Revisão do livro Cesar’s Way por Pat Miller


Uma revisão do livro feita por Pat Miller


Quase todos os livros de treino canino têm algo a oferecer ao leitor, e o livro Cesar’s Way não é excepção. O ponto forte do livro é ser a autobiografia do treinador de cães, estrela de um programa da televisão da National Geographic, Cesar Millan. Se estiver curioso em saber como é que Millan chegou onde chegou hoje, este livro dir-lhe-á. Se está à procura de ajuda para treinar o seu cão, nesse caso, procure outro livro.
Muitos na comunidade científica comportamental vêm as consequências da “forma” do Cesar copm trepidação. Numa entrevista publicada no New York Times em Fevereiro deste ano, o Dr. Nicholas Dodman, director da Clínica de Comportamento Animal na Universidade de Tuft’s, escola de Medicina Veterinária, observou, “O meu colégio acha que é um travesti. Nós escrevemos ao canal National Geographic e dissemos-lhe que arrastaram o treino canino 20 anos para trás”.
Millan prova ter muito pouco ou nada no que toca a informação relativa a treino, oferecendo em vez disso generalizações acerca de como se projectar “energia calma-assertiva” – uma frase chave usada por Millan – e em instigar essa “energia, calma e submissa” no seu cão. Por exemplo, no capítulo 8 ele oferece “Dicas Simples para viver feliz com o seu cão”. As suas “regras da casa” incluem:


“Acorde nos seus termos, não nos do seu cão... condicione-o a sair da cama com calma se acordar antes de si.”
“Não permita posessão sob brinquedos e comida!”
“Não permita que ladre fora de controle”.


Bons conselhos, talvez, mas, em nenhuma parte do livro ele explica como se consegue estas coisas, para além de se usar uma energia calma e assertiva.
Millan é confiante. Ele assume a sua “politicamente incorrecta” dependência na já ultrapssada teoria da dominância, dizendo “ Para os cães existem apenas duas posições num relacionamento: líder ou liderado. Dominante ou submissivo. Ou é preto ou é branco.”
No mundo de Millan, todos os comportamentos são abordados em termos de dominância e submissão. Ele até usa o alpha roll como parte do seu “ritual de dominância”; esta técnica – forçar um cão a colocar-se de lado ou de costas e segurá-lo nessa posição – é considerado por muitos uma prática perigosa baseada em interpretações erradas de comportamentos dos lobos. Já hà muito tempo esta teoria caiu em descrédito juntos dos treinadores que usam métodos baseados na ciência do comportamento e aprendizagem animal.
Quando Millan fala de “energia”, os treinadores que se baseiam na ciência falam de comportamento e geralmente concordam que o status social dos grupos é fluído e contextual, não branco e preto. Modificação comportamental realmente efectiva e com efeitos a longo termo, requer uma aproximação muito mais estudada e complexa do que simplesmente impôr dominância.
A interpretação da linguagem canina diverge também grandemente. Millan refere-se no seu livro a Kane, um Dogue Alemão que apareceu no seu programa de TV e que tinha medo de caminhar em chão de linóleo. Millan afirma que em menos de 30 minutos da sua influência calma e assertiva, Kane passeava confiante pelo chão de linoleo. Todos os treinadores que eu conheço e que viram aquele segmento do programa notas os sinais constantes de stress após a intervenção de Millan: cabeça e cauda baixa, abraçando a parede e arfando.
Millan refere os benefícios do exercício físico na modificação do comportamento canino, um conceito com o qual eu mesmo concordo. No entanto, o seu livro começa com uma descrição da sessão de 4 horas com a qual ele começa o seu dia com o seu pack de cães todas as manhãs nas montanhas de Santa Mónica no Sudeste da Califórnia, seguido de tardes passadas a andar de patins com esses mesmos cães, 10 de cada vez, nas ruas à volta do seu centro de treino.
Uma das chaves de um programa de treino bem sucedido é que dê ao dono comum de cão ferramentas que ele possa aplicar. E quantos donos de cães poderão passar seis horas por dia a exercitar os seus cães? Quantos é que poderão projectar “energia calma e assertiva”? O perigo do livro Cesar’s Way é que ilude as pessoas na idea que soluções rápidas e respostas rápidas existem e estão nas mãos de um homem sorridente naturalmente dotado de uma ilusiva energia calma e assertiva.
Na realudade, respostas são melhor encontradas na bonita complexidade da vida, onde as soluções não são muitas vezes rápidas e fáceis, mas são solidamente construídas com fundações fortes num entendimento de como o comportamento realmente opera.

Comentários

olá
gostei imenso do blog e da filosofia q lghe subjaz. se passar em lisboa diga para talvez podermos conversar sobre treino. de todo o modo algo q aprendi recentemente é que em vez de recompensa a palavra correcta é reforço e o uso desta palavra faz milagres na cabeça dos donos! os caes nao fazem coisas q lhes mereçem recompensas mas sim nos temos um criterio de um comportammento q queremos e é nossa conveniencia q ocorra com maior frequencia q outros e por isso o elegemos e o iremos rforçar!
p.s. a proposito da frase do inquerito.
Cps.
Eduarda Pires
dogsports.blogspot.com
Olá Eduarda, desculpe a demora na resposta. Concorda plenamente consigo quando diz que a palavra reforço faz magia, na vez de recompensa. Eu uso recompensa quando me convém, depende muito de quem está á minha frente se é que me entende.
Gostaria muito de trocar ideias consigo, adicione-me ao msn se o tiver e podemos ir conversando
claudiahoyle@hotmail.com
Este comentário foi removido pelo autor.
Mariana MT disse…
O mais triste nisso tudo é saber que fisiologicamente os animais precisariam sim de pelo menos 6 horas de excercício físico. Assim como o ser-humano, que invertendo toda uma ordem lógica hoej fica inerte dentro de um automóvel, ao invés de simplesmente caminhar.

Mas não. Continuamos sustentando esse absurdo de que qualquer pessoa, em qualquer situção e espaço pode ter um animal - principalmente quando assina um cheque gordo e leva para casa sua mercadoria, esperando que "esta" haja como mencionam os estudiosos da raça que adquiriu.

E a cada dia o animal fica mais e mais distante de sua natureza, tão simples, que teimamos em modificar para que um animal instintivo possa acompanhar nosso estilo de vida esquizofrênico.

Pobres desses bichos nesse mundo capitalista e hipócrita!

Mensagens populares deste blogue

5 mitos do cão "agressivo"

NÃO QUEIRA UM CÃO DE GUARDA Por Claudia Estanislau

Estimulação Mental com a Amanda