácil em conseguir alimentos. Eles começaram a deixar restos nos seus encampamentos, restos que eram comestíveis para outros. Criou-se assim uma nova fonte de alimentos para outras espécies na área. E quando uma nova fonte de alimentos aparece num ambiente particular, existe sempre algum animal que se aproveita da mesma e a explora. Neste caso, alguns dos antepassados caçadores, ou exploradores do cão de hoje em dia, foram os que se aproveitaram desta fonte de alimentos. Estes eram indivíduos que eram atraídos por uma (muito mais fácil e segura) forma de sobrevivência. Tudo o que precisavam era manter-se atrás destes grupos de humanos e comer os restos que eles deixavam para trás. Talvez ocasionalmente ainda encontrassem grupos nómadas e procriassem com estes indíviduos pelo caminho – mas a maioria dos cachorros eram originários da procriação nos próprios locais onde se encontrava a fonte de alimentos, entre animais mais solitários que agora sobreviviam comendo os restos.
Este foi o início da separação reproductiva, e como tal da formação de um espécie nova.
Estes animais estavam no processo de fazer uma escolha. Estavam mais do que nunca, longe dos seus primos os lobos, mas também não eram ainda cães domesticados. A escolha que alguns deles fizeram levou a que o cão pré-doméstico aparecesse. A anatomia deste animal ainda estava a uma vida nómada, uma vez que acompanhavam os grupos nómadas dos humanos. Isto é provavelmente a razão pela qual os arqueologistas não encontram restos tipicamento caninos deste período. O corpo do cão ainda não tinha sofrido grandes alterações, embora o seu comportamento e provavelmente o seu cérebro estivessem já a alterar-se. Mas antes de se poder tornar um verdadeiro cão domestico, a nossa espécie teve que fazer o seu prórprio salto evolutivo.
Este próximo salto veio hà cerca de 12,000 anos atrás, quando desenvolvemos a agricultura. Os humanos pararam de se moverem como caçadores e colectores e começaram a viver em aldeias permanentes. Agora o pré-cão também podia estabelecer-se e viver permanentemente perto da fonte de alimentos. Agora já não iria encontrar-se com grupos nómadas que ainda caçava, e que tinham medo dos humanos, nem por acidente. Não iria existir mais procriação com caçadores, nem mesmo ocasionalmente. O seu corpo poderia começar-se a adaptar-se a um tipo de vida mais sedentária, apesar das mudanças que já estavam a ocorrer no seu comportamento e no seu cérebro.
Dentro de um periodo relativamente curto o cão tal qual o conhecemos hoje realmente apareceu. Este é o período em que verdadeiros esqueletos de cães foram encontrados. Os outros ramos da família continuaram a sua vida de caçadores e tornaram-se nos cães selvagens que agora vemos no Discovery Channel. O lobo cinzento tendo nada haver com tudo isto.
O cão e o lobo eram relacionados um com o outro da mesma forma que você está relacionado com o seu sexto primo, e da mesma forma que todos nós estamos relacionados a outro tipo de primatas (macacos e chimpanzés). Nós partilhamos um antepassado, nada mais. Mas o cão definitivamente não descendeu do lobo cinzento mais do que você descende do seu primo.
REFERÊNCIAS:
- Beljaev, DK, Trut, LN, Some genetic and endocrine effects of selections for domestication in silver foxes, in
- The Wild Canids, Fox, MW, ed., Van Nostrand Reinhold, New York, 1975.
- Beljaev, DK, Plyusnina, IZ, and Trut, LN, Domestication in the silver fox (Vulpes fulvus desm): changes in physiological boundaries of the sensitive period of primary socialization, Applied Animal Behavior Science 13:359-70, 1984/85.
- Coppinger, R, Coppinger, L, Dogs: a startling new understanding of canine origin, behavior, and evolution, Scribner, New York, 2001.
- Koler-Matznick, J, The origin of the dog revisited, Anthrozoos 15(20): 98 – 118, 2002.http://www.canineworld.com/ngsdcs/Origin.of.the.Dog.pdf
- Lindsay, SR, Handbook of applied dog behavior and training, Blackwell Publishing, Ames Iowa, 2000.
- Plyusnina, IZ, Trut, LN, An analysis of fear and aggression during early development of behavior in silver foxes (Vulpes vulpes), Applied Animal Behavior Science 32:253-68, 1991.
- Serpell, JA, ed., The domestic dog: its evolution, behaviour and interactions with people, Cambridge University Press, Cambridge (UK), 1995.
- Sibly, RM, Smith, RH, Behavioral Ecology: Ecological Consequences of Adaptive Behavior, Blackwell Scientific Publications, Oxford, 1985.
terça-feira, 27 de maio de 2008
1. O status é estabelecido e mantido pela força física e a dominância.
2. Os cães mais agressivos são maisdominantes.
3. O cão mais dominante é o mais agressivo. Sendo assim cães que frequentemente ameaçam, rosnam, lutam e mordem são muitas vezes determinados como os animais “alpha”.
A maioria das afirmações acima ditas, são muito duvidosas. Não só traem através duma visão teoricamente simplista, uma estrutura social complexa, mas também tendem a ser contraprodutivas, unhumanas e perigosas quando extrapoladas e aplicadas ao treino canino ou à resolução de problemas comportamentais.

STATUS SOCIAL E AGRESSIVIDADE
É geralmente assumido que um status elevado, está directamente relacionado com comportamento agressivo. Na realidade, um cão com uma posição hierárquica alta e agressivo é muito raro. Os cães de status hierarquico alto raramente sequer rosnam – é que não precisam! O cão que realmente está no topo da cadeia hierarquica é normalmente calmo, seguro e confiante da sua posição privilegiada e não tem necessidade de andar a “anunciá-la” através de comportamentos agressivos ou exibicionistas. Nas palavras da psicóloga Dr. Linda Carlson, “Se a tens não tens que a anunciar”. Um verdadeiro cão de topo é bem mais capaz de partilhar um brinquedo, um osso ou um local de dormir, do que lutar por isso. Por outro lado, cães que se encontram no fundo da cadeia hierárquica também raramente rosnam ou lutam. A directiva base de um animal de baixo status é ser discreto. Ladrar, rosnar e arreganhar os dentes apenas chama atenção indesejada e se chegasse a desencadear uma luta, o cão mais baixo na hierarquia provavelmente perderia.
Um cão de tipo tem pouca ou nenhuma necessidade de ameaças e um cão com baixo status será louco se o fizesse. Sem dúvida nenhuma rosnos excessivos e lutas repetidas é indicativo de insegurança e incerteza quanto ao seu status social com outros cães. Dentro de um grupo social, demonstrações prolongadas e tempestuosas de agressão são característica dos cães que se encontram no meio duma cadeia hierarquica. Este cães, ameçam mais e lutam com mais frequência que os cães de topo ou os que estão mais abaixo.
HIERAQUIA SUBORDINADA
Quando a funcionalidade de uma hierarquia é vista dentro dum contexto de desenvolvimento saudável, torna-se aparente que a “hierarquia subordinada” é um termo mais descritivo para uma estrutura social canina. Esta permissa foi primeiro sugerida pela primatologista inglesa Dra. Thelma Rowell. A manutenção de uma hierarquia, depende do respeito existente pelos indivíduos que estão no topo. O status quo é mantido porque, os indivíduos de status baixo raramente desafiam a autoridade e como tal raramente é necessário reforçar o status do topo com manifestações físicas, ou dominância psicológica.
DESENVOLVIMENTO DE HIERARQUIAS
Crescendo rodeados de adolescentes e adultos, os cachorros não podem competir na cena social em vista do seu tamanho baixo ou força física e psicológica inferior. Sendo assim, os cachorros aprendem qual a sua posição na vida, muito antes de serem suficientemente grandes e fortes para se tornarem uma ameaça à ordem já estabelecida. A maioria dos cães adultos são bastante benevolentes com os cachorros até estes chegarem à adolescência, quando os adultos (maioritariamente os machos) perseguem os adolescetntes. Mesmo assim, esta perseguição feita por cães adultos é maioritaramente psicológica e não física. Apenas um cão adulto com problemas sérios e preverso iria fisicamente desafiar cachorros.
Apesar de tudo isto, durante este estágio crucial do desenvolvimento hierarquico, cachorros e adolescentes são intimidados pelo incessante tormento dos adultos e consequentemente aprendem a responder com gestos exagerados de conciliação para apaziguar os mais velhos. Aliás os mais novos rapidamente aprendem a demonstrar gestos de conciliação antes de serem confrontados. As “desculpas” precoces dos mais novos, normalmente caracterizam-se por: encolher do corpo, aproximar em ziguezague com as orelhas para trás, sorriso “submissivo”, e abanar da cauda e das ancas traseiras. O mais novo pode ainda abanar a pata e lamber o focinho do mais velho (este sinais que quando os cachorros são mais novos são usado para solicitar comida, são agora característicos de neotenismo dos cães como adolescentes e adultos). Poderão também erguer a perna e expor os seus genitais e outros poderão até urinar (cães adultos poderão determinar a idade de um cachorro através do cheiro da urina do mais novo).
MANUTENÇÃO DA HIERARQUIA
Lutas e dominância física raramente fazem parte da manutenção de uma hierarquia. Pelo contrário, a função princpial duma estrutra hierárquica funcional é diminuir o número de conflitos e lutas. Uma vez estabelecida, a hierarquia dá muitas das respostas antes que os problemas surjam. Por exemplo, quando existem dois cães mas apenas um osso, o osso está já decidido para quem vai através da estrutura hierarquica e como tal não existem motivos para lutas. Problemas semelhantes são também resolvidos desta forma em hierarquias humanas. Por exemplo, numa empresa grande, o problema de apenas um só lugar de estacionamento e dois carros, normalmente não existe conflito porque quem estaciona será sempre quem tem um status mais elevado na empresa. Afinal de contas quem no seu estado normal iria estacionar no local do seu patrão?
Este conceito aplica-se aos cães. Desentendimentos acerca de posições hierarquica, dominância e agressão tendem a causar lutas, que são largamente o produto de falta de socialização e da mistura de cães socialmente não preparados. Para mais, noções erradas do comportamento social canino tendem a criar donos de cães machos,que permitem e/ou encorajam os seus cães a rosnar, porque assim pensam que têm um cão muuuuuuito maaaau! Este tipo de pessoa – usualmente um adolescente homem (entre 13 e 59 anos de idade), que detêm cães de uma ou duas raças específicas que não vale a pena mencionar – podem tornar-se um problema. No entanto, é possível fazer estes tornarem-se espertos com um elogio/insulto tal como “Que cão magnífico! Que pena que rosne e ladre tanto.Talvez possamos melhorar a confiança do seu cão e torná-lo num cão de topo, porque cães de topo não fazem este barulho todo sabe? Eles não precisam!”. Eu nunca me paro de surprender pela quantidade de donos de cães que inicialmente parecem impenetráveis e se tornam excelentes exemplos para qualquer pessoa.
Infelizmente, o verdadeiro perigo do conceito do cão “alpha” e da dominância reside na extrapolação questionável feita no mundo do treino canino e dos donos de cães. Na vez de serem educacionais, muitos dos chamados “métodos de treino” são simplesmente antagônicos e abusivos; o cão é muitas vezes visto como o nosso inimigo na vez do nosso melhor amigo. Muitos gestos brincalhões, de cumprimento ou de medo são mal-interpretados como sendo agressivos, dando ao dono desprevenido uma desculpa conveniente para abusar o cão sob o pretexto de “treino”.
Por exemplo, arreganhar os dentes, levantar do pêlo e rosnar são muitas vezes, erradamente, tidos como sinais de dominância, enquanto que são, na realidade, muitas vezes sinais de medo – muito provavelmente resultado directo de uma pessoa bater no cão. Da mesma forma, donos são avisados que marcar território com urina, “montar” as pessoas, roubar comida, saltar para cima das pessoas e contacto visual prolongado são também sinais de dominância pelos quais o cão deve ser castigado. Este conselhos são errados, “maus” e confusos e tiram o divertimento todo de sermos donos de cães. No meu livro:
· Um cão que marca território dentro de casa, precisa de ser treinado a fazer as necessidades lá fora
· Um cão que monta as pessoas, a) precisa de ser ensinado a parar e b) necessita ser apresentado a outro cão socialmente inclinado a essa interacção
· Um cão que rouba comida, a) está desesperadamente a precisar de um dono que se lembre de colocar a comida longe do alcance do cão, b) precisa de uma apresentação ao método de ensino de um comportamento alternativo
· Um cão que salta, simplesmente precisa de ser ensinado a sentar-se quando conhece pessoas
· Um cão que olha fixamente para um humano, a) precisa de aprender que olhar nos olhos de uma pessoa não é uma ameaça, b) afastar ou olhar para outro local sob comando e c) aprender a olhar para os olhos do seu dono de forma pacífica
Certamente que precisamos de controlar os nossos cães, mas o que é preciso é um controlo mental e cooperativo e não uma dominação física. Apesar de o dono de um cão poder abaná-lo, rolá-lo pelo chão, ou batê-lo até à submissão, qual é o objectivo de ganhar a batalha e perder a guerra? Que possível vantagens existirão em converter um hipoteticamente “dominante” num cão medroso. Para além disso a maioria das correcções físicas estão muito para além das capacidades mentais e físicas da maioria das donos de cães comuns. E porquê aconselhar os donos a entrarem numa disputa física com o cão, que muito provavelmente está já perdida? De facto, porquê abusar o cão, quando é possível atingir o mesmo resultado usando a inteligência na vez da força?
Devemos aconselhar métodos de treino que são efectivos e que estão nas capacidades de todos os donos de cães, incluindo mulheres, crianças e idosos. Se aprendemos alguma coisa ao estudar o comportamento canino foi que na vez de bater nos cães até à submissão, é muito mais fácil convencê-los a juntar-se a nós, para que goze da sua vida ao nosso lado, na vez de lutar contra nós.
Ian Dunbar Ph D., BvetMed MRCV
sábado, 24 de maio de 2008
Destruindo o Mito da Dominância por Carmen Buitrago
Por Carmen Buitrago, CPDT, CTC
O seu cão rosna ao visitantes? Dominância, dizem os seus amigos bem intencionados. Não vem sempre que é chamado? Está a dizer-lhe que é o chefe, de acordo com livros de cães populares. Ela puxa na trela ou salta para dizer olá? Está a declarar o seu status de alpha. Ele prefere estar em cima de sofás do que no chão? Cuidado!
Talvez o comportamento mais estranhamente atribuido à dominância tenha sido o da coprofagia.
Mas note que essa liderança é ganha através da força. Na sociedade canina, a liderança não é obtida através da dominação física. E um grande número de cães com temperamentos sociais normais, irão naturalmente resistir ser forçados a estar de barriga para cima, mesmo ao ponto de exibirem agressão defensiva.
Alguns ditos “experts” sugerem o uso de técnicas violentas como o abanar do cachaço do cão e alpha rolls. No extremo, outros treinadores advocam métodos assumidamente abusivos tais como o uso de coleiras de engasgo, muitas vezes “pendurando” o cão até que este perca a consciência.
O Dr. Ian Dunbar demonstra as 3 maiores falhas nos estudos das alcateias de lobos durante os anos de 1930 e 1940. Em primeiro estes estudos eram curtos e focados num só aspecto da vida dos lobos, a caça. Como resultado, os estudos recolhidos eram uma fraca representação e as conclusões eram inexactas acerca do comportamento do lobo (e mais tarde do cão).
Em segundo os investigadores observam rituais, e interpretam-nos incorrectamente. O bulco da mitologia da dominância provém destas interpretações erradas.
Tomemos por exemplo os alpha rolls. Os investigadores mais antigos pensavam que o lobo alpha forçava os outros lobos rolando-os para uma posição subordinada para exercer a dominância. Estudos modernos mostraram que o suposto “alpha roll” não passa de um ritual de apaziguamento oferecido voluntariamente pelo lobo subordinado e nunca forçado pelo superior.
A especialista em comportamento canino Jean Donaldson, autora do livro premiado “The Culture Clash”, diz, “A verdade é, não existe nenhum caso documentado de um lobo a forçar outro lobo a rolar-se no chão. Nem existe nenhum caso de uma mãe lobo (ou cadela) a abanar as suas crias pelo cachaço.”
A terceira falha é a de que os investigadores extrapolaram excessivamente a informação. O seu primeiro salto na lógica foi aplicar as suas conclusões falsas ao cães. O segundo foi aplicá-las às interacções humano-caninas.
Cães não são lobos disfarçados
Ian Dunbar disse: “ Dizer que quero interagir melhor com o meu cão, por isso vou estudar os lobos, faz tanto sentido como dizer, quero melhorar a forma como lido com os meus filhos – vamos ver como os chimpanzés o fazem.”
Aplicar estudos feitos em lobos a interacções humano caninas não faz sentido, de acordo com Dunbar. Apesar das provas, livros e métodos abundam em recomendar os donos a serem o “líder da matilha”. Estes aconselham relacionamentos conflituosos entre cães e humanos e métodos de treino combativos que se baseiam na força, castigo e mesmo na dor. Afinal de contas, a força é tida como necessária e essencial para colocar cães ambiciosos no seu lugar.
No seu livro “Dog friendly dog training”, Andrea Arden escreve, “Na vez de ensinarmos os nossos melhores amigos, eramos aconselhados a dominá-los fisicamente para os manter na linha.”
É um ritual. As interacções diárias são baseadas largamente em comportamentos diferenciais e cooperativos, e os conflitos são resolvidos através de exibições físicas designadas a inibir a agressão e eliminar as ameaças.
Mantendo a ordem através da submissão
Os especialistas agora concordam que os lobos formam uma hieraquia não linear, dentro da qual os animais subordinados mantêm a ordem através de exibições activas e voluntárias de submissão e diferencia.
Por exemplo, um cão que rosna quando alguém se aproxima do seu prato de comida, poderá ser determinado como dominante. Se perguntar ao dono porque é que o cão rosna, ele responderá “Porque é dominante”. Sendo assim a ideia torna-se uma pseudo explicação para o comportamento.
Um outro termo relacionado com esta questão, é agressão dominante. O que quer dizer isto? Não existe consenso científico nenhum em como se poderá academicamente definir agressão dominante, muito menos como identificá-la no mundo real e no dia-a-dia.
Se um comportamento tão óvio como a agressão é tão difícil de caracterizar, quão correcto será determinar comportamentos tão subtis e diários como “dominantes”? É um julgamento que assume conhecer os motivos dos cão, quando na verdade, não fazemos ideia o que eles pensam. Existem dezenas de causas possíveis, funções ou motivos para qualquer problema comportamental.
Esta informação nova desafia-nos a interpretar o relacionamento social entre cães e donos numa forma mais sofisticada do que a simples dicotomia dominancia-submissão.
quinta-feira, 22 de maio de 2008
PARA ALÉM DO MITO DA DOMINÂNCIA: DE ENCONTRO A UM ENTENDIMENTO DO TREINO COMO UMA PARCERIA - por MORGAN SPECTOR
Introdução

Treinadores têm seguido um modelo de treino baseado nos comportamentos dos lobos, particularmente lobos Alpha. O centro deste modelo é a noção de “dominância”. Este modelo tem falhas conceptuais na medida em que se baseia em conceitos errados acerca do comportamento dos lobos, assim como conceitos errados acerca da interacção entre cães e humanos. Como uma espécie diferente dos cães, humanos não podem gerar comportamentos interespécies e esperar que esses comportamentos sejam interpretados como outra coisa senão agressão. Um modelo de treino mais preciso e produtivo é olhar o treino do ponto de vista da simbiose: uma cooperação interespécies baseada numa forma de benefício mútuo.
“Qual é, na realidade, o actual objectivo do treino? É que o cão só faça o que acharmos conveniente ou útil, e se iniba de fazer o que é inconveniente ou detrimental para nós. Este objectivo não pode ser totalmente compatível com o que é aceitável ou vantajoso para o cão em si...”..”...é apenas quando um cão aprende que a adopção ou abandono, mesmo que discordantes, duma certa acção é para a sua própria vantagem, que o treino pode prosseguir com uma base sã. Tal é o objectivo da compulsão.” (Most, pp.24-25)
“Koehler acredita que, contra o cepticismo dos dois ultimos dois séculos, obter absoluta obediência de um cão – e ele quer dizer absoluta – confere nobilidade, caracter e dignidade ao mesmo” (Hearne,p.41) No entanto nenhum dos programas directos e duros do Koehler ou dos voôs pedagógicos de Hearne responde a uma questão essencial: o que é que realmente dá aos humanos, o direito de inflingir métodos de treino em cães que só podem ser descritos como continuamente duros e fisicamente punitivos? Longe de conferir “nobilidade, caracter e dignidade ao cão” estes métodos deixam de facto o cão sem espaço para fazer nada a não ser tornar-se um subserviente sob a constante ameaça da do castigo.
Os monges acreditam na teoria de que “desde que deprivamos os cães, através da domesticação, da sua vida normal em matilha, o cão adoptou-nos como a sua nova matilha. Um cão vê as pessoas nas suas vidas como companheiros dentro dessa matilha. Assim que o cão entende isto, ele pode começar a entender métodos de treino que, enquanto incluem o cão na matilha, diminuem a sua posição hierárquica.” (Monks at 13).
“ Numa matilha de cães novos, lutas ferozes ocorrem para decidir como se irão colocar na hierarquia da matilha. E numa matilha composta por homens e cães, competição canina por importância e status é aos olhos do treinadore clara... Tal como numa matilha de cães, a ordem da hieraquia numa combinação homem e cão só pode ser estabelecida por força física, ou seja por uma actual luta, na qual o homem sai instantaneamente victorioso. Tal resultado só pode ser obtido convencendo o cão da absoluta superioridade física do homem. De outra forma o cão lidera e o homem segue. Se um cão mostra o sinal mais vago de rebelião contra o seu treinador ou lider, a superioridade física do homem como líder da matilha tem que ter expressão imediata da forma mais clara possível.” (Most em 35).
Coppinger, Raymond & Lorna: Dogs – A Startling New Understanding of Canine Origin, Behavior & Evolution
Dunbar, Dr. Ian: Dog Behavior – Why Dogs Do What They Do ©1979, TFH Publications
Hearne, Vicki: Adam’s Task: Calling Animals by Name ©1982, HarperPerennial
Koehler, William: The Koehler Method of Dog Training ©1962, Howell Book Publishing
Lindsay, Steven R. Applied Behavior and Dog Training, Vol. II ©2001, Iowa State University Press
Monks of New Skete, How To Be Your Dog’s Best Friend ©1978, Little Brown
Most, Col. Konrad: Training Dogs – A Manual ©1954 Popular Dogs Publishing Co. Ltd., London; Reprinted 2000
by Dogwise Publishers
As Falhas da teoria da Dominância

Conseguimos compreender os erros no paradigma de dominância se primeiro entendermos que a “dominância” é na realidade um conjunto de comportamentos que podem ser identificados e como tal modificados. E que em quase todos os casos, este conjunto de comportamentos existe dentro de um ainda mais largo spectrum de comportamentos disponíveis e exibidos pelo cão dentro do contexto de relacionamentos sociais no qual o cão opera. Nesta perspectiva, a maior falha no “paradigma da dominância” é incluir a família humana como parte da matilha. A segunda é classificar um dado cão como “dominante”. Relacionado com isto vem a terceira falha, ver a “dominância” como se fosse uma desordem psicológica ou condição na vez dum conjunto de comportamentos exibidos pelo cão em resposta à situação na qual vive.
Falácia Um: Que a família faz parte da Matilha ou “Pack”
Cães e humanos são estranhos um para o outro e as nossas sociedades têm diferentes regras e morais. Se a nossa casa fosse de facto uma matilha canina então deveriamos esperar ter que viver sob as regras dos cães, e isso é claramente impossível. Os cães devem viver sob regras humanas, o que quer dizer que os cães têm que abdicar dos seus modos normais de interacção uma vez que estão a interagir com humanos e não com outros cães. Este facto, só por si diz-nos que o nosso relacionamento com os cães não é intraespecies mas sim interespecies. As mesmas acções que, se dirigidas por um membro de uma espécie contra outro membro da mesma espécie levariam a algum tipo de estabelecimento hierárquico, tomam outro significado diferente quando feitos por um membro de uma espécie contra outro de uma espécie diferente. Como sugere Lindsay, os nosso actos de “disciplina” física são de facto uma forma de agressão interespecies.
“Deveriamos também reconhecer que ninguém realmente sabe o que significa ‘dominante’. ‘Dominância’ tornou-se uma palavra cliché para abrangir uma grande variedade de comportamentos e ‘atitudes’, muitas das quais podem ser explicadas e compreendidas sem qualquer referência à ‘dominância’. Também temos um problema semelhante com os termos ‘agressão’ e ‘submissão’”. O problema é exemplificado pela evolução de frases como “agressão submissiva” que quase defia o bom senso. A noção de hierarquias tem sido abusada. Na grande maioria, os cães parecem viver em relativa harmonia com cada membro do seu grupo, cada um geralmente vivendo a sua vida com aparente desinteresse nos assuntos dos outros.” (Dunbar,p.85)
O conceito de “alcateia/matilha” tem um valor metafórico limitado. Nem sequer exprime com precisão o leque de comportamentos dentro de um dado grupo de lobos (Coppinger, pp. 66-67).
Falácia Dois: Classificar um dado cão como “Dominante”
“ A noção tradicional de interacção entre cães é de uma relação dual entre dominante/subordinado. Isto significa que quando dois cães se encontram, um domina o outro. Isto é uma formula útil para análises iniciais, mas de longe muito simplista e rígida para totalmente explicar uma situação complexa.” (Dunbar, pp. 88).
Qualquer cão pode ser dominante ou submisso em dada altura dependendo da situação. O aparentemente cão submisso pode na realidade controlar muitas interacções (Dunbar, 88-89). É verdade que alguns cães têm personalidades mais assertivas do que outros, mas no que toca ao treino não ajuda classificar tal cão como “dominante”. O cão com a personalidade mais forte (i.e. “dominante”) poderá também ser o mais receptivo ao treino assim como aquele com mais vontade de trabalhar.
Dominância é considerado uma característica problemática e torna-se no prisma através do qual nós identificamos um determinado cão, tal qual se disessemos que um humano tem uma “personalidade de risco” ou “maniaco-depressivo”. Se a dominância fosse um tipo de patologia, então como poderia o treinador lidar com ela? Não podemos colocar o cão “no sofá”do psicólogo. Tudo o que podemos fazer é suprimir as tendências dominantes do cão (assumindo claro que isto é sequer possível), e isto leva inevitavelmente ao castigo físico.
Sendo assim não é de admirar que os Monges devotem 5 páginas do seu livro á recompensa (Monks, pp.36-40) e 11 páginas à disciplina física (Monks,pp.40-50), dando instruções minuciosas da mecânica de como bater num cão debaixo do queixo, do “shakedown” (abanão do cachaço) e do Alpha Roll. Ironicamente, como nota Lindsay, este tipo de acções é muito provavelmente percebida pelos cães como ameaças físicas, desencadeando acções agressivas ainda mais fortes (Lindsay, 168).
Nós iremos interagir melhor se nos focarmos no comportamento e não na “atitude” dos nosso cães.
Um bom treino parte deste pressuposto e torna-se numa troca na qual o humano diz ao cão “dás-me o que eu quero e eu dou-te o que tu queres”. O cão em retorno, aprende a “dizer” a mesma coisa ao humano. Isto cria uma parceria benéfica na qual “dominância” é totalmente irrelevante.
REFERÊNCIAS
Coppinger, Raymond & Lorna: Dogs – A Startling New Understanding of Canine Origin, Behavior & Evolution
Dunbar, Dr. Ian: Dog Behavior – Why Dogs Do What They Do ©1979, TFH Publications
Hearne, Vicki: Adam’s Task: Calling Animals by Name ©1982, HarperPerennial
Koehler, William: The Koehler Method of Dog Training ©1962, Howell Book Publishing
Lindsay, Steven R. Applied Behavior and Dog Training, Vol. II ©2001, Iowa State University Press
Monks of New Skete, How To Be Your Dog’s Best Friend ©1978, Little Brown
Most, Col. Konrad: Training Dogs – A Manual ©1954 Popular Dogs Publishing Co. Ltd., London; Reprinted 2000 by Dogwise Publishers
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