O MITO DO MACHO por Dr. Ian Dunbar


A estrutura social do cão doméstico é muitas vezes descrita em termos de uma dominância hierárquica linear, na qual o cão de topo, ou o “animal alpha”, é dominante sob todos os outros animais, segundo cão mais dominante é-o sob todos os outros que estão abaixo dele, e por aí fora até ao cão que está mais baixo na hierarquia. Também é de crença popular:

1. O status é estabelecido e mantido pela força física e a dominância.
2. Os cães mais agressivos são maisdominantes.
3. O cão mais dominante é o mais agressivo. Sendo assim cães que frequentemente ameaçam, rosnam, lutam e mordem são muitas vezes determinados como os animais “alpha”.

A maioria das afirmações acima ditas, são muito duvidosas. Não só traem através duma visão teoricamente simplista, uma estrutura social complexa, mas também tendem a ser contraprodutivas, unhumanas e perigosas quando extrapoladas e aplicadas ao treino canino ou à resolução de problemas comportamentais.

STATUS SOCIAL E AGRESSIVIDADE

É geralmente assumido que um status elevado, está directamente relacionado com comportamento agressivo. Na realidade, um cão com uma posição hierárquica alta e agressivo é muito raro. Os cães de status hierarquico alto raramente sequer rosnam – é que não precisam! O cão que realmente está no topo da cadeia hierarquica é normalmente calmo, seguro e confiante da sua posição privilegiada e não tem necessidade de andar a “anunciá-la” através de comportamentos agressivos ou exibicionistas. Nas palavras da psicóloga Dr. Linda Carlson, “Se a tens não tens que a anunciar”. Um verdadeiro cão de topo é bem mais capaz de partilhar um brinquedo, um osso ou um local de dormir, do que lutar por isso. Por outro lado, cães que se encontram no fundo da cadeia hierárquica também raramente rosnam ou lutam. A directiva base de um animal de baixo status é ser discreto. Ladrar, rosnar e arreganhar os dentes apenas chama atenção indesejada e se chegasse a desencadear uma luta, o cão mais baixo na hierarquia provavelmente perderia.

Um cão de tipo tem pouca ou nenhuma necessidade de ameaças e um cão com baixo status será louco se o fizesse. Sem dúvida nenhuma rosnos excessivos e lutas repetidas é indicativo de insegurança e incerteza quanto ao seu status social com outros cães. Dentro de um grupo social, demonstrações prolongadas e tempestuosas de agressão são característica dos cães que se encontram no meio duma cadeia hierarquica. Este cães, ameçam mais e lutam com mais frequência que os cães de topo ou os que estão mais abaixo.

HIERAQUIA SUBORDINADA

Quando a funcionalidade de uma hierarquia é vista dentro dum contexto de desenvolvimento saudável, torna-se aparente que a “hierarquia subordinada” é um termo mais descritivo para uma estrutura social canina. Esta permissa foi primeiro sugerida pela primatologista inglesa Dra. Thelma Rowell. A manutenção de uma hierarquia, depende do respeito existente pelos indivíduos que estão no topo. O status quo é mantido porque, os indivíduos de status baixo raramente desafiam a autoridade e como tal raramente é necessário reforçar o status do topo com manifestações físicas, ou dominância psicológica.


DESENVOLVIMENTO DE HIERARQUIAS

Crescendo rodeados de adolescentes e adultos, os cachorros não podem competir na cena social em vista do seu tamanho baixo ou força física e psicológica inferior. Sendo assim, os cachorros aprendem qual a sua posição na vida, muito antes de serem suficientemente grandes e fortes para se tornarem uma ameaça à ordem já estabelecida. A maioria dos cães adultos são bastante benevolentes com os cachorros até estes chegarem à adolescência, quando os adultos (maioritariamente os machos) perseguem os adolescetntes. Mesmo assim, esta perseguição feita por cães adultos é maioritaramente psicológica e não física. Apenas um cão adulto com problemas sérios e preverso iria fisicamente desafiar cachorros.

Apesar de tudo isto, durante este estágio crucial do desenvolvimento hierarquico, cachorros e adolescentes são intimidados pelo incessante tormento dos adultos e consequentemente aprendem a responder com gestos exagerados de conciliação para apaziguar os mais velhos. Aliás os mais novos rapidamente aprendem a demonstrar gestos de conciliação antes de serem confrontados. As “desculpas” precoces dos mais novos, normalmente caracterizam-se por: encolher do corpo, aproximar em ziguezague com as orelhas para trás, sorriso “submissivo”, e abanar da cauda e das ancas traseiras. O mais novo pode ainda abanar a pata e lamber o focinho do mais velho (este sinais que quando os cachorros são mais novos são usado para solicitar comida, são agora característicos de neotenismo dos cães como adolescentes e adultos). Poderão também erguer a perna e expor os seus genitais e outros poderão até urinar (cães adultos poderão determinar a idade de um cachorro através do cheiro da urina do mais novo).

MANUTENÇÃO DA HIERARQUIA

Lutas e dominância física raramente fazem parte da manutenção de uma hierarquia. Pelo contrário, a função princpial duma estrutra hierárquica funcional é diminuir o número de conflitos e lutas. Uma vez estabelecida, a hierarquia dá muitas das respostas antes que os problemas surjam. Por exemplo, quando existem dois cães mas apenas um osso, o osso está já decidido para quem vai através da estrutura hierarquica e como tal não existem motivos para lutas. Problemas semelhantes são também resolvidos desta forma em hierarquias humanas. Por exemplo, numa empresa grande, o problema de apenas um só lugar de estacionamento e dois carros, normalmente não existe conflito porque quem estaciona será sempre quem tem um status mais elevado na empresa. Afinal de contas quem no seu estado normal iria estacionar no local do seu patrão?

Este conceito aplica-se aos cães. Desentendimentos acerca de posições hierarquica, dominância e agressão tendem a causar lutas, que são largamente o produto de falta de socialização e da mistura de cães socialmente não preparados. Para mais, noções erradas do comportamento social canino tendem a criar donos de cães machos,que permitem e/ou encorajam os seus cães a rosnar, porque assim pensam que têm um cão muuuuuuito maaaau! Este tipo de pessoa – usualmente um adolescente homem (entre 13 e 59 anos de idade), que detêm cães de uma ou duas raças específicas que não vale a pena mencionar – podem tornar-se um problema. No entanto, é possível fazer estes tornarem-se espertos com um elogio/insulto tal como “Que cão magnífico! Que pena que rosne e ladre tanto.Talvez possamos melhorar a confiança do seu cão e torná-lo num cão de topo, porque cães de topo não fazem este barulho todo sabe? Eles não precisam!”. Eu nunca me paro de surprender pela quantidade de donos de cães que inicialmente parecem impenetráveis e se tornam excelentes exemplos para qualquer pessoa.

Infelizmente, o verdadeiro perigo do conceito do cão “alpha” e da dominância reside na extrapolação questionável feita no mundo do treino canino e dos donos de cães. Na vez de serem educacionais, muitos dos chamados “métodos de treino” são simplesmente antagônicos e abusivos; o cão é muitas vezes visto como o nosso inimigo na vez do nosso melhor amigo. Muitos gestos brincalhões, de cumprimento ou de medo são mal-interpretados como sendo agressivos, dando ao dono desprevenido uma desculpa conveniente para abusar o cão sob o pretexto de “treino”.

Por exemplo, arreganhar os dentes, levantar do pêlo e rosnar são muitas vezes, erradamente, tidos como sinais de dominância, enquanto que são, na realidade, muitas vezes sinais de medo – muito provavelmente resultado directo de uma pessoa bater no cão. Da mesma forma, donos são avisados que marcar território com urina, “montar” as pessoas, roubar comida, saltar para cima das pessoas e contacto visual prolongado são também sinais de dominância pelos quais o cão deve ser castigado. Este conselhos são errados, “maus” e confusos e tiram o divertimento todo de sermos donos de cães. No meu livro:

· Um cão que marca território dentro de casa, precisa de ser treinado a fazer as necessidades lá fora
· Um cão que monta as pessoas, a) precisa de ser ensinado a parar e b) necessita ser apresentado a outro cão socialmente inclinado a essa interacção
· Um cão que rouba comida, a) está desesperadamente a precisar de um dono que se lembre de colocar a comida longe do alcance do cão, b) precisa de uma apresentação ao método de ensino de um comportamento alternativo
· Um cão que salta, simplesmente precisa de ser ensinado a sentar-se quando conhece pessoas
· Um cão que olha fixamente para um humano, a) precisa de aprender que olhar nos olhos de uma pessoa não é uma ameaça, b) afastar ou olhar para outro local sob comando e c) aprender a olhar para os olhos do seu dono de forma pacífica

Certamente que precisamos de controlar os nossos cães, mas o que é preciso é um controlo mental e cooperativo e não uma dominação física. Apesar de o dono de um cão poder abaná-lo, rolá-lo pelo chão, ou batê-lo até à submissão, qual é o objectivo de ganhar a batalha e perder a guerra? Que possível vantagens existirão em converter um hipoteticamente “dominante” num cão medroso. Para além disso a maioria das correcções físicas estão muito para além das capacidades mentais e físicas da maioria das donos de cães comuns. E porquê aconselhar os donos a entrarem numa disputa física com o cão, que muito provavelmente está já perdida? De facto, porquê abusar o cão, quando é possível atingir o mesmo resultado usando a inteligência na vez da força?
Devemos aconselhar métodos de treino que são efectivos e que estão nas capacidades de todos os donos de cães, incluindo mulheres, crianças e idosos. Se aprendemos alguma coisa ao estudar o comportamento canino foi que na vez de bater nos cães até à submissão, é muito mais fácil convencê-los a juntar-se a nós, para que goze da sua vida ao nosso lado, na vez de lutar contra nós.




Ian Dunbar Ph D., BvetMed MRCV

Comentários

MCunha disse…
Plenamente de acordo.
Gostei imenso do artigo.
Mais uma vez PARABÉNS, Claudia, pelo trabalho desenvolvido ;)

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