Sem rótulos por Alexandra Santos



Tentamos explicar muitos dos comportamentos dos nossos cães recorrendo a rótulos – roeu o sofá porque é vingativo. . . escondeu-se quando cheguei a casa porque sabe que fez asneira. . . rosnou-me quando me aproximei da comida porque é dominante. . .

Não sabendo analisar correctamente o que motiva os nossos cães a fazerem o que fazem, é normal encontrarmos algum conforto nos rótulos, pois sabemos o que significam e as nossas perguntas não ficam sem resposta. Sabemos o significado de ‘vingativo’, de ‘fazer asneira’, de ‘dominância’ (pensamos nós). Mas será que os rótulos têm alguma utilidade na modificação de comportamentos problemáticos? Se dissermos que o nosso cão rosna quando nos aproximamos da comida porque é dominante, qual é a solução do problema? Torná-lo menos dominante? E ao tornarmos um cão menos dominante não estaremos nós a ‘mexer’ numa série de comportamentos que não são problemáticos, deixando o comportamento problemático por resolver? Por mais confortantes que os rótulos sejam, não têm utilidade na modificação de comportamentos problemáticos.

Para além de pouco úteis, utilizamos alguns rótulos sem sabermos a sua definição. A dominância é um exemplo gritante. Se eu perguntar a 10 pessoas qual a definição de dominância, provavelmente obterei 10 respostas diferentes. Isto não me espanta, pois ainda não existe uma definição universal de dominância. Eis dois exemplos: dominância é agressividade (Wilson 1975); dominância é ausência de agressividade (Drews, 1993; Siiter, 1999). Pegando nestas definições contraditórias de dominância, posso dizer que o cão que rosna quando se aproximam da comida é dominante, mas só se a definição de dominância que tenho em mente for “dominância é agressividade”. Se a definição que tiver em mente for “dominância é ausência de agressividade”, não posso de maneira nenhuma afirmar que esse mesmo cão é dominante. Então, dependendo da definição de dominância com que estamos a trabalhar, podemos rotular o cão de ‘dominante’ ou ‘não dominante’ independentemente do comportamento problemático ser o mesmo.

Existe uma abordagem muito mais útil na modificação de comportamentos problemáticos, pois vai ao cerne do problema. Esta abordagem chama-se análise do comportamento.

Todos os comportamentos que o nosso cão emite têm um estímulo antecedente e uma consequência imediata.

Pessoa aproxima-se (antecedente) ---» cão rosna (comportamento) ---» pessoa afasta-se (consequência).

Um estímulo antecedente serve, simplesmente, para provocar um comportamento – aproximação à comida provoca o rosnar. . . tocar à campainha provoca o ladrar. . . e por aí fora. Mas o comportamento em si é sempre, mas sempre afectado pelo seu historial de consequências. Se a consequência de rosnar for o afastamento da pessoa, rosnar está a ser reforçado e será repetido de futuro, pois funciona na perfeição para o cão. Se a consequência de rosnar for a permanência da pessoa no sítio onde está, rosnar não está a ser reforçado, pois nada de diferente acontece quando o cão rosna. Na prática, a escolha de permanecermos imóveis quando o cão rosna pode ser imprudente, pois o cão pode investir. Para isso existem técnicas de modificação comportamental tais como o contra-condicionamento.

Na análise do comportamento o foco reside em manipular os estímulos antecedentes e as consequências, de forma a aceder ao comportamento problemático e modificá-lo. Esta manipulação só é possível após a identificação exacta do ‘pacote’ antecedente ---» comportamento ---» consequência. Como ‘vingativo’, ‘sabe que fez asneira’, ‘dominante’ e outros rótulos não têm lugar na identificação dos estímulos antecedentes, comportamento, e consequências imediatas, considero-os
inúteis, e potenciais indutores de erros de treino.

Alexandra Santos
Dip. ACP, Dip. ADT, Professional Member AABP
Copyright (c) 2009

Comentários

Casa do Pinhal disse…
Alexandra, obrigada por este excelente texto. Tenho aprendido imenso consigo.

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