O QUE É QUE ACONTECEU AO TERMO LOBO ALPHA? por David L. Mech

O termo alpha aplicado aos lobos tem uma longa história. Durante muitos anos livros e artigos sobre lobos mencionavam o macho alpha e fêmea alpha ou o par alpha. Em muita literatura popular, o termo ainda é usado. No entanto, observadores interessados, devem ter constatado que nos últimos anos esta tendência começou a mudar. Por exemplo, 19 proeminentes biólogos que estudam somente lobos da Europa e da América do Norte não mencionam o termo alpha, nem uma só vez, num longo artigo sobre os pares procriadores de lobos. O artigo entitulado “Os efeitos da perda de procriação em lobos”, foi publicado em 2008 no “Diário de Gestão da Vida Selvagem”. Em 448 páginas, o livro de 2003” Lobos: Comportamento, Ecologia e Conservação”, editado por Luigi Boitani e por mim mesmo e escrito por 23 autores, o termo alpha é mencionado em apenas 6 ocasiões e todas elas para explicar porque é que o termo está desactualizado. Porquê?


Esta mudança na terminologia reflecte uma importante mudança na forma como pensamos sobre a estrutura social lupina. Na vez de vermos uma matilha de lobos como um grupo de animais organizados com um “chefe” que lutou até chegar ao topo, ou um casal de lobos tão agressivos que são quem “manda”, a ciência começou a entender que as matilhas de lobos, são meros grupos familiares formados exactamente da mesma forma que os grupos familiares humanos. Isto é, um lobo macho e fêmea maturos de grupos diferentes, dispersam-se dos seus grupos originais e viajam até se encontrarem um ao outro e uma área livre de outros lobos, com presas adequadas. Cortejam, procriam e produzem a sua própria ninhada.

Por vezes este processo implica apenas um lobo macho maturo que corteja uma fêmea matura de um grupo vizinho e depois o par estabelece-se num território perto de onde os grupos originais se encontravam. Em populações mais saturadas, isto pode querer dizer que os lobos têm que viajar grandes distâncias para encontrarem os seus pares e locais novos. Este é o processo que ajuda uma população crescente de lobos a expandir-se. Um bom exemplo é a crescente população lupina em Wisconsin. Ali, não só a grande parte da população de lobos se encontra na parte norte do estado continuando a encher o Norte com mais e mais grupos, mas os lobos conseguiram formar uma população separada na parte central deste estado através da dispersão e proliferação dos grupos. Actualmente cerca de 18 grupos vivem no centro do estado de Wisconsin.

Mas voltemos à família. Á medida que o par original cria as suas crias, estes alimentam-nos e protegem-nos como qualquer outro animal o faz com as suas crias. Á medida que as crias crescem e se desenvolvem, os seu pais naturalmente guiam as suas actividades, e as crias naturalmente seguem. Certamente à medida que as crias crescem, estas começam a desenvolver alguma independência, e alguns vagueiam temporariamente para fora do grupo explorando os caminhos. No entanto, os pais continuam a guiar o grupo, enquanto caçam, definem o seu território, afastam outros animais das suas presas e protegem o seu grupo de grupos de lobos vizinhos com os quais se podem encontrar.


Á medida que as crias se desenvolvem e chegam a 1 ano de idade, os seus pais produzem uma segunda ninhada, que se tornam então nos irmãos mais novos da 1ª ninhada. Novamente os pais continuam a guiar e liderar a velha ninhada assim como a nova ninhada e mantenhem-se os líderes da matilha. As crias mais velhas naturalmente “dominam” os irmãos mais novos, da mesma forma que os irmãos e irmãs mais velhas numa família humana “dominariam” os seus irmãos mais novos, mas continua a não existir nenhuma batalha para “ganhar liderança”; essa mantém-se naturalmente com os pais. Algumas das crias mais velhas começam a dispersar entre o 1º e o 2º ano de idade em algumas populações e noutras poderão manter-se no grupo original até aos 3 anos de idade. No entanto, eventualmente quase todos se dispersam e tentam encontrar um companheiro e começar os seus grupos e matilhas.

Dada esta história natural do lobo, faz tanto sentido referirmos os pais de um grupo de lobos como os alphas como referir os nosso próprios pais humanos como alphas. Sendo assim agora referimo-nos a estes animais como o macho que procria e a fêmea que procria ou o par que procria ou simplesmente os pais.

Na vez de ver uma matilha de lobos como um grupo de animais organizados com um líder que lutou com todos até chegar a essa posição, ou com um par macho e fêmea agressivos, a ciência entendeu que a maioria das matilhas de lobos são simplesmente famílias formados exactamente da mesma forma que as famílias humanas se formam.


Então como é que a ciência esteve tão “enganada” durante tanto tempo em referir-se aos lobos como alphas? A resposta inclui uma história que ilustra de uma forma bastante interessante a forma como a ciência evolve.
Várias década atrás, antes de existirem muitos estudos feitos com lobos no seu ambiente natural, os cientistas que se interessavam pelo comportamento social animal pensavam que as matilhas de lobos eram um agrupamento aleatório de lobos que se encontravam no inverno de forma a caçarem melhor em grupo. Sendo assim, de forma a estudar lobos, a única forma que eles conheciam na altura, era escolher uma série de lobos aleatoriamente de variados jardins zoológicos e juntá-los numa colónia captiva em ambiente controlado.


Claro, quando alguém coloca artificalmente um grupo aleatório de indivíduos juntos, seja de que espécie forem , estes animais irão naturalmente competir uns com os outros de forma a criar uma espécie de hierarquia. Isto é o mesmo fenómeno da hierarquia linear existente e originalmente observada nas galinhas. Em tais casos, é apropriado referir aos indivíduos que estão no “topo” como alphas, implicando que competiram e lutaram para ganhar acesso a essa posição. E assim era com os grupos aleatórios de lobos colocados juntos artificialmente.


Sendo assim, os principais cientistas que estudaram os lobos em captividade, tais como Rudolph Schenkel, publicaram uma famosa monografia descrevendo as interacções dos lobos uns com os outros, neste tipo de grupos, afirmando de que existe uma fêmea e um macho que lideram e referindo-se aos mesmos como alphas.
Esta monografia clássica foi a principal peça de literatura sobre os grupos sociais de lobos na altura em que eu escrevi o livro O Lobo - Ecologia e Comportamento de uma raça em perigo nos finais de 1960. Este livro foi uma síntese da informação acerca dos lobos que existia na altura, como tal eu mesmo incluí muitas referências aos estudos de Schenkel. O livro foi um sucesso porque nenhuma outra síntese havia sido escrita acerca do comportamento dos lobos desde 1944, como tal, “ O Lobo” vendeu bem. Foi originalmente publicado em 1970 e republicado em 1981. Actualmente existem mais de 120.000 cópias em circulação deste meu livro. A maioria dos outros livros posteriormente escritos sobre lobos basearam-se bastante no livro “O Lobo”, dessa forma contribuindo para a distribuição mundial da informação errada acerca do conceito dos lobos alpha.



Finalmente nos finais de 1990 após eu ter vivido com uma matilha de lobos selvagens no seu habitat natural na ilha de Ellesmere perto do Pólo Norte por muitos verões presenciando pessoalmente as interacções entre pais e as suas crias, eu decidi corrigir a informação. Por essa altura, no entanto, quer o público em geral como a maioria dos biólogos já tinham adoptado completamente o conceito alpha e a sua terminologia. Parecia que ninguém conseguia falar de uma matilha de lobos sem mencionar os alphas. Muitas pessoas perguntavam-me o que tornava um lobo alpha um lobo alpha e que tipo de lutas e competições ocorriam para que ele assumisse essa posição.

Em 1999 eu publiquei o artigo “O Status Alpha, Dominância e Divisão de trabalhos em matilhas de lobos” no Jornal de Zoologia Canadiano dessa forma corrigindo a informação errada na literatura científica. Eu segui esse artigo em 2000 com outro artigo “ Liderança nas matilhas de Canis Lupus” publicado no Canadian Field Naturalist mais uma vez focando-me no papel dos lobos como pais no grupo social de lobos.

No entanto, bem se diz que demora cerca de 20 anos até que uma nova ciência realmente seja absorvida, incluindo novos feitos médicos! Este “dito” parece estar a confirmar-se com o conceito do lobo alpha. Muitos dos meu colegas biólogos já aceitaram os novos termos e actualizações, mas outros enquanto discursam, corrigem-se quando conversam comigo; ainda outros parecem completamente abstraídos do tema. É realmente inspirante ver novos documentos publicados, tais como os que citei acima na introdução a este artigo, que usam as novas terminologias.

O assunto não se prende meramente com semântica ou um do que é politicamente correcto. É um do que está na realidade biologicamente correcto, uma vez que o novo termos de pais ou par que procria descreve de uma forma exacta o papel destes animais na vez de perpetuar uma ilusão errada.
Um local onde este assunto se torna particularmente confuso é no Parque Nacional de Yellowstone, onde multidões visitam e passam muito tempo a observar lobos, lado a lado com os biólogos e naturalistas. Porque a população de Yellowstone foi recentemente refeita e goza de um excesso de presas (cerca de 6,000 a 12,000 veados, 4,000 bisontes e muito mais) a estrutura social das matilhas é mais complexa e artificial do que as normais. Aí, os lobos jovens dispersam muito mais tarde, quando têm 2 ou 3 anos ao invés de 1 ou 2 anos, fazendo com que os grupos sejam maiores que conteêm mais indivíduso que qualquer outro grupo de lobos no mundo.
Nestes grupos onde tanto a mãe e algumas das suas crias mais velhas já encontraram a maturidade sexual mas não dispersaram, todas acasalam no mesmo ano, sendo que as crias mais velhas normalmente são acasaladas por machos lobos jovens estranhos ao grupo.
Quando mais do que uma fêmea procria num só grupo, as fêmeas tornam-se naturalmente mais competitivas, portanto talvez seja apropriado referir a matriarca original como a fêmea alpha e as suas filhas como as “betas”. Os observadores de Yellowstone usam com regularidade esta terminologia, mas muito frequentemente esta é aplicada a todos os lobos que procriam, mesmo naquelas matilhas onde só existe 1 par de lobos a procriar. Enquanto que não é incorrecto usar o termo alpha em grupos de lobos onde existem mais do que uma fêmea a procriar, era desejável e até mesmo aconselhável usar outra terminologia com menos significado subjacente. Por exemplo, a fêmea alpha poderia ser chamada de dominante ou matriarca, e as suas filhas de subordinadas.
Esta aproximação iria ajudar na reforma da terminologia e na percepção quer da ciência como do público em geral de como se organizam os lobos.


Esperemos que leve menos do que 20 anos até que os media e o público adoptem a terminologia correcta e assim de uma vez por todas acabar com a visão antiquada e errada dos lobos como um grupo de indivíduos agressivos que consistentemente competem uns com os outros por uma estatura hierárquica.


L. David Mech is a senior research scientist for the U.S. Geological Survey and founder and vice chair of the International Wolf Center. He has studied wolves for 50 years and published several books and many articles about them.

Comentários

Cláudia, oi... excelente post :D

Deixei um selinho para você em: http://diarioveterinaria.blogspot.com/2009/03/feedback-do-blog.html

bj

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