Fight ou Flight

Flight ou Fight – é a resposta ou reacção de um animal a uma situação percebida pelo mesmo como uma ameaça à sua sobrevivência, que envolve mudanças fisiológicas no corpo do animal através da activação do sistema nervoso simpático, impulsionando o animal a lidar com o perigo fugindo ou lutando.

Este conceito foi primeiramente descrito por Walter Cannon na sua teoria chamada de Teoria de Cannon em 1929. Baseado na sua teoria, na presença de um estímulo ameaçador, uma parte do cérebro regula as funções metabólicas e autonómicas de forma a preparar os musculos para qualquer acção violente subsequente, isto é, para ou fugir ou lutar. Um exemplo de uma reacçao autonómica é a libertação de adrenalina no corpo e algumas das manifestações fisiológicas incluem aumento da pressão sanguínea e do ritmo cardíaco (em resultado da concentração de adrenalina no corpo).

Se por algum motivo, fugir se revelar ineficaz ou impossível o animal muito provavelmente irá lutar para se defender. No entanto lutar, implica um esforço muito grande a nível energético e um risco ainda maior (o animal pode sair gravemente ferido) por isso é usualmente a última resposta fisiológica a operar.

É muito importante sabermos isto, porque quando muitas vezes assistimos a um cão a ser agressivo, assumimos imediatamente que ele está a ter uma reacção ofensiva, quando na realidade podemos estar a observar uma resposta fisiológica de fuga [flight].

Pode ser que aquele cão no passado, tenha tentado fugir e esta estratégia tenha sido ineficaz. Pode ser que tenha aprendido que a agressão ou o ataque é uma resposta mais eficaz no aumenta da distância entre ele e o estímulo percebido como uma ameaça. Pode ser que fugir fosse uma estratégia que não estivesse disponível (estar preso, de trela ou num canto sem saída por exemplo) e a resposta fisiologica de luta foi accionada. Existe muitas variantes a ter em conta, mas acima de tudo é muito importante sabermos que estas resposta fisiológicas são naturais, importantes para a sobrevivência da espécie e do indivíduo e incontroláveis pelo mesmo, isto é, não são executadas “de propósito” nem com segundas intenções.

Lembre-se que fight ou flight é a resposta ou reacção de um animal a uma situação percebida pelo mesmo como uma ameaça à sua sobrevivência, isto é, não somos nós que determinamos se é aceitável que o cão considere um determinado estímulo ou acção uma ameaça, mas sim o animal em questão e a resposta que esse estímulo gera.

A explicação para muita coisa

Vamos supor que o Bobby tem pavor da água. O João tinha por hábito agarrar na coleira dele e arrastá-lo para a banheira para o seu banho ocasional. Esta situação ocorreu diversas vezes e apesar as lutas constantes e da crescente resistência, o João conseguia sempre arrastar o Bobby para a banheira segurando-o pela coleira e usando a sua força considerável. Através de gritos, esperneios e algumas ameaças o João sempre conseguiu que o Bobby fosse parar à banheira.

Um dia estava o João sentado a ler o jornal na sala e o Bobby deitou-se aos seus pés. A filha do João entrou na casa de banho e ligou o chuveiro ao mesmo tempo o João agachou-se para fazer uma festa no pescoço do Bobby. O Bobby apanhado de surpresa quando viu a mão a aproximar-se de si reagiu mordendo a mão do João.
O que aconteceu aqui foi um caso de condicionamento clássico (aproximação da mão + som do chuveiro = vou tomar banho) e a resposta agressiva adveio do historial passado no qual o cão tentou escapar várias vezes à situação sem sucesso. Aqui temos uma situação clássica em que o comportamento escalou de uma situação de fuga para luta (defesa).

“Mas eu só queria fazer festinhas!” – diz o João

Naquela circunstância específica dada a combinação de factores o Bobby reagiu ao resultado mais provável. Não somos nós, que estabelecemos se a situação é uma ameaça ou não (e para nós nenhuma das situações é uma ameaça, nem ir ao banho nem fazer festas) mas obviamente que para o Bobby especificamente é porque a aproximação da mão foi associada com o barulho da água na casa de banho e a ida para o banho. Toda essa situação aversiva o Bobby sabe que não pode escapar e reage defensivamente.
Se entendermos o comportamento do cão desta forma analítica, conseguimos detectar mais rapidamente o problema, e consequentemente resolvê-lo de forma mais rápida e eficaz.

É muito importante portanto, retirar um historial exaustivo das interacções do cão, determinar com exactidão os estímulos presentes na altura do incidente e as consequências deste. Se abordamos um caso de agressão de forma leviana e com preconceitos, vamos não só falhar redondamente em resolver o problema como podemos inadvertidamente gerar outros.

Em suma, o entendimento de como estamos programados a responder a determinadas situações vai-nos permitir analisar de forma eficaz e precisa o comportamento do animal. O comportamento é algo fluente e complexo não é um bloco de cimento onde podemos carvar letras que aí permanecem indefenidamente. É necessário analisar todas as variantes que influenciam o comportamento e ter me conta todos os estímulos e condicionantes se queremos ser precisos e justos e os cães não merecem menos do que tudo isso.

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