Carta à SIC acerca do programa “O Encantador de Cães”

Quando o programa de Cesar Millan surgiu na SIC no programa da manhã de fim-de-semana, treinadores e especialistas da área do bem estar e comportamento animal em Portugal juntaram-se e escreveram uma carta expressando as preocupações e oferecendo alternativas. Infelizmente o programa prossegue na televisão.

A liberdade de cada um decidir que tipo de métodos aplicar no treino e educação do seu cão é imperativa, no entanto, é dever dos profissionais conhecedores da ciência da aprendizagem, bem-estar animal e comportamento canino informarem as pessoas para que possam fazer escolhas informadas e que sejam as melhores para os seus cães.

Algo que este programa falha redondamente em fazer nunca mencionando as dificuldades e possíveis consequências físicas ou comportamentais na aplicação destas técnicas, nem frisando os perigos inerentes ao uso de técnicas coercivas.

Acima de tudo, o programa é apresentado dentro da programação infantil, sujeitando as crianças a algo que não entendem e que irão replicar junto dos seus animais de estimação.

Em 2009 a Universidade da Pennsylvania publicou um estudo(1) efectuado durante um ano no qual avaliava o resultado da aplicação de técnicas aversivas no tratamento de animais agressivos.

Megan E. Herron autor do estudo diz: “O nosso estdo demonstra como o uso de métodos confrontacionais, sejam estes, olhar fixamente para o cão, bater-lhes ou intimidação usando manipulação física, é pouco eficaz na correção de comportamentos e leva ao aumento das respostas agressivas.”

Antes de procurar a ajuda de um veterinario especialista em comportamento canino, muitos donos de cães tentam técnicas para modificar o comportamento dos cães duma variedade de fontes. As recomendações muitas vezes incluem uso de técnicas aversivas listadas numa pesquisa, todas susceptíveis de provocar comportamentos defensivos e agressivos.

Algumas destas técnicas incluem:

- Dar um pontapé ou palmada ao cão

- Rosnar ao cão

- Retirar á força algo da boca do cão

- alpha rollover (fisicamente forçar o cão a ficar de lado)

- forçar o cão a deitar-se

- Agarrar no cachaço do cão e abanar

O uso comum destas técnicas nasce da ideia de que agressão tem raíz na necessidade de dominância social por parte do cão ou da falta de dominância social expressa pelo dono. Os proponentes desta teoria sugerem que o dono estabeleca um papel de “alpha” ou “líder da matilha”.

O propósito do estudo desenvolvido foi o de avaliar das consequências comportamentais e os riscos de segurança das técnicas historicamente usadas pelos donos de cães com problemas de agressão. Os veterinários concluíram no estudo que os animais continuam a ser agressivos a não ser que exista uma mudança na escolha das técnicas usadas.

O estudo que foi publicado na revista da Applied Animal Behavior Science também demonstra que o uso de técnicas não confrontacionais ou neutras tais como o aumento do exercício físico e o uso de recompensas e técnicas baseadas no reforço positivo originam muito poucas respostas agressivas e tendema ser mais eficazes no tratamento de problemas de agressão.

A Sociedade Veterinária Americana de Comportamento Animal (AVSAB) diz numa carta(2) aberta à Merial acerca dos métodos usados no programa Encantador de Cães:

“No seu melhor o programa entertem mas é enganador para a maioria dos donos de cães. As técnicas usadas pelo senhor Millan e a falta de informação contribuiram para o aumento da agressão e ansiedade ou resultaram em danos físicos quer para o animal como para os donos. Como veterinários praticantes todos nós infelizmente vimos casos destes com frequência.”

O Colégio Americano de Veterinários Comportamentalistas (ACVB), a Sociedade Veterinária Americana de Comportamento Animal (AVSAB) e a Sociedade de Técnicos Veterinários de Comportamento (SVBT) todos já falaram uniformemente contra as técnicas baseadas na punição aplicadas pelo Sr. Millan no seu programa de televisão “O Encantador de Cães”.

De acordo com um estudo publicado em 2009 (3) por académicos do Departamento de Ciências Clinico Veterinárias da Universidade de Bristol as relações individuais dos cães não são motivadas por um desejo de manter uma posição social num hierarquia, como transmitido no programa “O Encantador de Cães”.

Longe de serem úteis os académicos concluem que programas cujo objectivo é diminuir a dominância do cão vão desde inúteis na resolução de problemas comportamentais a serem mesmo perigosos e a piorarem os comportamentos agressivos a longo prazo.

Técnicas mostradas no programa como segurar o cão no chão, agarrar no cachaço do cão ou no seu focinho, ou fazer soar algo na cara do cão na grande maioria das vezes torna os cães ansiosos quanto ao comportamento das pessoas, escalando o comportamento de agressão defensiva.

A Dra Rachel, oradora sénior na Universidade de Bristol na área de Bem-estar e Comportamento de Animais de Companhia diz: “A própria ideia de que o comportamento dos cães é motivado por um desejo inato de controlar pessoas e outros cães é francamente ridícula. Subestima grandemente as capacidades comunicativas complexas e capacidade de aprendizagem dos cães. Essa ideia leva também ao uso de técnicas coercivas nos cães, que por sua vez comprometem o bem-estar dos animais e aumentam os problemas comportamentais”.

O Doutor Nicholas Dodman, Professor e Director do departamento de Comportamento Animal, Director da Clinica Veterinária de Comportamento na Universidade de Tufts e da Escola de Medicina Veterinária de Cummings diz acerca das técnicas do programa:

“As técnicas usadas pelo Sr. Millan são baseadas no flooding e na punição. Os resultados, embora aparentemente imediatos serão apenas transitórios. Os seus métodos, são ultrapassados e desactualizados e em muitos casos perigosos e desumanos. Você não quereria nenhum cão debaixo da sua esfera de influência. O mais preocupante é que os espectadores não conseguem ver os erros na forma como ele actua. Nós escrevemos ao canal da National Geographic e acusamo-los de atirarem o treino de cães vinte anos para trás.”

A Drª Sophia Yin, médica veterinária especialista em bem-estar e comportamento animal diz:

“Virtualmente há mais de 15-20 anos atrás todos os treinadores começavam a treinar usando os métodos demonstrados no programa “O Encantador de Cães”. A maioria dos cães eram treinados usando as mesmas técnicas que ele usa. Como resultado disso hoje em dia temos experiência e conhecimento para sabermos quais as consequências que o uso dessas técnias originam e porque é que outras técnicas funcionam melhor”.

A Associação Internacional de Consultantes de Comportamento Animal (IAABC) diz acerca do programa “O Encantador de Cães”:

“O programa tem um aviso que indica que ninguém deve replicar as técnicas usadas pelo Sr. Millan. AS crianças não irão entender este aviso.”

Em Portugal este programa está incluído dentro do horário de programação infantil e como tal os pais não vão perceber a necessidade de supervisionarem o visionamento do programa por parte das crianças. Vários estudos já demonstraram que o comportamento das crianças é directamente inlfluenciado por aquilo que vêem na televisão. AS técnicas usadas no programa podem levar a danos sérios. O próprio Sr. Millan foi já mordido em váriados episódios. No programa podemos ver

  • Uma criança de 10 anos a passear um Rottweiler de 70 Kgs
  • É pedido a uma criança que ande de skate perto de um cão com um longo historial de atacar agressivamente skates
  • É pedido a uma criança que se deite por baixo de um obstáculo de agility enquanto um Pastor Australiano com um historial medo a crianças salta por cima dela.

No programa também podemos ver o Sr. Millan a explicar como se usa uma coleira de choques, a levantar cães pelo cachaço e a levantar cães no ar seguros por estranguladoras. Uma criança que veja o programa pode facilmente replicar estas e outras técnicas em casa com os seus animais.

Estes são apenas alguns dos profissionais e grupos de profissionais que se expressam as preocupações que surgem no uso das técnicas empregues no programa. A escolha de passar este programa é uma baseada pura e unicamente na máquina de marketing que está na base do programa e no dinheiro que origina do mesmo. O bem-estar dos animais e/ou educação dos donos nunca foi objectivo na escolha do programa, ou todos estes profissionais não seriam ignorados.

Mais preocupante é que a SIC tenha escolhidos de forma negligente passar este programa num horário em que será visionado por crianças, com todas as consequências graves que daí advêm e sem se querer responsabilizar pelas consequências dessa decisão.

É com preocupação que peço que a SIC ouça estes profissionais, e que na pior das hipóteses retire o programa do horário em que se encontra de momento, dessa forma activamente salvaguardando o bem-estar de milhares de crianças e dos seus estimados animais de estimação e na melhor das hipóteses demonstre que realmente se interessa pelo bem-estar dos animais e educação activa e eficaz dos seus telespectadores e cancel o programa. Se a necessidade de um programa de treino de cães se demonstrar tão pronunciada programas de extremo sucesso televisivo como “Its me or the Dog” da Victoria Stillwell ou “Dogtown” podem se revelar alternativas viáveis e que não levantam preocupações quanto ao bem-estar e segurança quer dos animais, quer dos seus donos e companheiros humanos.

Atentamente

Claudia Pereira Estanislau, DTBC, IPDTA-CDT

(1) http://www.upenn.edu/pennnews/news/if-youre-aggressive-your-dog-will-be-too-says-veterinary-study-university-pennsylvania

(2) http://www.facebook.com/note.php?note_id=90029578219&id=44964919559&ref=share

(3) http://www.bristol.ac.uk/news/2009/6361.html

Para informações adicionais:

  • http://caosciencia.blogspot.com/2008/06/controvrsia-do-dog-whisperer-cesar_27.html
  • http://beyondcesarmillan.weebly.com/
  • http://www.nonlineardogs.com/

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