"Tinha que ser..."

“TINHA QUE…”

por Suzanne Clothier
http://www.suzanneclothier.com/blog/i-had

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Existem poucas frases que realmente me irritam. Quando converso com treinadores, aquela que imediatamente instiga uma reacção em mim é aquela que explica porque é que um treinador usou uma técnica ou um equipamento de treino específico com “tinha que..”.

Quando pedimos para que expliquem melhor porque “é que tiveram” que usar a maioria das vezes descobrimos que outras opções estavam disponíveis, mas a escolha do uso daquela técnica ou equipamento foi feita por motivos tais como “A aula estava quase a acabar” ou “o cliente estava impaciente/frustrado” ou “já tinha tentado tudo o resto” (a sério?) e muito mais desculpas que não estão relacionadas com a cuidadosa análise do cão, do comportamento, da situação ou da metodologia de treino. Pior que isso, o treinador parece tentar encontrar justificações que levem a crer que foi o animal que deixou o treinador sem opções.

Isto sempre me aborreceu, e lembrava-me sempre de algo mais mas não conseguia perceber bem o quê até recentemente quando lia um romance. A esposa era abusada pelo marido e este justificava o seu comportamento dizendo que tinha sido ela que tinha provocado aquilo porque ela não tinha (preencha o espaço vazio – obediente, atenciosa, bonita?, etc..).

Existem situações nas quais o uso da força usado em defesa própria ou para defesa de outro ser vivo indefeso é justificável. A nossa lei criminal permite estas transgressões mas mesmo assim coloca em todos nós a responsabilidade de usar todos e quaisquer outros meios disponíveis antes de usar a força. Seria mesmo bom que treinadores de cães também começassem a ser responsabilizados pelo uso de aversivos e da força. Eu pergintp sempre o que mudaria se os treinadores tivessem que justificar as suas acções, incluindo promenores das opções existentes, ponderadas e aplicadas e aquelas que nem sequer foram tentadas.

O exemplo mais comum é aquele treinador “positivo” que aparece com uma enforcadora de bicos no seu cão que “está muito excitado”. Observar o cão puxá-los para dentro do seminároi, eu observo como eles (os treinadores) são contribuidores activos no processo. Afinal de contas, são precisos dois para casar e dois para puxar. Os cães quando estão sem trela nunca puxam. Mas vejo um treinador a segurar uma trela que é um instrumento que o liga ao cão e ouço constantemente “Bem, eu não gosto de usar este tipo de coleiras mas ele é tão eléctrico que eu tive que usar”. O que fica na mesa como outras opções para o cão que puxa nunca é mencionado: reforço positivo, consistência das expectativas que temos do cão de trela, treino, manuseamento apropriado da trela para evitar os puxões do dono, ensino de auto controlo, etc..

Sempre que uso força, faço três coisas:

1. Estar o mais ciente possível que usei força. Eu chego mesmo a dizer a mim própria que usei força e faço uma nota mental para rever esta escolha promenorizadamente. Assim que posso eu...

2. Pergunto a mim mesma porque considerei necessário o uso de força. Por vezes é puramente de forma defensive ou a única solução naquele momento preciso em que fui apanhada de surpresa ou o animal fez algo completamente inesperado e potencialmente perigoso para ele mesmo, para mim ou para os outros que estavam perto. Por vezes, estou com muito pouca paciência e perco a minha noção de justeza. Seja como for, eu tenho que me responsabilizar. Eu levo o provérbio “onde acaba o conhecimento, começa a violência” muito a sério.

3. Eu pergunto a mim mesma, como é que me meti nesta situação. Será que excedi o limite do animal. Ignorei os seus sinais de aviso, violei a necessidade de segurança do animal, ultrapassei um treshold (limite)? Será que pus o animal numa situação para a qual os seus conhecimentos e capacidades eram insuficientes para saber o que fazer? Será que ignorei algum comportamento anterior que claramente indicava que esta situação poderia acontecer ou repetir-se? Seja qual for a resposta, a solução reside em reconhecer e identificar onde é que eu errei. Não o animal. Os animais que se sentem seguros, que são mantidos abaixos dos seus limites de reacção, que não enviam sinais de aviso, que sabem como cooperar e cujas capacidades e conehcimentos lhes permite lidar com as situações - estranhamente esses nunca precisam que ninguém use força neles. Estranho....

Eu sou o advogado de defesa, o juri e o juíz tudo num só incluído no papel de treinador e sou também o réu a ser julgado pelas decisões que tomo. É um tipo de Paw & Order, porque por vezes existem também detectives envolvidos que recolhem todo o tipo de provas que serão trazidas ao tribunal. Se eu ignorei algum comportamento no passado que me iria fazer antever a resposta do animal, então o advogado perguntará firmemente, “Porque é que decidiste ignorar a informação que tinhas ao teu dispor?”. O meu advogado de defesa não vai ter muito a dizer nessa altura. Se eu ignorei sinais ed aviso, por vezes o meu advogado de defesa pode alegar simples incompetência ou que simplesmente não estava suficientemente familiarizada com este animal em particular para saber ler correctamente os seus sinais. Tendo aprendido a minha lição e depois de pedir desculpas, vou em liberdade mas condicional porque todos os envolvidos têm a certeaza que não voltarei a repetir o mesmo erro. Os erros cometidos por causa de julgamentos errados são ofensas usualmente desculpáveis, desde que eu não seja levada a tribunal pelo mesmo erro. Todas as ofensas passadas podem ser trazidas a tribunal. Não existe a protecção do caso já jugado- Eu acho que é uma excelente ideia que um treinador se mantenha honesto acerca dos erros que cometeu no passado e no presente. Mantém-me uma pessoa honesta.

Substituir a frase “eu tive que…” por “eu escolhi…” coloca a responsabilidade onde ela pretence: no treinador que tomou a escolha de usar aquele equipamento ou técnica. Ajuda-nos a recordar que ao fazermos essa escolha, por definição estamos a excluir as outras possibilidades. Quando usamos força, precisamos de ser extremamente claros e admitir que estamos a descartar outras opções, outras possíveis soluções, também podemos estar a limitar aquilo que conseguimos fazer ao não tentar opções diferentes.

Há muitos anos atrás enquanto tentava demonstrar algumas técnicas para ensinar os cães a andarem de trela sem puxar, durante um seminário, começei a ficar exasperada com um Labrador jovem. Clancy tinha saltado e batido com a cabeça na minha cara com força não uma mas duas vezes, fazendo com que visse estrelas e realmente magoando-me. O Clancy não era malicioso, nem queria magoar-me ele era apenas um adolescente exuberante que tinha aprendido que saltar daquela forma era aceitável. Tendo ele mesmo pouca sensibilidade física, duvido que por um segundo ele se tenha apercebido que aquelas cabeçadas eram extremamente dolorosas para o humano. Eu tinha até ali sido bastante paciente, calma e vagamente bem sucedida mas à segunda cabeçada a minha paciência começou a acabar. Eu comecei a pensar “uma boa correçao pode acabar com isto”. Surpreendi-me a mim mesmo ao pensar isto, mas ainda me choquei mais (e algumas pessoas na audiência) quando pedi permissão explicita ao dono para aplicar uma correção física ao cão. Ela concordou, confiando em mim como treinadora que faria o que seria melhor para o cão.

No momento em que ela concordou deixar-me usar força no cão dela eu supreendi-me a mim mesma quando ouvi uma pequena voz dentro de mim a desafiar-me a ir mais longe e ajudar este cão SEM usar força. Era como se alguém tivesse atirado o testemunho aos meus pés. Faz isto sem força, sem ego, sem justificar o uso da força.

Enquanto o debate interno ocorria, eu decidi tentar e ver até onde conseguia ir antes de usar a força. Estava bem claro dentro de mim que o uso da força era uma escolha que eu estaria a tomar, e não algo que eu tinha que fazer. Eu perseverei na aplicação minuciosa de técnicas que tinha usado já antes em imensos cães, uma aproximação positivo que não envolvia o uso de intimidação ou força e que procurava controlar a mente e não o corpo do cão. Eu nunca cheguei a usar a força com o Clancy; e consegui ajudá-lo a encontrar uma nova forma de andar à trela. A sua resposta anterior não era mais do que uma originada pela falta de conhecimento e capacidades. Como é que poderia justificar o uso da força num cão cujo único crime era não ter sido ensinado o que fazer?

Muitas poucas pessoas na audiência me teriam culpado caso eu tivesse usado a força. Elas tinham testemunhado as cabeçadas que tinha levado. Elas tinham visto à quanto tempo estava ali a tentar, como se existisse algum tempo específico que depois de passado justifica o uso de força. Isto em particular deixa-me muito triste porque ensinar outros treinadores a serem pacientes é algo que tento fazer através do meu trabalho – e à conta do que aconteceu quase enviei a mensagem oposto ao quase fazer o que “tinha que..”. Na verdade, mais tempo, mais paciência e fatias finas de salsicha resultaram lindamente, aliás com sempre. A minha voz interior responsabilizou-me, ajudou-me a encontrar a paciência necessária e a olhar claramente para que o que aquele cão precisava para ser bem sucedido.

Eu penso muito no Clancy. Tenho-o comigo há anos no meu coração e aí irá permanecer. Eu irei continuar a ver a confiança da sua dona nas minhas capacidades como treinadora e a ver os olhos brilhantes e confiantes do Clancy. Aquela voz interior que me responsabilizou é a que me desafia a encontrar novas formas de manter aquele brilho nos olhos, em todos os olhos que me fitam. É o meu trabalho não trair a confiança dos cães. Eu responsabilizo-me pelo que escolho fazer, e isso nunca pode ser explicado com uma frase como “tive que...”.

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