DOMINÂNCIA NÃO É UMA CARACTERÍSTICA DA PERSONALIDADE


DOMINÂNCIA NÃO É UMA CARACTERÍSTICA DE PERSONALIDADE
por Sophia Yin, DVM, MS Setembro 2009 este artigo foi traduzido na totalidade deste artigo

Quem anda habitualmente com cães e os seus donos já provavelmente ouviu esta ou outra afirmação semelhante pelo menos um milhão de vezes: “O meu cão é dominante, ele ignora os nossos comandos e brinca muito à bruta com outros cães”. Para o dono de cão comum a afirmação parecerá totalmente normal, mas para os investigadores que estudam a hierarquia social em animais desde leões, macacos, até touros, esta afirmação irá provavelmente suscitar uma pausa seguida de um “hum?”.

Isto acontece, porque enquanto que um indivíduo num grupo pode ter um rank de dominância alto, a dominância nos cães, e, já agora, em qualquer outro animal não é uma característica pessoal.

A DEFINIÇÃO DE DOMINÂNCIA

Então, o que é exactamente dominância? Dominância é definida em comportamento animal como um relacionamento entre indivíduos que é estabelecido através da força, agressão e submissão para determinar quem tem acesso prioritário a múltiplos recursos tais como, comida, local de descanso preferível, e acesso a procriar.
Por exemplo, quando um grupo de touros famintos por sexo, são apresentados uns aos outros eles imediatamente lutam de forma a estabelecer a hierarquia.

Se você for uma mulher e estiver a ler isto, nesta altura estará a rolar os olhos e a pensar: “sinceramente, coisas de homem…” mas na vida selvagem este tipo de luta é na realidade muito importante. O touro que ganhar o encontro com os outros, sem dúvidas obterá o ranking mais alto e como tal tornar-se-á o macho dominante no grupo. Isso quer dizer que ele terá acesso prioritário a comida, locais de repouso e “huba huba!” às fêmeas em idade de procriar. Idealmente estes machos com um ranking alto, não irão pavonear-se de um lado para o outro sem fazer nada, eles querem procriar. O touro com maior ranking terá maiores probabilidades de procriar o que significará pequenos “juniores” que carregarão os seus genes.

Ser o macho dominante significa que durante a época de acasalamento os outros machos darão prioridade ao mesmo se este se aproximar de uma fêmea com cio. Por isso se um macho de ranking inferior estiver a planear acasalar com aquela vaquinha jeitosa, se o touro dominante se aproximar, ele rapidamente mudará os seus planos e irá na direcção oposta.
Mas isso não é o final da história. Porque o sexo é tão importante para passar os genes até touros aparentemente “burros” conseguem jogar um jogo tão complexo como aquele que acontece na sua telenovela favorita. Um touro de ranking inferior, pode procriar às escondidas com as vacas com os touros de ranking superior não estão a ver. Como resultado, num pasto constituído por várias fêmeas e machos, as vacas serão acasaladas por mais do que um macho. Mas o touro de ranking superior irá acasalar mais que todos.

Um touro de rank superior pode afugentar touros de ranking inferior de uma fonte de comida importante ou os subordinados podem simplesmente automaticamente afastar-se, mas os subordinados poderão também voltar à fonte de comida às escondidas, quando o indivíduo dominante não está presente para guardar a comida. Em ambos os casos, os subordinados não estão a tentar obter um ranking superior, estão apenas a usar uma estratégia alternativa para acasalar e obter outros recursos. Nota aos leitores: este tipo de lógica resulta bem para explicar por escrito os rituais dos touros, mas não tente usá-lo como justificação para si mesmo, uma vez que os humanos procuram retaliação e vingança mais tarde.

O RANKING DE DOMINÂNCIA MUDA CONFORME O GRUPO SOCIAL

Ao contrário de uma personalidade, que por definição é um conjunto de comportamentos característicos que se mantêm inalteráveis em diferentes contextos, o ranking muda dependendo do grupo no qual o animal se encontra inserido. Se quatro indivíduos dominantes dentro do seu grupo social, forem colocados juntos, apenas um poderá ser o dominante nesse novo grupo. Qualquer pessoa que tenha galinhas está familiarizada com este conceito. Por exemplo, uma vez tive 3 galinhas treinadas, duas fêmeas e um macho. Quando adicionei a terceira fêmea a “goldie” ela imediatamente começou a picar as outras duas e estabeleceu que ela era de um ranking maior que qualquer uma das outras duas. Isto aborreceu-me um pouco, porque as duas outras eram engraçadas e sabiam muitos truques. Mas inevitavelmente consegui a minha “vingançazinha” quando trouxe a galinha má “Goldie” e o meu galo para casa de uns amigos, as galinhas deles, que eram grandes puseram os dois no seu lugar, a Goldie e o galo eram os dominantes no seu anterior grupo na minha casa, mas eram os últimos da hierarquia na casa dos meus amigos.

SE A DOMINÂNCIA NÃO É UMA CARACTERÍSTICA PESSOAL ENTÃO O QUE DIZER DESTES COMPORTAMENTOS?

Você estará provavelmente a pensar que se a dominância não é uma característica pessoal então quais são as características das quais falamos quando incorrectamente nos referimos a um cão como dominante? Depende da situação.
Por exemplo, ouvi um famoso treinador de cães descrever na televisão como um cão que era obcecado por luz estava a tentar dominar a luz. A ideia era que o cão deveria aprender a ser submisso com a luz. Em comportamento animal submissão e comportamentos submissos são aqueles que têm por objectivo parar a agressão, sinalizar que um indivíduo não quer lutar. Portanto, se você aplicar esta definição na declaração do treinador acima citado, o treinador estará a dizer que quer que o cão demonstre comportamentos que parem a agressão da luz. Hmmmmm! Soa mal! Pois claro. Por mais estranho que este cão possa ser, ele não tem uma relação social com a luz, o que ele mais provavelmente tem é uma desordem obsessivo-compulsiva, que causa uma fixação pela luz.

Depois existe o caso do cachorro ou cão adulto que adora saltar para cima de si para o cumprimentar exuberantemente ou até ladra para que você pegue nele e o coloque no colo. Eles não estão a usar agressão e não estão a tentar estabelecer nenhum tipo de ranking ou prioridade a recursos. Eles são apenas mal treinados e mal-educados. O seu saltar e ladrar exuberantes, foram reforçados quando os donos desistem e finalmente lhes fazem festas ou lhes dão atenção quando eles demonstram estes comportamentos inapropriados.

E aí está o caso do meu Jack Russel malandro “Jonesy”. Quando o fui buscar com 8 meses de idade e o apresentei ao cão dos meus pais, a Maggie e ao meu pastor australiano a Zoe, ele imediatamente tentou montá-las. Seria isto um exemplo claro dele a tentar estabelecer ranking? Ou seria um exemplo de um cachorro tonto a tentar ter relações sexuais com duas cadelas esterilizadas? Na realidade? Não era nenhuma das duas. Se o Jonesy (que já era esterilizado) estivesse a tentar estabelecer um ranking superior, então quando elas o afastassem ele teria lutado. O que ele fez, no entanto, foi andar aos pulos à volta delas e fazer vénias. O comportamento de montar as cadelas é um comportamento de brincadeira inapropriado. Na realidade, Zoe era claramente a mais dominante. Ela várias vezes o afugentava de brinquedos ou objectos de roer e ele ia sempre embora. Mas se ela não estivesse a prestar atenção ele muitas vezes ia perto dela e montava-a. Portanto, a característica que ele estava a exibir era a de ser socialmente inadaptado.

Poderia continuar com vários exemplos, e as causas de um comportamento precisam ser avaliados numa base individual. Se você se mantiver fiel à descrição científica de dominância e depois olhar mais atentamente para o comportamento do cão, a sua linguagem corporal e a reacção dos animais que o rodeiam, você descobrirá que comportamento canino é bem mais complexo e interessante.

Mais informação:

http://www.askdryin.com/dominance.php
http://wwwaskdryin.com/dominanceindogs.php

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