Destruindo o Mito da Dominância por Carmen Buitrago

Destruindo o Mito da Dominância
Por Carmen Buitrago, CPDT, CTC



Já alguma vez pensou se o seu cão é dominante? Provavelmente que sim, uma vez que no último meio-século, cada problema comportamental canino desde urinar dentro de cada a sair pela porta da frente, tem sido explicado como um problema de “dominância”.
O seu cão rosna ao visitantes? Dominância, dizem os seus amigos bem intencionados. Não vem sempre que é chamado? Está a dizer-lhe que é o chefe, de acordo com livros de cães populares. Ela puxa na trela ou salta para dizer olá? Está a declarar o seu status de alpha. Ele prefere estar em cima de sofás do que no chão? Cuidado!


Talvez o comportamento mais estranhamente atribuido à dominância tenha sido o da coprofagia.

Então como é que o paradigma da dominância se tornou a etiqueta mais popular dentros do mundo canino?


Tratamento de Choque


Muitos autores e treinadores aconselham os donos dos cães a forçar os seus cães a terem posições submissas, por vezes forçando-os, ao ponto de criarem respostas de medo. Hoje, alguns treinadores chamam a isto exercícios de “gentling” ou “calma submissiva” e usam-nas até com cachorros.

Por exemplo, virar o cachorro de barriga para cima, e não largar até que este pare de resistir. A explicação por trás deste exercício é simples: ao forçar um cão a assumir uma postura submissiva e depois recompensá-lo por aceitá-la, estamos a ensinar o cão a submeter-se á sua liderança.


Mas note que essa liderança é ganha através da força. Na sociedade canina, a liderança não é obtida através da dominação física. E um grande número de cães com temperamentos sociais normais, irão naturalmente resistir ser forçados a estar de barriga para cima, mesmo ao ponto de exibirem agressão defensiva.

Os humanos não são muito diferentes neste aspecto. Imagine como reagiria se o seu patrão tentasse estabelecer a sua “liderança” através do uso da força física!
Alguns ditos “experts” sugerem o uso de técnicas violentas como o abanar do cachaço do cão e alpha rolls. No extremo, outros treinadores advocam métodos assumidamente abusivos tais como o uso de coleiras de engasgo, muitas vezes “pendurando” o cão até que este perca a consciência.

Estas técnicas são consideradas aceitáveis para o tratamento de problemas tão simples como cavar buracos no quintal ou para os mais sérios como a agressão.


Falhas na interpretação das matilhas

Infelizmente, a nossa preocupação colectiva com a dominância canina não nos ajuda em nada nem a nós nem aos nossos cães. Para começar, é baseada num conceito antiquado e sem sentido.
O Dr. Ian Dunbar demonstra as 3 maiores falhas nos estudos das alcateias de lobos durante os anos de 1930 e 1940. Em primeiro estes estudos eram curtos e focados num só aspecto da vida dos lobos, a caça. Como resultado, os estudos recolhidos eram uma fraca representação e as conclusões eram inexactas acerca do comportamento do lobo (e mais tarde do cão).
Em segundo os investigadores observam rituais, e interpretam-nos incorrectamente. O bulco da mitologia da dominância provém destas interpretações erradas.
Tomemos por exemplo os alpha rolls. Os investigadores mais antigos pensavam que o lobo alpha forçava os outros lobos rolando-os para uma posição subordinada para exercer a dominância. Estudos modernos mostraram que o suposto “alpha roll” não passa de um ritual de apaziguamento oferecido voluntariamente pelo lobo subordinado e nunca forçado pelo superior.
A especialista em comportamento canino Jean Donaldson, autora do livro premiado “The Culture Clash”, diz, “A verdade é, não existe nenhum caso documentado de um lobo a forçar outro lobo a rolar-se no chão. Nem existe nenhum caso de uma mãe lobo (ou cadela) a abanar as suas crias pelo cachaço.”
A terceira falha é a de que os investigadores extrapolaram excessivamente a informação. O seu primeiro salto na lógica foi aplicar as suas conclusões falsas ao cães. O segundo foi aplicá-las às interacções humano-caninas.

Cães não são lobos disfarçados

O facto é que cães não são lobos. Lobos são só os familiares mais próximos dos cães – tais quais os chimpanzés são os nossos familiares mais próximos – mas os cães tornaram-se numa espécie diferente hà possivelmente 135,000 anos atrás. Apesar dos cães reterem algumas características dos lobos e de outros canídeos, milhares de anos de domesticação, co-evolução com humanos e criação selectiva, mudou-os profundamente.
Ian Dunbar disse: “ Dizer que quero interagir melhor com o meu cão, por isso vou estudar os lobos, faz tanto sentido como dizer, quero melhorar a forma como lido com os meus filhos – vamos ver como os chimpanzés o fazem.”


Aplicar estudos feitos em lobos a interacções humano caninas não faz sentido, de acordo com Dunbar. Apesar das provas, livros e métodos abundam em recomendar os donos a serem o “líder da matilha”. Estes aconselham relacionamentos conflituosos entre cães e humanos e métodos de treino combativos que se baseiam na força, castigo e mesmo na dor. Afinal de contas, a força é tida como necessária e essencial para colocar cães ambiciosos no seu lugar.


No seu livro “Dog friendly dog training”, Andrea Arden escreve, “Na vez de ensinarmos os nossos melhores amigos, eramos aconselhados a dominá-los fisicamente para os manter na linha.”

Em contraste com o mito popular dos lobos (e cães), a estrutura social de ambos é muito mais complexa, flexível e subtil.

Líder Benevolente

Baseado em estudos caninos muito mais longos e dedicados, cientistas aprenderam que a marca do verdadeiro líder é a capacidade de controlar, sem o uso da força, como afirma a Dra. Myrna Milani, veterinária e comportamentalista. Ela aponta que, na selva os animais que lideram com a força bruta têm menos chances de se procriarem dado o risco maior de morte, ferimentos e predação.

Ao invés, a vasta maioria de lobos alpha são benevolentes. Raramente entram em combates físicos para reforçar a sua posição. Não precisam. Lideram através de um controlo psicológico subtil. Tal como postura confiante, olhares fixos, vocalizações, etc...
É um ritual. As interacções diárias são baseadas largamente em comportamentos diferenciais e cooperativos, e os conflitos são resolvidos através de exibições físicas designadas a inibir a agressão e eliminar as ameaças.

Sendo assim, apesar do mito popular, alpha não quer de forma nenhuma dizer fisicamente dominante ou mais agressivo. Quer dizer controle de recursos. Um lider é aquele que ganha acesso aos recursos que ele ou ela acham importantes. Isto também é flexível. Muda de acordo com a motivação do cão em dado momento ou situação. Sendo assim um cão dito alpha poderá facilmente dar o seu local de dormir preferido ou o seu melhor osso a outro cão sem problemas.


Mantendo a ordem através da submissão

Outra assumpção da teoria da matilha, é a que os lobos, e como tal os cães, se organizam num hierarquia dominante fixa – tal como as galinhas, na qual os animais dominantes mantêm a ordem através de ameaças.
Os especialistas agora concordam que os lobos formam uma hieraquia não linear, dentro da qual os animais subordinados mantêm a ordem através de exibições activas e voluntárias de submissão e diferencia.

Jean Donaldson oferece o Exército como analogia humana. Os soldados de ranking mais baixo primeiro saúdam os seus superiores e recebem de volta uma saudação. Esta é uma hieraquia classica de apaziguamento. Um general não entra numa sala e desata a bater nos soldados para que estes mostrem a sua submissão. Basta ele aparecer e toda a gente saúda.

Mas indo mais além das observações do comportamento do lobo, investigadores modernos estudaram o comportamento de cães de aldeias selvagens para melhor tentar entender a estrutura social canina.

Estes cientistas observaram estruturas sociais soltas, flexíveis e imprevisíveis. As estruturas observadas eram determinadas mais por factores como a disponibilidade de comida e interacção humana do que por um sentido inato de hierarquia social. Estes mesmo cientistas agora reforçam a importância de tratar o cão doméstico como uma espécie diferente do lobo e não uma imagem distorcida deste.

Problemas com a etiqueta “Dominante”

Outra grande falha na teoria da dominância é o termo em si mesmo. Um dos pilares da ciência são definições precisas e não ambíguas. Termos etológicos tais como dominância não são definições precisas mas sim ideias usadas para nomear e explicar um grupo de comportamentos. Um problema com estas ideias, apontam os psicólogos Drs. Garry Martin e Joseph Pear, é que geram raciocínios circulares.
Por exemplo, um cão que rosna quando alguém se aproxima do seu prato de comida, poderá ser determinado como dominante. Se perguntar ao dono porque é que o cão rosna, ele responderá “Porque é dominante”. Sendo assim a ideia torna-se uma pseudo explicação para o comportamento.

A ideia também vai afectar a forma como o animal é tratado. O paradigma da dominância tem sido usado para justificar castigos aos cães, especialmente àqueles que reagem defensivamente a métodos de treino punitivos. Também serve para fazer com o focus esteja no comportamento problemático, ao invés de ensinar e recompensar comportamentos que queremos ver mais.
Um outro termo relacionado com esta questão, é agressão dominante. O que quer dizer isto? Não existe consenso científico nenhum em como se poderá academicamente definir agressão dominante, muito menos como identificá-la no mundo real e no dia-a-dia.
Se um comportamento tão óvio como a agressão é tão difícil de caracterizar, quão correcto será determinar comportamentos tão subtis e diários como “dominantes”? É um julgamento que assume conhecer os motivos dos cão, quando na verdade, não fazemos ideia o que eles pensam. Existem dezenas de causas possíveis, funções ou motivos para qualquer problema comportamental.

Para além do preconceito

Em muitos casos de agressão, a história e descrição do comportamento do cão é inconsistente com a noção tradicional de dominância. Os então chamados de “cães dominantes” mostram muitas vezes sinais comunicativos corporais de ambivalência, medo e ansiedade. Podem tremer e agir de forma submissiva durante e depois de uma mordida. Estudos mostram que cães que demonstram “agressão dominante” são menos exercitados, são mais medrosos de pessoas, são mais excitáveis e reagem mais a sons agudos. Isto isto é inconsistente com a noção do cão dominante e sugere que existem outros factores que jogam no comportamento agressivo.
Esta informação nova desafia-nos a interpretar o relacionamento social entre cães e donos numa forma mais sofisticada do que a simples dicotomia dominancia-submissão.

Felizmente, a ciência do comportamento e a maioria dos treinadores de cães afastam-se já deste paradigma. Um novo termo que está a ser usado para descrever agressão-dominante é o de agressão relacionada com status. O tratamento foca-se no ensino e recompensa do cão quando este exibe comportamentos desejados, indepentemente do status. Também procura identificar as possíveis causas para os comportamentos problemáticos, tais como medo ou ansiedade, socialização pobre, aborrecimentos, falta de exercício físico, pouca interacção social ou falta de treino.

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